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2 Contos Idosos


Fotografia de Ana Ribeiro

Conto “GATOSAS”

A exigência, há muito estava restrita a conceitos e normas que valessem mesmo à pena. No caso, inteligência, criatividade, bom humor e otimismo são sempre estruturais. Se o preço era uma celulite, ela pagava. Um pouco mais que duas continuava valendo...


Outra coisa que ela, como “gatosa”, tentava manter era a capacidade de compartilhar, ouvir e analisar, para só depois tentar responder, ao sintetizar. Cada vez mais acreditava que as pessoas estavam em plena confusão acerca do papel e da serventia da palavra falada. Não “preenchemos espaços vazios” com elas – trocamos conhecimento – sempre repetia.


A questão era a da análise da idade dentro de um papel social na vida que, conforme oa anos iam passando, aproximava a mulher de seu verdadeiro papel social – aquele papel em que não adianta alguém lhe passar rótulo de boa como “indicação, pistolão ou apadrinhamento” porque o papel de ser dona de seu nariz, você pode aprender ou não a se apropriar com clareza na vida.


Levantou os olhos para a tela do computador, relanceou os olhos para verificar se a CPI da Covid tinha voltado – teria saudade daqueles políticos – pela primeira vez tinha visto, revisto, provado e aprovado uma pequena parte desta nova geração de pessoas que enfrentaram o “padrão feudal” vigente – e o abraço popular provava cabalmente que com candidatos bons, o povão sabia escolher. O problema é que “o grosso” da nossa democracia estava viciada em agir para criar vergonhas.


A gatosa – gata idosa, para os não sabedores do chamado carinhoso – queria muito mais. Não lhe bastava mais o Facebook e seus “duendes polarizados”, não lhe bastava o Instagram, não lhe bastava o Twitter e YouTube - as relações verdadeiras precisavam voltar ao seu uso funcional, em nome da saúde mental, emocional e verbal de todos. Que espécie de significado tem a ação de alguém matar alguém, puxar arma pra alguém, agredir alguém por algum motivo? Que espécie de primitivismo, brutalidade, insensibilidade faz um homem pular no capô do carro de uma mulher por um arranhão na lataria?


Era mesmo um mundo onde os ditos idosos ainda tinham lutas a lutar, já que as novas gerações não pareciam saber bem o que fazer. “Dia do idoso é guerra”! – pensou ela massageando os dedos doloridos de digitar. “Há um povo inteiro por entender, nesse mundão de meu Deus chamado Brasil. Há uma vocação de alegria por reencontrar, exemplos a reapresentar e com eles reconstruir tudo o que está em andrajos, em pedaços mendicantes.


Levantou de sua mesa, olhou rapidamente pelo espelho, procurou as chaves da casa, agradeceu o fato de ter um teto e saiu. Havia ainda muita vida por viver.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Sou idosa, meu Deus”

Ana sempre achou que não viveria mais do que 35 anos. Quando era menina, achava as pessoas com mais de trinta anos, muito experientes e algumas até, velhas. Por isso, 35 estava bom e era considerado o marco final dos seus trabalhos por aqui pelo mundo. Assim, de forma bem pragmática.


Mas a vida não é como a gente decide e ela cá foi ficando mais uns anos. Mais décadas. Perdendo familiares, amigos, colegas de trabalho. Perdendo capacidades.


Sempre achou que a vida era uma caminhada de desenvolvimento, de aprimoramento, de melhoria. Via nos outros a subida e a descida, mas de alguma forma fez de conta ou esqueceu e desejou que algo mágico acontecesse na vida dela. Gostava tanto de histórias, fábulas, lendas, bem que sua vida poderia se tornar uma delas...


Um dia discutiu com uma médica que a mediu e lhe deu menos dois centímetros. “Como assim? Estou lhe dizendo que tenho 1,69, como a Dra. me diz que é 1,67? Pelo menos no meu país tinha. Talvez as medidas aqui sejam diferentes.” – disse, percebendo a palermice que saía da sua boca. “Ahahahah” – resposta da médica. “Nunca ouviu falar que com a idade vamos ficando mais pequenos?” Claro que tinha ouvido falar, claro que sabia, mas ela ainda era muito nova para lhe acontecer isso. Era? Era nova? Na sua cabeça era nova, mas seu corpo obedecia, como todos, ao trajeto da vida e dos anos e não tinha como impedir.


Dava-se conta de finalmente sentir como era terrível perceber o caminho dos anos no corpo, perceber o infalível peso do tempo. Deu sempre lições de moral aos outros. Que lição de moral tinha para si? Não encontrava nenhuma. Encontrava sim a vontade de dizer a todos a quem tinha dado lições de moral, que agora entendia tudo e como os respeitava eternamente. Agora sabia como era diferente saber e sentir.


Realmente mais baixinha, exames médicos de rotina, caixa de medicamentos para não esquecer dos horários de toma, sapatos ortopédicos, medo de ficar com Alzheimer, com Parkinson, com incontinências, com problemas de visão, dependente. Medo de ficar com problemas financeiros e outros e sem capacidade física e emocional para resolver. Medo. Medo. Medo de envelhecer.


Um dia precisou analisar esse ambiente de terror que vivia dentro de si. Teve uma conversa consigo, de Ana para Ana.


Como é Ana? Você preferia ter morrido mais jovem? Não, não. Não é isso. Você queria ser jovem para sempre? Tipo, ter sempre 27 anos? Não, não. Também não é isso. Você queria tudo de bom, tudo perfeito para você? Você acha bem desejar isso com tantas pessoas piores do que você? Credo, não, não. Não é nada disso. Então o que é se você vive?


Não sei. Talvez seja apenas foco. É ficar presa nas dores em vez de apreciar o sol que bate na minha cara e me faz sentir viva. É ficar com pena de não ter a mesma energia física e esquecer que a energia interior está cada vez mais madura. É pensar no que não terei mais, em vez de pensar no maravilhoso que já vivi e nas recordações extraordinárias e pessoas incríveis que pude conhecer e com quem aprendi tanto. É ter vergonha de fazer coisas estranhas em vez de me rir com essas mesmas coisas. É ficar com medo das doenças em vez de aprender com elas. É ter pena do que perco e não pensar no que ganho. É tanta preocupação que devia ser sensação.


Pera aí, Ana. Isso é perder tempo. O tempo é algo precioso. Tive uma ideia que talvez possa ajudar.


Ouça minha Ana, em mim. Vou te contar todos os dias coisas boas que te aconteceram e que tu já não te lembras. Boa ideia. Hoje, vou te contar o dia em que em vez de comeres tomate, comeste pimenta. Eras bem pequenina. Tinhas fogo na boca, lembras? Era horrível a sensação. Isso é uma história boa? É, porque tiveste direito a andar no baloiço novo durante bastante tempo. Se não fosse essa pólvora na boca, não sei quando poderias fazê-lo. Ah ah ah ah... Quero outra história. Ok, o que não falta é tempo. E quando tu olhavas por dentro da televisão tentando ver as pessoas que apareciam na tela? Ahahahah....já nem lembrava mais que fui essa pessoa...quero mais, quero mais....

Ana Santos, professora, jornalista

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