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2 Contos: “Machista de proveta” e “Quem serei?”


Kyle Dunn

Conto “Machista de proveta”

Encontravam-se andando na rua, na caminhada diária. Tinha sido criada tendo orgulho de cada conquista baseada em esforços – fazer jus ao esforço gigantesco que sua mãe fazia para pagar a universidade – um dos principais. Não tiveram telefone com facilidade, televisão colorida era na passagem pela frente das lojas, mas era a aluna mais nova da faculdade inteira, chamada por isso de bebê de proveta.

Já o senhor – ambos regulavam a idade – era o Mauricinho do interior da Bahia. Rico. Machista. Se achava o dono do argumento. O inventor do argumento. Mas com ela aquilo não funcionava de jeito nenhum.

- O que você acha do BBB?

- Não vejo isso. Só tem machista.

- E o baiano?

- Machista também. A Bahia é super machista.

- Pois ele comprou o primeiro carro vendendo sorvete.

- Vai ver que foi porque não ajudava a mãe dele em casa.

- Pois tá certo, se deu bem.

- Pra você, talvez. Eu tenho certeza que faria diferente.

- Mas e o carro?

- E a escola que ele não frequentou? Poderia ter gasto o dinheiro com escola, por exemplo. Ajudando em casa, por exemplo. Poderia dar um exemplo de generosidade, de preocupação. Mas como todo machista, resolveu tudo no “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

- Ta certo!

- Na sua opinião. Na minha, as pessoas poderiam se esforçar pra serem melhores porque conviver está difícil.

Lembrou da mãe, já falecida, dizendo que a única herança que ela lhe deixaria – e que ninguém conseguiria roubar - era o estudo. Nesse sentido era rica – tinha diplomas em todas as direções e profissões. Não tinha sido criada para calar e sim para lutar. Ou talvez tivesse sido criada para calar e não tinha dado bola, não tinha dado ouvidos – tanto fazia. O certo é que era mulher, tinha estudado em escola pública com orgulho e não aceitava egoísmo em nenhuma direção.

Nesse ínterim, acenou para o caminhão do lixo, com seus amigos da coleta, para idosos, vizinhos, pessoas. Pessoas! Era inaceitável provocar as pessoas para aparecer no filme como coitadinho. Era inaceitável viver sem tentar ser melhor a cada dia, mesmo quando falhava.

Podia ser mais difícil, mas ela era assim e pronto. Idosa, mas com o mesmo espírito rebelde do “bebê de proveta” que enfrentou o professor de anatomia porque ele afirmava que não tinha nascido ainda um aluno nota 10 na matéria dele na face da Terra. Pois ela estava pronta e nascida para o 10, continuava atenta para solucionar problemas do mundo e não apenas tentando se dar bem a qualquer preço.

- Estou viva de verdade. Porque esperteza é outra coisa, podem acreditar.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Quem serei?”

Detestava ir à mercearia e à padaria. Aquelas listas de coisas, para ela, sem nexo umas com as outras, escapavam-se da sua cabeça pequena. Escorregavam pelas orelhas, batiam de bunda nos ombros e perdiam-se no ar.

- Posso levar um papel com a lista escrita?

- Mas nem és capaz de decorar três coisas, para ir ao mercado?

- Tá bom, tá bom.

- Ah é verdade, além de 1kg arroz, 250g de farinha de trigo e 100g de farinha de milho branco, quero que compres 50 formas de papel frisado, para fazer bolinhos de Côco.

“Eu já sabia que não íamos ficar pelos 3...”

- E também manteiga. E 250g de côco.

- E 10 folhas de papel para forrar a forma para fazer os Pães de Ló.

“Ai meu Deus, já me perdi...”

- Menina, para onde olhas? Presta atenção. Que cabeça de vento...

Ela não insistia em escrever a lista no papel porque isso também era um problema. Sempre rasurava, se enganava nas letras, nas palavras, escrevia mais em baixo, mais em cima. A folha ficava cheia de riscos e rabiscos, de gatafunhos e de manchas de suor do medo, de partes amassadas porque no caminho enfiava sempre o papel no bolso para poder correr, se pendurar nos galhos das árvores, atirar pedras nos charcos, catar musgos que via nos muros para fazer as casas das lagartixas que viviam no celeiro da casa. Por cada borrada de tinta na folha era um sermão e por cada borrada e amassadela, era aquela cara de pena da senhora da mercearia olhando ela.

Estava a suar com a subida da lista de coisas para comprar, mas sabia que se dissesse algo, tudo podia piorar. Vinha sermão e ainda se lembravam de mais coisas.

Lista terminada, dinheiro na mão, coração aos pulos, mãos a tremer, pernas desfalecidas, boca sem palavras, lá ia, caminho abaixo sem brincar com nada, nem olhar para nada que não fosse o chão na sua frente, repetindo sem parar a lista das compras: “Arroz, farinha de trigo, farinha de milho, ...” Nem respirava direito, nem saboreava as belezas do caminho, da natureza e pedia aos céus para não encontrar ninguém. Na chegada à mercearia queria dizer logo tudo, mas se fosse a dona a atendê-la era um drama porque lhe perguntava sempre por todos em casa e ela já sabia que isso ia dar errado. Porque depois quando ouvia:

- E o que vai ser?

