2 Contos: “EU, ERIKA HILTON E O OUTONO” e “Guinadas e Gigantes”
- portalbuglatino
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Conto “EU, ERIKA HILTON E O OUTONO”
Ah, a Bahia no outono... A temperatura dá aquela caidinha e a gente se espanta quando o calorão é substituído por aquela sensação de sono de depois do almoço... Umas cabeçadas na frente do computador, o conto que tenho que escrever – no máximo! – até a sexta-feira de cada semana e a sensação de que deixo os leitores em falta, se escrevo alguma coisa que não esteja mais ou menos no dia a dia da gente, aqui no Brasil. E assim foi hoje – umas cabeçadas de leve, Word acessado, os olhos pesando, uma entrada no Facebook informal e - caraca, perdi até o sono!
Algumas pessoas – sem noção, só pode ser – estavam falando que a deputada Erika Hilton não podia representar as mulheres na Câmara dos Deputados, não por nenhum motivo inaceitável como: mulheres tem que ser servis aos homens, mulheres só podem usar saias abaixo do joelho, no “modelito colégio de freiras” a partir de hoje. Não. A Erika Hilton, deputada maravilhosa, uma das melhores do Brasil, eleita e reeleita como a melhor deputada que temos – esta – estava sendo criticada porque não tem útero para poder defender os direitos do nosso gênero. Ela é uma mulher trans. Aí inventaram um conceito muito engraçado – isso, relevando que é completamente ignorante – de mulher biológica – como as cadelas e vacas do Sítio do Picapau Amarelo - que nasceram para serem cobertas, parirem e amamentarem. Só. Só isso.
- Bem – pensei - acho então que devo ser um espírito com algum grau de evolução e luz porque nem de longe me vejo como um útero falante. E logo me lembrei de Monteiro Lobato de novo – ele foi o rei da minha infância. Havia o Burro Falante, no Sitio - isso lá pelo meio da década de 1960 – mal revivido agora pelo “Útero Falante”, dessas algumas pessoas.
O primeiro homem “pró Útero Falante” que se expressou ficou meio desconcertado quando a grosseria peculiar não despertou em mim nenhum “instinto primitivo” e eu apenas argumentei sobre o trabalho incrível da Deputada, marcando que ela, sozinha, dava conta de inúmeros machistas totalmente inúteis, que estimulavam cotidianamente os crimes contra nós, a medida que se omitem de votar ou contribuir ou qualquer coisa em favor da nossa sobrevivência e convivência com eles. Ele ia engrossar. Mas aí, lembrei a ele que tinha 65 anos e que lamentava o fato dele acreditar que aquilo, aquelas palavras mal educadas eram algum tipo de argumentação. Ficou sem graça e sumiu.
Umas horas depois, já dirigindo edição de vídeos, como em todas as sextas, ouvi um PLIN – o Facebook, de novo. Ali eu pressenti o comentário número 2 e abri. Uma mulher. Um textão. Só li o começo. Ela já iniciava dizendo que eu não poderia dizer que todas nós ocupávamos o mesmo gênero – o feminino, claro.
- Querida, eu vou falar devagar pra ver se você percebe a semelhança, ok? Mulher trans. MULHER trans. MULHER TRANS. Percebeu a palavrinha em comum? Ok, vou te ajudar: M-U-L-H-E-R. Portanto, nem vou perder muito tempo com outras explicações. Você pode não gostar delas, tem todo o direito. Pra isso, eu repito minha avó: “Coma menos”. De resto, cuidadinho com as palavras que usa porque transfobia é crime previsto no Brasil, viu? Dá cadeia. Não vá dar uma de advogada argentina, aqui - que foi presa no barzinho do Rio por racismo...
...Que conto maravilhoso seria se eu inventasse que aqui a população inteira já entendia que o espaço de uma pessoa acaba quando começa o espaço da outra... e que isso serve tanto para um, quanto para outro – mesmo entre pobres e ricos, mesmo qualquer minoria, mesmo em qualquer escala de poder. Enfim... me diverti também criando o conto onde a argumentação, o encanto das palavras e o senso de justiça venceram o preconceito e a ignorância.
Que assim seja, amém!
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Guinadas e Gigantes”
Desde menina que imagino que o nosso mundo é como se fosse uma maquete que é coordenada por um gigante. Esse gigante está sentado numa cadeira observando a maquete no chão, entre seus pés. Aquilo que ele considera que está se desenrolando como ele deseja, deixa fluir e aquilo que ele considera que precisa de alteração, imagino sua mão direita, gigante, descendo com muito cuidado para não partir nada, nem tirar mais nada do lugar, e com o polegar e indicador da mão direita, o gigante pega naquela pessoa e a coloca noutro lugar.
