2 Contos: “LEVANTA A SAIA E CALA A BOCA” e “Lei Maria da Penha”
- portalbuglatino
- há 2 dias
- 6 min de leitura

Conto “LEVANTA A SAIA E CALA A BOCA”
Ela não acreditou no que estava ouvindo. Olhou de rabo de olho, pra ver se aquele cochicho tinha partido mesmo do homem que estava atrás dela. Bem... a boca do cara estava posicionada praticamente por cima de seu ombro mesmo.
Suspirou. Ter um tarado falando besteira, desde a primeira hora da manhã era “dose”. Tentou sair de perto dele, mas o metrô estava ultra, mega lotado. Opção 2: Tentou manter a calma e procurar na bolsa o alfinete de fraldas “anti-tarados” que ela sempre guardava ali.
- Não ta ouvindo? Levanta logo essa saia”!
Ela achou o alfinete. O empunhou. Liberou a ponta. O coração esfriou totalmente. Agora era pressentir o momento perfeito para “atingir o alvo”. De repente, um outro homem se colocou entre ela e o tarado:
- E aí prima, tudo certo? Meio apertado o vagão, hoje, ne?
Ela não o conhecia, mas estava na cara que ele tinha percebido a movimentação e estava ajudando.
Ele continuou:
- Oh amigo, dá pra chegar aí um pouquinho mais pra trás pra eu poder conversar aqui com a minha prima?
Ela prendeu a respiração porque o tarado não se mexia. A cena tinha ficado congelada. Ela com o alfinete, o “primo” entre ela e o tal tarado e ele – o tarado – fingindo que não era com ele, mas sem “desapertar” o espaço.
Um senhor, já sentado, percebeu e colaborou:
- Querida, quer me dar sua bolsa? Quer se sentar aqui?
Sem nenhum problema, sem estresse, ela viu que os homens ao seu redor isolaram o tarado, lhe deram muito mais espaço, lhe ofereceram ajuda. Piscou longamente os olhos. Que cena maravilhosa! Quando os homens não se omitiam esses ataques eram facilmente ultrapassados.
Quando os abriu de novo, sentiu que tudo aquilo, aquela “maravilha cordial” era o seu desejo apenas e o “tarado do dia” estava se esfregando no ombro dela – isso porque ela havia conseguido um lugar para se sentar e fugir dele.
- O que fazer, meu Deus! – E, de repente, veio-lhe a luz:
- Oh moço! Que horas são?
- Sete horas, querida...
- Já não seria a hora do senhor retirar esse seu saco do meu ombro, não?
Vergonha total! O homem pulou metros de onde estava. Mas saiu de cima de mim!
Levantei triunfante:
- Levante a saia e cale a boca, não senhor! Nem se escale! E quem cala a boca, já morreu! Quem manda na minha boca, sou eu!
O vagão inteiro a aplaudiu.
Medalha de ouro anti-tarado.
- Se os homens percebessem a ajuda que poderiam dar...
Deu um muxoxo. Sei lá o que eles pensam...
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Lei Maria da Penha”
Nunca pensou ter de viver o que estava a viver, mas sua mãe sempre lhe dizia que quando sentisse que a vida a deitava ao chão, a ação seguinte era levantar de novo e seguir. E sem se questionar muito.
Não tinha sua mãe mais ali do seu lado para lhe lembrar disso. Teria de ser ela agora a fazer isso sozinha. Era hora de mostrar que tinha aprendido a lição. Aprendido uma das lições da vida, esta dada por sua mãe.
Depois de todo o horror que passou naquele banheiro/casa de banho, com aquele jovem de 24 anos tentando forçá-la a transar, agredindo-a, tentando cortá-la com pedaços do vaso e da pia – que ele quebrou propositalmente - ainda tinha de o ouvir dizer, em pleno tribunal, com voz mansa, que a relação sexual que tiveram, foi consensual. Como um cara, com a mesma idade do seu filho, decide que quer fazer algo com ela, não interessando a sua vontade, a trata daquele jeito, não a mata porque ela consegue fugir e depois fala do sucedido como se tivesse sido uma coisa agradável? Um cara com aquela idade, enfiado numa pensão, num sábado à noite, bebendo e procurando se divertir de forma mórbida? Que mundo é esse?
