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2 Contos para Walewska


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Lisa Kristine, Humanitarian Photographer And Fine Artist

Conto “TEMOS QUE FALAR DE SOLIDÃO”

Todo mundo tem ídolos, ela também. Seu esporte de base tinha sido o voleibol e dentro de sua geração lá estavam Jackie e Isabel. Mas até chegar às últimas seleções – das quais não gostava nem da forma como os técnicos se colocavam reclamando sem parar dentro de quadra – conhecia as anteriores e torcia por elas como louca. Amou ver Ana Mozer como ministra e teve bastante nojo dos políticos e suas políticas, do Centrão, como sempre – sempre a favor de prostituí-la – a política – mais um pouco.

- A política do Brasil é muito rampeira, gente!

Mas aquela notícia, vinda de uma geração recém aposentada a congelou. Morrer assim, tão de repente? Um dos esteios daquele time? Ela era um relógio – nunca atrasava.

- O que houve? Ela não falou com ninguém? Não conseguiu colocar em palavras o seu mal estar com o mundo? Com as pessoas? Com o andamento da vida? Não conseguiu bloquear algum ataque?

Os times foram invadidos por comentários infelizes de atletas que quiseram aparecer como politizados, mas que só conseguiram ser politiqueiros.

- Será que o time feminino também sofria pressões nesse sentido? Porque atleta de alta competição é sinônimo de pressão altíssima. De preconceito altíssimo. Quando a gente via uma Isabel, ficava com a falsa impressão de liberdade, mas não.

- Tem psicólogo desportivo na seleção? Em algum time de vôlei grande? Ou os super machos das federações ainda confundem psicólogo desportivo com acompanhamento clínico? Afinal, o que acontece lá dentro?

A noção da fragilidade da vida era sufocante. O salto... de quem não se dispõe mais... havia tantas palavras que ela tinha certeza que não tinham sido ditas.

Revisou suas craques. Ainda bem que craques são imortais, pensou. Dedicou uma prece a ela e a todas, todos, todxs os que já haviam passado. O mundo fica menor a cada vez que um bom se vai embora, não importa como, não importa onde.

- Deputado homofóbico asqueroso e ainda vivo nesse mundo de meu Deus, poluído e cada vez mais quente... Mas alguém mágico, perfeito não está mais. Militares gananciosos e golpistas ainda estão soltos, mas grandes atletas, mágicos...

Enxugou a lágrima que não quis cair e ouviu dentro do peito o grito que sempre balançava o Maracanãzinho: Brasil, Brasil, Brasil...

- Adeus.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Desculpa...”

Te vimos muitas vezes na televisão. Te vimos ganhando tantas vezes... Uma vida, uma força – uma guerreira. Tantas vezes consideramos que eras muito feliz. Uma privilegiada. Tantas vezes quisemos as viagens que fizeste, conhecer as pessoas que conheceste, aprender do que aprendeste, ganhar o que ganhaste. Ficamos presas nesse lugar do que tu tinhas e do que não tínhamos.

Nunca te agradecemos pelo que nos deste. Pelo que deste ao Brasil. Nunca te perguntamos se estavas bem. Nunca te vimos como um ser humano. Nunca pensamos em te oferecer ajuda, apoio, carinho, perdão. Não te perguntamos nunca se sofrias quando treinavas ou quando entregavas tudo de ti pelo Brasil. Desde os 12 anos. Nunca nos perguntamos o que tiveste de deixar de comer, falar, fazer, ter, ir, recusar. Te observávamos muito e não te perdoávamos nada. Não aceitávamos teus erros. Teus acertos eram normais, obrigatórios. Só pensávamos em medalhas para o Brasil. E tu estavas sempre depois. Eras mais uma jogadora com regalias, com sorte, não questionavamos o que precisavas, o que te fazia sofrer, ou o que te deixava triste.

Precisaste mergulhar do alto do 17º anel de Saturno para sair de jogo aos 43 anos para que parássemos para pensar. Para o Brasil se pensar. Não sei se o Brasil vai entender. Não sei se o Brasil vai mudar, depois da forma como foste embora. É muita gente buscando o poder, a liderança. E ninguém se preocupando com o bem estar, com a saúde mental das pessoas, com o equilíbrio entre o exigir e o retribuir. Com o respeito pelo ser humano que vive debaixo das nossas ordens. Nem nos ocorria que também ficavas triste, como as pessoas comuns. Nunca pensamos que eras humana, nunca te vimos assim. Víamos-te mais como uma máquina, uma animação, um jogo da inteligência artificial – onde a gente pedia, desejava e tu conseguias. Julgávamos-te feliz.

Eras campeã olímpica, como não serias feliz? Nunca pensamos no que sofreste, no que aguentaste, no que calaste, no que perdeste, no que não pudeste fazer, os dias que não pudeste descansar, os dias em que não podias falar com ninguém sobre o que sentias, as milhões de vezes que obedeceste aos treinadores sem querer.

O Brasil acima de tudo. O Brasil acima de tudo e acima de todos.

Tão acima que voas do 17º andar em busca de sossego. Um país sem espaço para apoiar quem tudo deu e que não tinha ninguém com quem se sentisse segura para falar e desabafar. E isso bastava...

Um país precisa cuidar.

Um país precisa agradecer.

Um país precisa retribuir.

Não pode só exigir.

Foi como se o Brasil mergulhasse junto com você. E é bom que o Brasil aprenda a nadar porque onde estão as medalhas precisa estar também o cuidado, a serenidade, a tolerância, o respeito, os direitos de todos, a verdade de todos, a lealdade, a honra.

- Ana...

- Oi...

- O jogo já começou...

- Qual?

- O de apuramento para os Jogos Olímpicos – voleibol feminino. Anda...

- Hoje não...

Ana Santos, professora, jornalista

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