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2 Contos sobre Covardia


Imagem retirada das imagens de Tv de prédio atingido na Ucrânia

Conto “A ROTA DA COVARDIA”

O mundo dos homens é mesmo estranho ao nosso – pensava ela, olhando incrédula para a tela da TV. Então era aquele homem miserável que o nosso presidente tinha ido correndo visitar no momento mais impróprio do mundo? Se fosse uma mulher no comando teria sido mais fácil dizer – COVARDE! – e encerrar o assunto. A virilidade propalada aos quatro ventos dos homens tinha aquela cara de propaganda enganosa - não parecia compatível com generosidade e transparência de ações e não aguentavam uma dor de barriga das brabas, uma febrinha, uma prisão de ventre sequer, sem gemer: “Estou morrendo, Dr; me acuda que eu vou morrer”...


O mundo (dos homens, claro) censura fortemente ao Putin, mas não quer parar de comprar nem de vender pra ele.


Ela olhava as imagens e se perguntava o que aquele soldado pensou pra desviar um tanque de sua rota e ele passar por cima do carro de um idoso - no meio da rua, na frente de todo mundo, na frente das câmeras?


Como um covarde pensa? O que um covarde sente? Ele manda matar todo mundo sem dó nem piedade - mas nem pensa em empunhar suas “arminhas“ e ir enfrentar os olhos das pessoas porque frente a frente a coisa muda de figura. Covarde.


- Quantas mulheres no mundo, agora, sentem desprezo por você, seu verme? Ta colecionando nojo, hein? Ela via na tela aqueles olhos apertados de bicho falso - tão covarde que mandava emissários explicarem o inexplicável.


Ela nem queria ouvir. Tirou o som da TV. Mas apareceram na tela mulheres loiras platinadas resumindo o motivo de matarem crianças e velhos, de tanques passarem por cima de carros, bombardearem um pais porque não admitem democracia pra ele. Agora um outro cara com a cara de pau dos puxa-sacos justifica uma invasão onde um lado tem traque e outro bomba atômica.


E o nosso presidente – mestre dos problemas de ocupação do espaço errado, deve estar fugindo da coragem que se precisa ter para dizer claramente como o povo que ele governa (ou não, já que é um desgoverno total, isso aqui) repudia e despreza o que o Putin fez.


Ela se arrumava pra dormir e ia ficando cada vez mais revoltada, conforme via as cenas na tela da TV: - Tenha coragem de dizer DES-PRE-ZÍ-VEL! Bora, Presidente! Nos represente pelo menos agora! Diga alguma coisa consonante pelo menos uma vez na sua vida!


Velhos se alistando, Kiev caindo, famílias se despedindo...


-Seja fiel ao Brasil, homem de Deus! Ai, deixa, deixa... porque ando mesmo cansada dessa sua incapacidade de compreender o momento certo... eu mesma digo:


Mensagem do povo brasileiro: - Putin, seu covarde, se não nessa vida, espere muito sofrimento na outra porque nós não vamos perdoar você. Nunca. COVARDE. COVARDE. COVARDE! Ser desprezível. Rasteje pelo chão como o verme que você é.


-Viu, Presidente? É fácil. Basta saber claramente de que lado se está e admitir que a paz precisa de gente corajosa, ao invés de omissa.


Enrolou uma fatia de queijo com goiabada, deu uma dentada e pensou no camarão que custou 900 mil, mais os 600 mil do tratamento, depois que a coisa toda entupiu dentro das tripas do homem – “Ninguém merece, viu? Ninguém merece!

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Putin, o amuado”

Em menina brigava com os irmãos, primos, amigos, colegas. Alguns prometiam rasgar os cromos e rasgavam mesmo. Outros prometiam nunca mais dirigir a palavra e isso demorava uns 5 minutos. Outros juravam odiar para sempre e na próxima brincadeira já nem se lembravam do que tinham dito. As promessas eram para sempre, durante uma semana, um dia, uma hora, um segundo. Tudo era muito e tudo era nada. Tudo muito intenso, mas sem mágoa, sem peso, sem culpa eterna. Apenas ainda não entendiam que não se domina a vida, nem as pessoas e que não era pela briga que os problemas e as diferenças de opinião se resolviam.