Cada religião tem um nome para esse “gigante”. Tem regras próprias, mas eu era muito menina e ainda não sabia de nada disso por isso pensava nele como gigante que sabe o que é certo e que sabe muito bem o que quer e quando quer.
A vida foi avançando e sempre que me acontecia algo estranho – para mim – lembrava dele. Sempre que a vida me obrigava a mudar de rumo, a sofrer, a perder, a viver um pouco a sensação de falta de caminho, de imediato lembrava dele. Quando as coisas eram boas, maravilhosas, surpreendentemente incríveis, pensava em como eu tinha sido capaz, como eu tinha superado meus medos, como afinal eu também era capaz como os outros. Depois pensava em quanto meus pais, irmãos, família, professores, amigos também tinham sido importantes. Mas era depois. Sem saber, sem nem dar conta, esquecia do “gigante”.
Penso que o gigante me tentou avisar disso e de muitas outras coisas, mas eu não sabia escutar, não sabia ver, não sabia sentir. Não entendia nada e seguia, até que um dia, o gigante resolveu me pegar pelo indicador e polegar e me obrigar a prestar atenção. Foi tão impactante e tão avassaladora a alteração que continuei em piloto automático, fazendo tudo direitinho e igual durante muito tempo mas estranhando muito o mundo, até perceber o que tinha acontecido. E quando percebi, o mundo parecia que tinha parado e eu não encontrava nenhum botão que funcionasse para o colocar a funcionar de novo como eu conhecia. Mas não havia mais “como era antes”. O gigante sabe o que faz, mas eu fiquei chateada com ele por algum tempo. Até aceitar mudar, aceitar a realidade, coisas dificílimas que só consegui fazer com a ajuda de minha irmã mais velha e minha mãe. Outras pessoas contribuíram e muito, mas sem estas duas, eu não estaria aqui a escrever este conto. Elas me convidavam para comer e era a única forma de o fazer. Sozinha em casa nem me lembrava de o fazer e estava a desaparecer sem dar conta. Minha médica, tão preocupada em me devolver o apetite, me encheu de vitaminas e dali a um tempo eu comia tudo o que me aparecia na frente. Virei uma bola e todos os que se preocuparam, respiravam de alívio. Acho que o gigante também deve ter achado divertido me ver assim – parecia um balão feliz.
A vida foi avançando e se recompondo. Engraçado porque foi precisamente quando tudo estava se afinando total e completamente que o gigante voltou com seu indicador e polegar, para dar mais uma virada. Desta vez uma virada cheia de sonho e de possibilidades. Mudar de país, a vontade de, ali, fazer o que se sabe fazer bem, e além disso, fazer outras atividades igualmente fascinantes. Mas o gigante voltou a mudar tudo. Não, não era para fazer o que sabes fazer bem. Eu não quis ouvir, mas ele insistia, insistia, insistia. Mais de 10 anos dizendo que não. Percebo agora que só assim me disponibilizei para aprender outras coisas. Coisas difíceis, diferentes, algumas que eu nunca julguei ser capaz. A necessidade de sobrevivência é um enorme professor. O gigante sabe isso muito bem. As minhas paixões de sempre, eu me dedicava nas horas vagas. A vida tinha se invertido – o trabalho virou o que era lazer e o que era lazer virou trabalho. Na verdade deixei de considerar esta divisão porque nas novas atividades utilizava muita informação e conhecimento da minha experiência de áreas totalmente diferentes. E comecei a olhar as áreas que eu tinha mais experiência, com outro olhar, devido ao que aprendia nestes novos mundos e tarefas. Sem dar conta você continua fazendo o seu caminho, apenas está indo por outras ruas, montanhas e vales. E o gigante olhando. Eu penso que nesta fase ele já tinha um esboço de sorriso no rosto. Me olhava lá de cima, assistindo aos meus desabafos, críticas, dificuldades, aguardando o momento de dar outra guinada. E de novo, quando eu aceito que a vida é assim e está tudo bem, lá vem ele com seu polegar e indicador para dizer que não, que tem mais, que nunca é o momento de colocar as pantufas e a manta nas pernas e relaxar. Nunca. E lá vem guinada, e que guinada. Ainda estou na fase de me sentir atordoada, assustada, com receio de não ser capaz. Mas ele melhor do que ninguém sabe que eu pedi muito, que me esforcei muito, que me preparei muito. E desta vez me ensinou que tudo o que me preparo não basta sem a sabedoria e contribuição dos que vieram antes, sem a sabedoria e contribuição dos que fazem o caminho junto, até mesmo os que nos fizeram sofrer já que nos obrigaram a mudar e a evoluir. Gigante, gigante, você é incrível. Bom, chegou a hora da prova. A prova que enfrento repleta de gratidão por todos que se cruzaram na minha vida e que carrego comigo sempre.
Gratidão imensa e até à próxima guinada...
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Picasso
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