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2 Contos: “LGBT FANS” e "A primeira cirurgia”


José Luís Fernández

Conto “LGBT FANS”

A porta bateu com tanta força atrás de mim que até me assustei. Como se fosse possível ficar mais assustado do que ao ouvir "prefiro um filho ladrão a um filho viado" – o que lhe parecia assustador o suficiente, achava.

Se por um lado sair do armário era libertador, sentia um frio na barriga cada vez que o pensamento tacanho se avizinhava da sua vida: parecia que ser gay era exatamente a mesma coisa que ser sem vergonha – ele não era assim, embora conhecesse 100 mil heteros que eram – e sem enfrentarem problemas.

Passeata gay em São Paulo. Sua amiga querida Alexia Twister já estava fazendo shows infantis, além de suas performances, da passeata em si e isso era um passo incrível – ser aceita pelas crianças significava ser aceita pela próxima geração, já imaginaram? Ao mesmo tempo, São Paulo matava gays à vontade.

- Parece que quanto mais o povo reza, mais a violência atenta! Violência é a treva e o povo nem percebe, cruz credo...

Recebeu um telefonema de uma “mana” daqui mesmo, da Bahia, a convidando para o BA-VI  do final de semana e logo revelou seu medo de perseguição.

Levou logo uma olhada daquelas “invertidas”:

- Nem venha, viu? As torcidas LGBT de Bahia e Vitória amam seus times, amam futebol! E você sai de casa e chega na Fonte Nova pra ver seu time brilhar! Vai brigar dentro de casa com a sua própria torcida por quê? Além do mais a camisa do “Bahea”, minha filha... É escândalo de lindaaa... 

...

Enquanto se arrumava para o jogo, ele pensava que havia ainda muita coisa para evoluir na sociedade, mas eram passos para frente que se davam. O papel feminino continuava como o do homem gay, da mulher trans, das drags, das mulheres hetero, das lésbicas, que acabava sendo o mesmo, ou seja, elas eram vistas como algo a ser colocado em segundo plano – só que realmente ninguém poderia se conformar com isso, imagine...

Pegou a bandeira do seu time, a camisa LGBT e logo procurou um espelho. Um pouquinho mais de glitter - Tava linda!

...

Quando entrou na Fonte Nova, sentiu o estádio vibrar, explodir – engraçado você apenas ser parte de algo maior que te aceita, que divide o mesmo amor pelo time, o mesmo amor pela camisa. Seus olhos se encheram de lágrimas, enquanto olhava a arquibancada lotada, a torcida pulando, a bandeira tremulando. Todos eram um. Sorriu, torceu, gritou, se abraçou com todos na hora dos gols. Ele era parte daquele amor.

Se ela fosse pra São Paulo na passeata gay, sairia de verde e amarelo com certeza, já que Madonna havia “liberado“ a camisa canarinho de volta para os brasileiros e a Pablo liberado a nossa bandeira. Podia ser assim sempre – um só povo, em um Brasil só.

- Enquanto essa evolução não chega, mana, ralação, conversa e negociação - esse é meu lema, meu nome do meio, minha bandeira! – e saiu do estádio nos braços da torcida.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “A primeira cirurgia”

Mês de exames de rotina. A empresa onde trabalha tem uma política interessante. Cada trabalhador tem um mês à escolha para fazer seus exames de rotina. Este ano, ela escolheu maio. Desde os seus 21 anos que ficava com muito medo sempre que fazia os exames aos seios. Tinha na família histórico de câncer e desde essa idade que tinha um nódulo, no seio direito. A médica disse-lhe que deve ter sido pelo uso de um anticoncepcional que ela tomou. Incrível ouvir isso da médica, a mesma médica que o receitou, quando ela tinha 18 anos e decidiu iniciar a sua vida sexual com o seu namorado e futuro marido. Explicou-lhe que na época todas as indicações eram de que era o melhor anticoncepcional, mas que agora as informações indicavam que era desaconselhável por provocar nódulos mamários, varizes, problemas cardiovasculares. Sim senhor, que lindo! “É mesmo doutora? E agora? Eu que me safe né?” Estava neste dialogo interno sem saída, sem interesse, quando ouviu o seu nome. Era a hora de fazer a ecografia. Hoje a profissional foi muito cuidadosa. Antes de iniciar disse-lhe que se visse alguma coisa de anormal que lhe diria de imediato. Tudo bem. Começou. Roda, roda e roda a máquina em cima daquele líquido gelado e dengoso, os bips, as marcações, o silêncio. De repente a profissional diz que o nódulo parece estar alterado. Que vai ver de novo, mas talvez seja bom avisar o médico de família. Não parece ser maligno, mas é conveniente retirar. Foi dito de uma forma serena, mas direta. Ok. Algum dia ela sabia que poderia acontecer. Já tinha aquele nódulo com ela há uns 15 anos. O nódulo decidiu que era hora de sair.