Com 24 anos ela tinha amigos e amigas com quem saía, ou com quem combinava festas, jantares, idas ao cinema. Juntavam-se para comer, ou beber, conversar, jogar jogos de tabuleiro, estar uns com os outros. Tanta coisa boa que faziam juntos e que era tão legal, tão relaxada. Naturalmente uns e umas se aproximavam mais do que outros e naturalmente iam se namorando. Cada um e cada uma avançava lentamente, dando espaço ao outro ou outra de ter a certeza do que queria. E lá iam fazendo casais – foi assim que começou a namorar com o marido. Davam uns beijos no início, andavam de mão dada, sorriam mais, eram carinhosos, conversavam em privado de assuntos privados, imaginavam um futuro a dois. Iam averiguando se combinavam ao ponto de serem bons uns com os outros para casarem, terem filhos e fazerem os outros tão felizes quanto eles desejavam ser. Conversavam e decidiam quando seria o melhor momento para transar pela primeira vez. Ela ia ao médico pedir um anticoncepcional. Começavam uma vida sexual, com calma, com carinho, pensando no quanto tudo isso era bom, mas também sério e importante para suas vidas e importante para contar aos filhos que viriam.
Como aquele adulto jovem, num sábado pela noite, estava sozinho numa pensão, procurando encrenca, procurando uma mulher para satisfazer suas necessidades físicas e fisiológicas? Onde está a poesia, o carinho, o cuidado, o amor, o respeito, na vida de um adulto destes? Como ele aprende a sua atividade, vida, “forma” de ser, sexual? O que ele sabe sobre relacionamentos entre pessoas? Sobre bondade, construção de uma vida? Não sabe nada, ninguém lhe ensinou, nem ele quis aprender. Apenas virou um corpo com necessidade, como um animal irracional. Pior ainda porque os animais irracionais não bebem, não se drogam e este ser humano faz tudo isso. Os animais, se a fêmea se recusa a ter relações, vociferam, mas vão embora porque entendem que nada vai acontecer. Mas o animal “racional” humano escolhe a sua presa, altera a sua consciência com algo – bebida, droga – e não sai dali enquanto não estupra, estupra e mata. Não desiste enquanto não consegue o que quer, enquanto não fica se sentindo superior. Mesmo que para isso, comece a partir para ações cada vez mais criminosas, malévolas, aterrorizantes. Porque ele não quer fazer nada de bondoso, nada em conjunto. Ele quer resolver um assunto seu, individual, físico.
Um ciclo que a apanhou, ali num lugar tão longínquo. Vive e trabalha num lugar que costumam dizer que “nada acontece”. Imagina que o mundo está muito mal, para ela também ter sido atingida.
Pergunta-se se o filho tem algo daquilo, algo errado, se ela se esqueceu de lhe ensinar alguma coisa, se ele aprendeu coisas erradas com outras pessoas. Deseja muito que não. Mas tem dúvidas, depois de tudo isto. Seu filho foi para a grande cidade – São Paulo. Disse que ia em busca de uma vida melhor, mas nunca mais disse nada. Quase nem lhe liga pelo celular e quando loga não coloca imagem. Ela pensou que ele estava com vergonha de olhar na cara dela para dizer que ainda não tinha sido capaz de vencer na vida, como tinha prometido. Mas será que é só isso? Já não sabe de nada...
Vai ser difícil provar que sofreu o que sofreu. O advogado de defesa, orientou o cara a dizer coisas inacreditáveis que o juiz acreditou. De repente até tem a sensação que todos acham que a culpa é dela. Como tudo isto é possível? Ela diz o que viu, o que sentiu e o que lhe aconteceu e o cara diz o que o advogado sabe que ele deve dizer, para conseguir fugir das punições da Lei Maria da Penha. Para que existe essa lei se todos os homens procuram advogados para fugir a ela?
Levantar de novo, levantar de novo, levantar de novo. Não pode esquecer.
Ana Santos, professora, jornalista
Sábado é dia de conto no Bug Latino. Contos diferentes, que deixam sempre alguma reflexão para quem lê. Contos que tentam ajudar, estimular, melhorar sua vida, seu comportamento, suas decisões, sua compreensão do mundo.
Imagem: Marino Marini
@buglatino
A Plataforma que te ajuda a Falar, Pensar, Ser Melhor.
#buglatino #treinamentosdedesenvolvimentopessoal #autoconfiança #desenvolvimentopessoal #comunicaçãoprofissional #crescimentopessoal #históriasdesuperação #motivaçãodiária #comunicaçãoeficaz #autoconfiançaeautoestima #habilidadesdecomunicação




Comentários