2 Contos: “FUGAS” e “Ficando velha”
- portalbuglatino
- 23 de mai.
- 4 min de leitura

Conto “FUGAS”
O fato é que ninguém além delas sabe que a dimensão de poder fugir por aqueles momentos era uma coisa extraordinária. Ter, eventualmente, algumas poucas horas para desaparecer, ao contrário de tantas e tantos que lá estavam todos os dias, comparecendo, mesmo que de má vontade, mesmo que para reclamar da vida, era um ganho sem igual.
Nada além de uma coisa comum, dentro das coisas comuns que existem ali naquela região. A pessoa aproveita o que tem. Nada de especial. Um sanduiche simples, de alface ou queijo – embrulhadinhos em guardanapos de papel, água, frutas, céu, sol, tempo fresco, rua – e quanto mais cedo melhor!
Cada lugar, por causa da hora, não tem ninguém ainda. E você se achar como um desbravador da vida, num mundo tão cheio de pessoas é... Pode-se ter uma ventania, uma chuva; pode-se ter o ronco de um mar bravio ou ondas lambendo seus pés, daquele jeito morninho de sempre; pode-se ter você diante da natureza, perguntando o que o secretário tinha na cabeça quando mandou asfaltar um caminho que deveria continuar sendo de terra.
O fato é que cada ser humano deveria poder criar esse pequeno momento onde mergulha em suas próprias idiossincrasias, ironias, angústias, dúvidas, tentando pô-las em palavras. Reinterpretá-las, reentendê-las, reapresentá-las a si mesmo. Você e o seu espelho íntimo, aquele que lhe reflete o espírito. Nada de Europas ou Américas, como passeio predileto. Apenas você, um seu lugar especial ou indo à descoberta de novos lugares, um pão, uma água e você para tentar entender um gesto ainda não digerido, um olhar que precisa ser melhor visto, revisto. Você e numa companhia especial. Só isso.
Num mundo onde, ao invés de nos vermos, ficamos analisando a nossa própria performance nessa vitrine absurda que são as redes sociais, de repente a ausência do celular, o silêncio da não existência de internet é tão enternecedor... Fica-se ali, dando passos, vendo o velho fazendo exercício, alguém que caminha simplesmente, a criança que passa, o cachorro vira-lata que tem sede... Naquele momento, nós podemos abrir mão de tudo para sermos apenas aquele pedaço de sanduiche para o cachorro, uma cumbuca de água que seja capaz de lhe matar a sede, um bom dia para o desconhecido e... nós – mais inteiros, mais humanos, complexos, mas depois de tudo, mais concisos no que somos.
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Ficando velha”
Li a notícia de dois futebolistas que brigaram feio no vestiário. Em qualquer clube seria horroroso, ainda por cima são de um dos melhores e mais ricos clubes de futebol do mundo – Real Madrid. São jogadores de seleção, são milionários, são lindos, são saudáveis, são referências, etc, etc, etc. Estou chocada. Estamos em 2026, no século XXI. Sério isso?
Piora. Ai piora sim. Depois do sucedido, ainda vem um dos jogadores dizer que não foi nada de especial. Ele, teve traumatismo craniano por causa da briga, mas o que aconteceu, não foi nada de especial? Estou chocada.
Está muita gente preocupada com o fato de ter saído para o público a situação. Querem saber quem é o indivíduo que conta os segredos. Novamente chocada. O problema deixou de ser dois colegas, que deviam ser amigos, brigarem feio ao ponto de um ser hospitalizado. O problema é o público saber e, afinal, nada de especial acontecer. Chocada e pensativa. O que acontecerá de grave que ninguém sabe, nem imagina? A verdade, a transparência, a competência e a lealdade entre profissionais, deixou de existir?
Estou velha minha gente. Eu sou do tempo em que se uma colega esquecesse o seu tênis, alguma outra emprestava os seus, de imediato, ou mesmo o assistente do treinador. Alguém ajudaria a resolver. Isso era normal.
Há décadas atrás, num jogo de voleibol, muito importante, numa tarde de calor absurdo, uma das minhas colegas ficou muito tensa subitamente e sem razão aparente – estávamos vencendo, controlando o jogo. Voleibol tem paragens, no final de cada jogada, mas é por pouco tempo, por isso não dá para tratar de situações problema ou situações inusitadas com calma. Tudo precisa ser resolvido com brevidade, com um gesto, uma palavra, uma ação curta. Além disso, o local ficava cheio, lotado, com muita gente observando tudo, tudo mesmo. Sua inquietação só aumentava. Alguém disse alguma coisa às atletas suplentes, que foram buscar algo rapidamente, que informaram o treinador que teria de pedir um desconto de tempo. Tudo muito rápido, muito confuso, com meias palavras, no meio de um jogo onde já não tínhamos possibilidade de substituir ninguém e onde se tinha apenas um desconto de tempo para pedir. O treinador não queria pedir, mas alguma palavra o fez mudar rapidamente de ideia. Pediu e não veio dar instruções. Nem ele, nem seu assistente. Que estranho, pensei. Nunca vi isso na minha vida. As suplentes vieram todas e fizeram uma espécie de barreira circular. Percebi que era algo feminino. E era. A minha colega falou, muito tensa, que tinha começado seu período menstrual, bem ali, naquele momento. Lhe passaram um “absorvente”, ela colocou, com todas olhando o teto para tentar dar um mínimo de privacidade. Todas juntinhas para que ela, no meio, pudesse fazer tudo certo, as suplentes passaram-lhe uma toalha molhada e seca, para lavar minimamente as mãos, álcool para as desinfetar e terminou o tempo de paragem. Os árbitros não deram pressa, ela sossegou, nos olhamos todas, cúmplices, felizes por ela ficar aliviada e voltamos para o jogo. Vencemos, mas a nossa felicidade naquele dia não era só pela vitória. A felicidade era mais pelos olhares cúmplices, pelo entendimento comum do desconforto que ela viveu, pela forma humana e unida que todas se comportaram. Aquilo nos uniu muito a partir daquele momento. E num ano de muito conflito, de muita competição pelos lugares no time principal.
Tão lindo, tão bom e tão humano.
Agora, colegas se enfrentam, brigam, até chegar ao ponto de um ter um traumatismo craniano? E diz que o que aconteceu foi que ele mesmo bateu com a cabeça numa mesa?
Estou velha. Velha e muito velha...
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Salvador Dali
Sábado é dia de conto no Bug Latino. Contos diferentes, que deixam sempre alguma reflexão para quem lê. Contos que tentam ajudar, estimular, melhorar sua vida, seu comportamento, suas decisões, sua compreensão do mundo.
@buglatino
A Plataforma que te ajuda a Falar, Pensar, Ser Melhor.




Comentários