O exame foi no final da tarde por isso só no dia seguinte foi procurar seu médico de família. Ele foi super fofo, super cuidadoso e na sua frente ligou para a médica que faz as cirurgias mamárias no hospital. Ele falou que tinha na sua frente uma paciente com um nódulo aparentemente benigno, mas com necessidade de ser retirado. A médica indicou que eu a fosse procurar dali a dois dias. Lá fui eu, dali a dois dias, com os exames. Quando entrei no consultório, estavam duas médicas. Foram super simpáticas e diretas. Porque o resto da vida não é também assim? Direto? Falamos abertamente do que era preciso fazer, me avaliou. Depois olhou para mim e disse:

- Daqui a 4 dias, na próxima terça-feira, vou fazer umas cirurgias e tenho uma vaga. Quer fazer a cirurgia na terça?

- Quero.

- Ok, então. Terça-Feira chegue ao hospital às 14h. Aproveite para almoçar alguma comida que goste.

É uma vibe. Uma energia que é bom seguir, que te deixa melhor, mais focada, mais disposta a lidar com o que está a acontecer e de coração aberto para o que virá. Não queria avisar ninguém, mas a médica obrigou-me a avisar alguém da família. Era uma cirurgia de rotina, mas nunca se sabe o que pode acontecer. Avisei apenas as pessoas mais chegadas na família, avisei que não queria visitas, avisei o trabalho e lá fui na terça-feira para o hospital. Fui a pé, com a sensação que fazia o caminho de Santiago dentro do meu coração. E fiz. Cheguei, perguntei na recepção para onde me deveria dirigir. Fui informada. Cheguei ao piso da cirurgia. Uma mulher me informou que antes de ir para o quarto tinha de ir a um departamento. Lá fui. Nem queria acreditar que tinha uma conta para pagar. Como uma conta para pagar se nunca tinha vindo a este hospital? Quando começo a ver a lista que tinha para pagar, fiquei pasmada. Todos os exames ginecológicos que tinha feito nos últimos anos, pelo centro de saúde, os Papanicolau, todos ali estavam aguardando a hora em que eu entrasse no hospital, para os pagar. E se eu tivesse entrado no hospital, em coma, ou após um  acidente? Iam me acordar, pedir para ir ao departamento, antes de ir para a cirurgia? Sim senhor, que lindo. Nunca ninguém me pediu para pagar nenhum daqueles exames, sempre foram tratados como exames que o sistema de saúde comportava – e os impostos que pago - nem me avisou que eu iria ter de os pagar, um dia, antes de entrar no quarto para fazer uma cirurgia. Enfim. E tem outra coisa, por acaso tinha dinheiro, mas podia não ter. A conta era alta. Bom, tudo pago, sou acompanhada até ao quarto. Uma enfermaria de 3 camas. A cama vaga era junto da janela. Que maravilha. Precisamente a que eu preferia. Estava uma senhora mais velha na cama do meio, acabou de chegar uma senhora para a cama perto dos armários e da porta do quarto. Apresentações, muitas perguntas, muita curiosidade. Eu não estava com vontade de conversar, muito menos de contar sobre a minha vida, mas nos hospitais perdes a privacidade totalmente. Tudo bem, vamos nessa. Chega o enfermeiro para colocar o acesso venoso, para colocar pulseira, para retirar as informações necessárias. Fez tudo isso comigo e depois foi fazer o mesmo na senhora que também acabou de chegar.

Pronto, cheguei, passei a paciente, agora é fazer tudo o que puder para estar pronta, disponível e entregue a quem vai tratar de mim. Distraída, olho a janela, olho o mundo lá fora, olho a pulseira. Olho a pulseira de novo. Engraçado, tem o nome de uma Fernanda. Pensei que a pulseira teria o meu nome. Talvez seja o nome da médica. Mas eu acho que ela me disse seu nome acho que não era Fernanda.

- Sr. Enfermeiro?

- Agora aguarde um pouco que eu estou aqui tratando desta paciente. Já a atendo, ok?

- Não tenho pressa não Sr. Enfermeiro, era só para fazer uma pergunta.

- Sim, mas aguarde que eu já vou.

- Desculpe insistir, mas não devia estar o meu nome na pulseira? Pelo menos é o que vejo nos filmes. Mas se calhar neste hospital é diferente.

- Claro que é o seu nome na pulseira.

- Claro? Mas então porque está escrito Fernanda? Eu não sou Fernanda.

A senhora que estava a chegar, olhou a pulseira dela e gritou:

- Deus me livre. Eu não sou Celeste.

- Vixe, eu sou Celeste. Não me diga que a senhora é Fernanda.

- Claro. Fernanda com muito orgulho.

O Sr. Enfermeiro olhou para nós com uma cara de desolado e diz:

- Puxa, vou ter de fazer tudo de novo.

- Vai ter de fazer tudo de novo e de velho. Não vou ficar com o nome de Fernanda no meu pulso. Com todo o respeito, mas eu só vim retirar um nódulo do seio direito. O que a Senhora Fernanda veio fazer? Vá me desculpando o abuso.

- Eu venho retirar um rim.

Arranquei a pulseira imediatamente.

Ana Santos, professora, jornalista

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