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2 Contos para Elas


Conto “RELÓGIOS DE VIDA”

Tic tac... Mil vezes eu lhe pedia pra repetir a história de quando eu, pequena – bebê - acordava e queria brincar durante as madrugadas e ela, que não sabia bem o que fazer com um bebê com esse comportamento estranho, me colocava dentro de uma gaveta cheia de revistas que, dizia ela, eu folheava, brincava e curtia por horas. Os dias amanheciam, eu ia dormir e ela já ficava por conta das tarefas do novo dia. Até hoje perco o sono, todas as (muitas) profissões que escolhi têm a escrita e a leitura como base e interpretar o que é dito, lido e escrito é meu ganha pão. Gol de placa.


Tic tac... Outra lembrança que me vem é que, numa casa cheia de mulheres de temperamento forte, as coisas não eram tão facilmente resolvidas. Eu protegia minha irmã menor e, por causa dela, batia nos meninos do prédio quando eles jogavam pedras e nos incomodavam. Havia também as brincadeiras de luta – sensacionais – onde o Nando apanhava muito de mim, cada vez que tentava dar aquelas tesouras voadoras do Ted Boy Marino, do Telecatch. Eu a-ma-va o Verdugo!


Ela me chamava sempre pelo nome completo e fazia questão que eu assinasse o nome inteiro. Eu faço isso até hoje, embora ninguém me conheça pelo menu nome completo.


Tic tac... Desde sempre me acostumei a ouvir frases fortes e sinceras que não “envernizavam” nada. Isso é HOR-RÍ-VEL! – um mantra na minha vida. Ouvi essa frase por causa do cabelo despenteado, da roupa que escolhia, etc, etc. Outra influência muito forte era me perguntar claramente se eu queria mesmo fazer aquela tal coisa porque ela ia me deixar fazer, mesmo contra a vontade dela. Um espaço que me deixou pronta pra discutir pelo que era realmente importante.


Uma pessoa de iniciativas que foram tomadas sempre que tiveram que ser tomadas, decisões difíceis, mudanças de lugar, grandes generosidades, planos claros e objetividades. Então, quando o tiquetaquear sucessivo da vida atrapalhou sua forma de pensar, estranhamos muito, já que ela tinha uma opinião pra cada assunto.


A Bahia foi um assunto explorado por ruas e vielas porque, embora não fosse baiana, sua alma era velha e escrava porque ela amava andar pelo Pelô. E muitos orixás ela viu, pegou, comprou. Com muitas baianas falou, tomou bençãos e abençoou. Muitas bonequinhas pretas de todas os tamanhos, muitas baianinhas – uma coleção – passaram a fazer parte do universo da família inteira porque ela colocava todas arrumadinhas, em casa.


Tic Tac. Um dia o relógio parou. Nós já havíamos chorado no telefone, eu e minha irmã pequena e já tínhamos decidido que era pra acontecer tudo o que fosse possível pra ela não sofrer. A gente ia se virar. E foi assim. Meio de repente demais, mas dentro do que pedimos. Um rodopio de tempo e o pó de seu corpo foi recebido por Iemanjá, como achamos que ela ia querer. Do telefonema em diante, houve ação e não lágrima – como um acordo entre as três irmãs. A Covid nos apartou de lugar, mas nunca de sentimento. Ainda sou a menina idosa que ama sentar na gaveta e brincar na madrugada até hoje e trocamos mimos - eu e minhas irmãs. A pequena continua a ser vista como pequena – o tempo é relativo à vida e nela, muitas vezes pra mim, ele tem a habilidade de ir e vir.


Ela e tudo isso foram para o pó da saudade. Aquela que muitas vezes olhamos e não queremos limpar porque ali está a sua verdade absoluta. Aquilo que você realmente é.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Ana e Tomás”

Ana e Tomás têm uma vida muito fofa. Sorridentes para todas as pessoas, disponíveis para qualquer tarefa. Nem sabem o que são férias, a sua vida não tem essa tarefa incluída. Tomás no final das refeições faz sempre uns animais em miolo de pão, conta histórias, transforma guardanapos em coelhos. Utiliza materiais que terminaram a sua função principal, noutras funções como pacotes de leite para enxertar árvores ou portões da propriedade com pedaços de camião/caminhão. Adora animais e sua propriedade parece mais um jardim zoológico. Ana adora cozinhar, fazer lençóis de cama, cortinas, roupa para os filhos, tirar leite da vaca, fazer compotas, marmelada, presunto, chouriço. Mas o grande amor da vida dela é a cozinha. Uma curiosidade interminável, uma enorme capacidade de se disponibilizar para aprender com qualquer pessoa que fale ou faça uma comida nova. Seja quem for. E faz umas comidas únicas no mundo. As pessoas fazem fila para serem convidadas para ir a sua casa comer seus petiscos. Muitas comidas aprendeu perguntando à mãe, perguntando a amigas que sabiam como fazer, experimentando, lendo livros, revistas. Cozinha para um com o mesmo amor com que cozinha para 50. E com a mesma perfeição. Sempre sorrindo, sempre gentil. Hoje, por exemplo, tem familiares na casa para almoço. Está frio e todos se acotovelam para se aquecerem no fogão de lenha. Ela nem consegue chegar às panelas em condições, mas mantém a conversa, a gentileza, os cozinhados. E, todos sabem que a comida estará na mesa na hora combinada e perfeita, como sempre. Também sabem que ela será a última a sentar na mesa, como sempre.


Umas vezes, antes de irem para o seu trabalho diário, Tomás e Ana vão lavrar a terra. Com a vaca puxando o arado. Outras vezes, antes de irem trabalhar e quando o sol aparece, vão à praia bem cedo para caminhar. A única forma de poderem fazer praia, preocupados em apanhar sol, respirar o ar do mar, receitas do médico para um ano mais saudável. Na caminhada, um procurando pedrinhas e beijinhos entre um passo ou dois e o outro caminhando religiosamente sem parar e sempre no mesmo ritmo. Uma fofura assistir. Vêm sempre desiludidos pelo outro não o ter acompanhado na sua forma de fazer a atividade. Dizem isso no meio de risos e piadas e é uma delícia assistir.


Sempre que vão a um almoço ou jantar com outras pessoas, combinam e escolhem dois pratos que os dois amam. Um pede um prato de peixe ou bacalhau e o outro pede um prato de carne. Pedem sempre para vir um dos pratos primeiro para dar tempo de dividir, comer em conjunto e o segundo prato não arrefecer. Ana fica saboreando e aprendendo mais um prato. Tomás, quando fica deliciado com algum prato, vê logo Ana tentando aprender como fazer, para isso um dia acontecer, em casa.


Sempre que conseguem um dinheiro extra, lá vão eles fazer o programa preferido. Vão de carro até à fronteira com Espanha para comprar caramelos e torrão para as próximas festas. Nem é bem para eles, mas para terem o que oferecer às visitas que costumam aparecer na casa.


Podia ficar uma vida inteira falando de Ana e Tomás, mas eles não iam gostar que eu falasse deles. Ana ia já dizer que existe muita coisa melhor para se falar...


Eles ainda não sabem, mas vão fazer felizes muitas pessoas. Eles ainda não sabem mas vão fazer coisas únicas. Eles ainda não sabem, mas serão o exemplo para muitas gerações. Eles ainda não sabem, mas serão eternos nos corações dos que os amam.

Ana Santos, professora, jornalista

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