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2 Contos "Outubro Rosa"


Conto “PARA ALÉM DE TODOS OS OUTUBROS”

Há uma energia diferente no feminino - ela sabia que todos sabiam – e isso lhe consolava sempre que as coisas não iam tão bem. Passou os olhos na agenda – cheia! – e se lamentou por isso ainda acontecer. Quando chegaria o dia em que as mulheres deixariam de sofrer por adoecerem de seus úteros, ovários, mamas? Levantou os olhos e se sonhou entrando numa farmácia do futuro e pedindo shampoo e chip pra detecção de sinais de câncer. Já pensou? Você compra de 6 em 6 meses ou de ano em ano uma coisinha que coloca no sutiã ou colada no seio e ela “procura” por coisas atípicas, como uma proteína por exemplo. Ela se encostou na cadeira e fechou os olhos – seria o máximo! Sua clínica não ficaria tão cheia, mas ela certamente ficaria mais feliz. E outros pré-tratamentos seriam desenvolvidos para combater o desenvolvimento da “tal proteína” – pronto, ufa! – ela encheu o consultório de novo!


Mas como fazer isso num País que oscila entre a genialidade e a miséria extrema? Entre a super criatividade da ciência e a brutalidade do egoísmo político?


Suspirou. E de novo e de novo. “Brasil não é pra amador mesmo! Era capaz de ainda acabarem nos fazendo sentir culpadas por sermos geniais, num ambiente onde tudo falta!” – pensava.


Pediu um café, se recompôs e mergulhou no trabalho de novo. Viu mulheres esperançosas, grávidas, doentes, com medo, seguras e inseguras. Mulheres. Tudo o que cabe no nome mulher, cabe também em complexo e sensível, isso ela sabia muito bem. Telefonou pra amigas que poderiam ceder perucas, ouviu dores emocionais e físicas, prescreveu remédios. Mas o pensamento insidioso insistia: O dia do “sensor de câncer” poderia chegar?


No outubro rosa, no meio de uma crônica, vem a resposta da vida real: Sim, já é possível desde agora. Parabéns pelo desenvolvimento da tecnologia do sensor de pesquisa prévia contra o câncer de mama, Dra Cecília Carvalho Castro e Silva, brasileira, mulher e sonhadora complexa, como todas.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Nem sempre rosa”

Ana é o que a sociedade chama de “maria rapaz”. Menina que gosta de jogar futebol, de subir em árvores, de correr, saltar, nadar. De aventura, de natureza, de cansar o corpo. Seus seios estão crescendo e ela só pensa que eles vieram para estorvar a sua vida. Não lhe fazem falta, não lhe são úteis e começam a atrapalhar as suas atividades físicas de aventura. Começaram a dar nas vistas dos rapazes da rua porque saltam muito quando corre. Vai ter mesmo de usar o soutien/sutiã, aquela coisa apertada e incómoda que mais parece uma algema de seios. Além disso precisa começar a usar umas t-shirt’s mais tapadas porque as mulheres mais velhas da família já lhe falaram que fica mal os seios aparecerem por fora da roupa. Principalmente o bico do seio. Esse então é o proibido dos proibidos. Pode até acontecer de aparecer o seio todo, numa situação inusitada, mas o bico do seio, nunca, nunca, nunca. Gente, que regras estranhas tem a gente grande e o mundo dos grandes. Até uns dois ou três anos atrás andava na praia de tronco nu. Crescer está ficando chato, mas ok.


A vida foi seguindo, os anos passando, ela foi se adaptando à companhia de seus seios. Um dia percebeu que aqueles dois “seres” poderiam ser frágeis e portadores de problemas. Problemas invisíveis mas muito devastadores. Uma de suas tias que morava noutro país, ligou dizendo que ia ter de fazer uma cirurgia para retirar completamente um dos seus seios. Estamos falando dos anos 80. Pera aí, nos colocam estas coisas no corpo, sem a gente querer e depois dizem que estão doentes e é preciso tirar, cortar? Assim, sem mais? E ainda temos de ficar atentas porque pode não ser suficiente? Se este tipo de ação não for feita a tempo, pode implicar a morte? Que raio de mundo mais injusto é este? Eu nunca quis, não quero os meus seios, só me atrapalham e ainda vou ter de viver toda a minha vida vigiando sua saúde para eles não me adoecerem? Não me matarem?


Sempre que ouvia os colegas da escola fazendo comentários parvos dos seios das colegas, tipo: “- grandes mamas, as da Cecília!” eles perdiam pontos na sua consideração. Afinal eram muito infantis e imaturos. Olhavam os seios pensando que eles tinham propriedades gostosas quando afinal eram duas bombas relógio que cada mulher recebia na vida e carregava até ao final dos seus dias.


Ana lá andava na vida, com suas bombas relógio, chateada com os meninos por eles não entenderem que nem tudo era bom. Chateada com a forma como o mundo arranjou coisas difíceis para as mulheres. Até ao dia em que um amigo dela, parceiro dos jogos de futebol, morreu por causa do mesmo problema. Como assim? Ele era gay? Não!!! Afinal ele era mulher e ela não sabia??? Não!!! Ele apenas era um ser humano e mesmo não tendo seios grandes, como acontece normalmente com os homens, o câncer de mama é igualmente perigoso. Alguns estudos até apontam como mais grave ainda. Ana está parva, se sente culpada, ainda mais chateada com o mundo. Ai é? Ai é? Vais ver... Quando for grande vou ajudar a descobrir cura para este problema. É isso que vai acontecer. Não vou ficar aqui a ver-te, mundo cruel, a fazer coisas dessas, sem tentar impedir. Me aguarda miserável...

Ana Santos, professora, jornalista

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