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2 Contos: “OSTENTANDO PAREDES DE COCO” e "Apenas o importante”


Edíria Carneiro

Conto “OSTENTANDO PAREDES DE COCO”

Olhava pela janela sem acreditar para aquela parede linda, branca que nem um coco. Havia passado tanto tempo a desviar seu olhar dela a cada pessoa que eventualmente lhe vinha à casa, que agora sentia dificuldade de lhe tirar os olhos de cima:

- Branca como um copo de leite, como a neve do alto da montanha!

Mil pessoas haviam passado por sua vida, prometendo mundos e fundos se “raspassem aquela umidade. Choveram sugestões: Trabalharem do prédio ao lado, fecharem negócio com o prédio e ela ao mesmo tempo”. E mesmo quando ela desistiu de dizer que não, nada dava certo: O responsável não era responsável, o serviço nunca começava, chovia, fazia sol demais.

- Você acredita que o destino pode escolher o melhor para lhe dar, mesmo quando não percebe? Porque você tenta ser uma boa pessoa o tempo inteiro, paciente, bem humorada, alegre? Eu acredito nisso.

- Vai vir agora com essa síndrome de Branca de Neve, é? Sofre, mas tem o caçador, sofre mas tem os sete anões, sofre, mas logo ali chega o príncipe?

- Mas não é síndrome. É otimismo. Se você não vê o mundo assim, o que vê no mundo? Sempre tem guerra, sempre tem exploração e infelicidade. Mas uma coisa é certa: nenhuma pessoa é infeliz, nem feliz o tempo inteiro. O mundo varia as doses. O rico e egoísta pode ser pego num golpe, sofrer um acidente, adoecer. Pode ser preso porque falou demais sobre suas “tramoias” – porque bandidos também querem ostentar o que rende sua desonestidade! Batem nas mulheres, dão golpe na mãe e isso vai logo parar nas redes. Pois hoje, eu olho pra minha parede branca como um coco e quero dividir cada pedacinho dela com vocês. É pouco? Azar. Não é filé coberto de ouro, não é iate, nem carrão – é o muro do prédio aqui ao lado que não tem mais nenhum mofo e está branco, branquinho, limpo e eu estou aqui viva e saudável pra curtir olhar pra ele...

Deu uma crise nela. Comprou uma barra de chocolate, 5 maçãs e lhes tirou a casca para que cozinhassem. Bateu-as, derreteu o chocolate, misturou tudo e fez uma musse deliciosamente saudável. Colocou sua sobremesa favorita na geladeira e já fazia planos para horas depois devorá-la, enquanto procurava sobras pra aquecer.

Nada poderia ostentar mais do que o seu bem estar.

- Há sempre tanto a fazer... Uma coisinha de cada vez.

Sua mãe tinha feito tanto, desse mesmo jeitinho. Com ela nunca tinha sido diferente. Olhou para o céu por um instante:

- Como os exemplos ficam na nossa vida, né? Como os exemplos ficam...

Ela, sua parede de coco, aqueles olhos portugueses, os espirros das duas, que curtiam até a alergia ao tratamento daquele mofo.

Grande erro tantos acharem que a felicidade precisava de aviões executivos e viagens à Paris... Às vezes, uma parede de coco e musse de chocolate saudável eram tudo o que se precisava para sorrir e ser feliz...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Apenas o importante”

Achava que a vida era uma viagem. Que no início demorava a arrancar, a iniciar sua velocidade e seu progresso, mas que depois, quando se encontrava o jeito, o caminho, se ganhava experiência, era só somar, desenvolver, até alcançar um lugar estável, confortável, com a realização de alguns sonhos, com a satisfação de ter conseguido fazer coisas importantes na minha vida e na dos outros. Com dinheiro suficiente para viajar, ter uma boa casa ou um bom apartamento, quem sabe também ter uma casa de praia ou de campo – ou as duas. Ter condições para trocar de carro, de 3 em 3 anos – e ter um bom carro. Educar meus filhos bem, com valores. Dar condições para estudarem, tirar cursos superiores, quem sabe mestrado e doutorado. Ter dinheiro para fazer boas festas de casamento para eles, dar-lhes apartamento, carro, dinheiro para começarem a construir sua vida com uma situação confortável. Quem sabe para poderem ir mais longe do que eu fui. E envelhecer, junto dos meus netos, sorrindo muito, no meio de toda a família. Por último, morrer sem sofrer, junto de todos, sorrindo e agradecendo.

Mas a vida não é essa viagem. A vida avança e recua sem avisar, porque não existe avisar. Ela pode ser sempre a subir, ou sempre a descer, ou interrompe de repente para te dar um aviso. Teu filho, ou teu neto, ou teu trabalho, ou ter as coisas que querias, pode não te fazer sentir o que pensavas que ias sentir. A melhor das situações, pode afinal não te fazer sentir nada. Insistes porque aprendeste que era assim. Mas o vazio vai aumentando. Continuas porque não conheces outro caminho, porque achas que isso vai passar, porque com certeza isso é normal sentir no início. Mas nada muda. Todos sorriem à tua volta, todos estão felizes com a tua vida. Menos tu. Continuas? Ou fazes alguma mudança? Ou aceitas perder o que é material, para ganhar o que é bem estar?

Então, eu decidi que não quero nada daquilo que construí na minha cabeça, para o meu futuro, baseada no que os outros desejam. Eu não sou como os outros, nem sou como pensava. Gosto de fazer coisas que me deixam toda suja, para depois tomar um bom banho, vestir uma roupa limpa, confortável. Gosto de trabalhar durante muito tempo, sentir o cansaço e a fome a chegar, e depois, depois daquele banho, comer uma comida feita por nós, em casa - comidas simples, de conforto, saudáveis, reais. Gosto de apanhar chuva, de ficar encharcada, gelada de frio, chegar em casa, tirar a roupa toda, tomar um banho quente, roupa seca, lavada e quente – roupa previamente enrolada na botija de água quente ou colocada na frente da lareira – e depois, tomar uma bebida quente, sentada, de frente para a lareira, olhando e ouvindo a lenha estalar e queimar.

Cheirar e mexer na terra. Abrir a caixa do correio para ver se chegou carta. Lavar os dentes. Emocionar-me com a alegria de outra pessoa. Falar com uma pessoa que me olha, que me vê. Conhecer pessoas confiáveis. Mexer no cabelo. Esfregar as mãos. Meter as mãos nos bolsos. Abrir a boca.

Incrível como todas essas coisas me faziam feliz em menina. Continuam a fazer. Quanto dinheiro é preciso para ter estas coisas? Que barulho é este? Ah, é o meu celular tocando.

- Alô?

- Oi

- Oi

- Você está ocupada?

- Estou terminando um trabalho. Porquê?

- Ia te perguntar se querias vir caminhar.

- Caminhar para onde? Para fazer o quê?

- Nada. Só caminhar. Caminhar e conversar.

- Olha que boa ideia. Quero sim. A que horas chegas?

- Demoro meia hora.

- Perfeito. Estarei pronta na porta de casa quando chegares.

- Beleza. Até...

Ana Santos, professora, jornalista

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