Na adolescência vieram as dores e brigas amorosas. As desilusões, as tristezas, as mágoas, as tragédias profundas. Tudo era sentido tão profundamente que ainda hoje, com mais de cinquenta anos, se lembra de algumas dessas brigas. Como se sofre nesta fase da vida, como dói tudo o que acontece de forma diferente da que se deseja. Ainda permanece a ideia que se pode mandar na vida e nas pessoas e fazer tudo do nosso jeito. E quando não é do nosso jeito ameaçamos, fazemos cara feia, brigamos tentando intimidar os outros para obter o que desejamos. Ana assiste a TV e a toda a loucura que o menino ou adolescente Putin resolveu fazer com vidas humanas. No século XXI, um homem que dirige uma das nações mais imponentes na história e cultura universal se comportando como um menino amuado. Zangou porque não lhe dão o que ele quer e agora vai estragar todos os brinquedos, vai estragar tudo o que os outros construíram. Se ele não pode ter o que quer, ninguém vai ter, nem ninguém vai ter a vida sossegada. E ainda comenta: “espero ser ouvido”, senão vocês vão ver do que eu sou capaz. Ana sabe bem do que ele é capaz. Envenenar, prender, destruir a vida de campeões do mundo de xadrez, empresários milionários que são contra a sua forma de presidir, etc. Sabe ela e todos, mas não esperava que fizesse algo tão tragicamente patético. Com brinquedos é feio e o que está a acontecer, como se chama? Quantos militares e civis russos e ucranianos querem estar a fazer o que foram obrigados a fazer? Ana conheceu Kiev, quando era atleta. Pensar naquelas pessoas que conheceu, contra quem jogou, que via nas ruas e imaginar o que estão a viver, nem parece verdade. Uma das enfermeiras que cuidou dela, após a cirurgia, era ucraniana. Mulher de poucas palavras, mas que a tratou com imensa competência. Ana nunca a esqueceu.


O que somos afinal? Que importância tem a nossa vida? Se estivermos na Ucrânia sofremos de um jeito, se estivermos na Rússia, de outro jeito. O que é realmente importante aprender? Ana vê toda a gente em busca de dinheiro, status, poder e percebe que está tudo errado, porque estas guerras e estas buscas erradas não deviam mais acontecer. E, no entanto, acontecem. Como acontecem tantas outras. Não somos capazes de aceitar quando não temos o que outros têm. Não somos capazes de aceitar que não podemos retirar aos outros aquilo que eles não querem dar ou partilhar. Não somos capazes de perceber que estamos juntos num planeta com limites cada vez maiores. Não somos capazes de perceber que o nosso valor não tem nada a ver com a profissão que temos, o lugar que vivemos, o sucesso dos nossos filhos, o dinheiro que temos no banco. Ana já não pensa só no menino Putin, mas nos meninos maridos e namorados que matam as mulheres que os querem deixar. Pensa nos meninos e meninas, pessoas que lhe mentiram em situações graves, que a atraiçoaram, que lhe tiraram tudo o que lhes foi possível e que acham que venceram e a destruíram. Que sorriem e se lambuzam nas estratégias que montaram durante dias, meses, anos ou décadas. Não sabem, como Putin não sabe, que por mais que tirem, que mintam, que maltratem, que destruam, que matem, não conseguem nunca o que querem. Não é tirando, nem estragando que se obtém seja o que for. Nada se conquista de verdadeiro.


Ana se sente junto de todos os que sofrem neste momento e sabe que não é a única. Isso é muito poderoso. Pode até ser pelo silêncio e pelo pensamento. Todos e todas os que já viveram injustiças vis estão espiritualmente juntos e isso é muito poderoso.


Mesmo preocupada, mesmo com medo, de tudo o que está acontecendo e do que poderá vir a acontecer, esboça um puro sorriso. Ninguém é capaz de tirar o que ela é, o que cada um é. Como Putin ainda não sabe isso?

Ana Santos, professora, jornalista


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