Sua cabecinha redonda de sonhos estava vazia.

- Hummm, arroz, farinha de....

- Trigo ou milho?

- As duas.

- Que quantidade?

- .... (tinha medo de dizer que não sabia ou que não se lembrava)

Sabia que se dissesse uma das duas hipóteses, todos em casa iam saber, todos na mercearia falariam, todos os que conhecia na escola, na vila, também saberiam. O problema não era saberem, era o que faziam com isso. Ninguém sabia tratar essas situações com carinho. Todos estavam habituados a ver essas situações como marcantes e definidoras das pessoas. Por isso ela era conhecida, não pelo seu nome, mas por se esquecer sempre das formas de papel frisado para os Côcos da Páscoa. Tanto que na Vila era conhecida como a menina “frisacô”. Não era boa ideia se enganar, dizer que não sabia, errar. Os nomes podiam piorar. Apesar de tudo a dona também dava uma ajuda.

- Não te preocupes. Deve ser 250 gramas. Se não for assim, voltas, mas deve ser isso. Nesta época devem precisar de formas de papel frisado, papel para o pão de Ló.

- Sim, sim, também era isso.

Eram um terror estes momentos. Não podia gaguejar, não podia suar muito, não podia pedir ajuda. O riso da senhora e aquele som baixinho que saía da sua boca: - frisacô....

As idas à Padaria eram problemáticas por outras razões. Saber que tinha de comprar 20 pães, era fácil. O problema é que o senhor, na hora de pagar, ficava fazendo umas contas que a deixavam tonta, perdida e sem saber o que dizer. Ia com as moedas na mão. Levava sempre mais dinheiro do que ia gastar porque em casa lhe davam as moedas todas que estavam na caixinha dos trocos. Ter de fazer as contas com todas aquelas moedas de valores tão diferentes, já era um desafio. Mas quando o homem começava:

- São 12,50, se me der esses 15,00 e mais 2,50, dou-lhe 5,00 de troco.

Porque eu sempre tinha de dar mais isto ou aquilo para ele me dar uma quantia extra? Mania de querer mais moedas para lhe facilitar os trocos na Padaria. Não era melhor dizer o valor, eu contar, reunir as moedas e entregar a quantia. Que terror aquilo, sempre se repetindo. Não entendia nada daquilo e ficava sempre com medo de ser enganada. Isso não podia acontecer. Ser enganada com dinheiro, era melhor nem voltar para casa.

Amava ir ao sapateiro. Como amava ir ao sapateiro. Era num lugar isolado, sossegado, perto das montanhas. Ia de bicicleta e só isso já era uma enorme alegria. Andar de bicicleta, voar rente ao chão. Chegava, tocava no sino da casa. Vinha alguém perguntar o que era, ela dizia que vinha saber se os sapatos já estavam arranjados. Mandavam ela entrar e descer as escadas para a sala onde o sapateiro trabalhava. Aquele senhor apenas dizia boa tarde. Nada mais. Ia direto nos sapatos, colocava-os num saquinho, entregava na minha mão. Um meio sorriso, pelo canto da boca, uns olhos doces. Acho que gostava de mim porque não existia ninguém no mundo que me olhava daquele jeito. Ir ao sapateiro era ter um dia feliz.

Décadas passaram. Está sentada, aguardando ser chamada. Recorda as idas ao sapateiro em menina, com aquele senhor sempre com o meio sorriso mágico. Talvez tenha sido por causa do aroma na sala que se parece de alguma forma com o cheiro da cola com que se colavam as solas dos sapatos. Talvez venha dos sapatos impecavelmente elegantes e engraxados, do senhor que está sentado do seu lado.

Chegou a hora. Vai começar a cerimônia. Seu nome foi chamado, ela se levanta para receber a condecoração e fazer o discurso da praxe. Prêmio Nobel da Literatura. No discurso fala das idas à mercearia, à padaria, ao sapateiro. Aquele início de vida não lhe deu grandes esperanças, nem expectativas. Mas de alguma forma a vida foi sua companheira, sua amiga. De alguma forma ela conseguiu ultrapassar a criação das pessoas da vila, da menina “frisacô”, os medos de escrever listas de compras, os medos de dizer que não sabia, medos de dizer que se esqueceu. Os medos de não ser nada que prestasse. Porque qual seria mesmo a importância de prestar? Prestar para quem? Para quê? Disse também no discurso que decidiu acreditar na pessoa que encontrou dentro de si. Sempre lembrou que o sapateiro lhe mostrou que se pode ser de outra forma. O que interessa é nunca esquecer que a nossa melhor amiga somos nós. Que na hora de irmos embora deste lugar, quem vai conosco é só quem somos. Finalizou o discurso agradecendo pela honra, principalmente pelo seu livro “O sapateiro que cura”.

Ana Santos, professora, jornalista

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