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2 Contos: “ENXAME, CHAME, CHAME DE MEDO” e “Fauna excêntrica”


Conto “ENXAME, CHAME, CHAME DE MEDO”

              Estávamos mudando de roupa, quando ouvimos os gritos de minha mãe: “Olha a roupa que vocês vão escolher pro carnaval”!

              Demos uma gargalhada. Então “mainha” não sabia que a mulher tinha conquistado sua autonomia? Que história era aquela? E cada uma escolheu seus decotes e pernas de fora. Imagine se num calor daquele, alguém iria “pegar leve” na escolha do que mostrar...

 

              E lá fomos nós pra avenida! Pulamos na pipoca feito loucas, com a cerveja comendo solta porque afinal era carnaval, minha gente! Bastava vir o trio e a gente entrava... Só que...

              - Ai, que vontade de fazer xixi... Mas nesses banheiros não há quem aguente... o que é que eu faço?

              Olhei um cantinho discreto e lá me veio o grito de minha mãe... Olha a roupa! Sorri de leve... Mas quando eu estava chegando no “pipiódramo”, aparece um cara do nada, me olhando.

              Tentei mudar meu percurso, mas ele já tinha se colocado atrás de mim. O cara era um stalker, daqueles que atacam, falando as barbaridades que só homem mesmo pra achar que alguma mulher gosta de ouvir aquilo. Apressei o passo, ele atrás. Virei a rua, em busca da avenida de novo e, de repente, ele me puxou o braço. Puxei o braço com toda a força, mas ele já estava tentando me agarrar. Não pensei duas vezes e comecei a gritar, enquanto socava, chutava, arranhava. Já tinha entrado - apavorada – na minha fase “vale tudo” com ele, enquanto era apalpada, como se o maldito tivesse nascido com 3 pares de mãos. Ele tentava me jogar no chão e eu sabia que isso não poderia acontecer de jeito nenhum. Via as luzes da avenida ali pertinho, mas não conseguia me desvencilhar, meu Deus. Virou uma luta corpo a corpo. Eu estava histérica de medo. De repente, uma pedrada: “Pá”! Eram minhas irmãs rodeadas de mulheres de todos os tipos e tamanhos, com paus e pedras.

              - Sai de cima dela que se você mexe com uma, mexe com todas!

              - Te mete com a tua vida!

              - É o que estamos fazendo! A nossa vida é uma só, quando uma mana fica em perigo.

              - Ela é que pediu isso, com essa roupa!

              - Sai dessa. Acorda. Não é a roupa dela, é você que é tarado.

              Movimentação, ruído na entrada do beco. Era a polícia. Minhas irmãs também chamaram os PMs. O cara tentou correr, escapar. Me deu um empurrão daqueles, mas uma mana meteu o pé na frente. Ele tropeçou e outra mana empurrou o cara no chão. Ele já caiu tentando bater, mas a gente, ao invés de fugir cercou ele. Veio a polícia e ele cercado, esperneando na rua e um monte de mulher em cima dele, das pernas, da barriga, uma em cada braço. O Gulliver pós moderno estava gritando, totalmente imobilizado.

              - Pode soltar que a gente vai levar!

              - Leve esse cão algemado!

              E fomos atrás, naquele bloco insólito, cheio de mulheres abraçadas, felizes, cantando. Algum dia, os homens nos respeitarão e coexistiremos, mas enquanto isso não ocorrer, as mulheres vão descobrir que juntas têm muito mais força do que pensam.

              Mas ninguém quis contar nada a “mainha” porque seria “esporro” certo...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Fauna excêntrica”

Minha vida é rodeada de animais.

Em todos os momentos do dia, preciso me proteger contra mosquitos. Não sei se é a época, se é o local, se é a fossa a céu aberto do prédio mais caro e luxuoso do meu bairro. Só sei que os mosquitos são presença constante. Ontem, pela primeira vez, fui ferrada na orelha. Talvez porque eu tapei tudo o que podia durante o sono – menos a orelha.

Já tive Zika Vírus, o Dengue e a Chikungunya são ameaças constantes. Mas o que adianta você se cuidar, cuidar do lugar onde vive e ter vizinhos irresponsáveis? Enfim, um animalzinho, chamado de inseto, tão bonitinho, provoca tanta confusão. Que pena.

As lagartixas também são companhia diária. Bonitinhas, pequeninas, amarelinhas, barrigudinhas, estão perdendo a vergonha. Estão sempre circulando pelas bananas e caroços de mamão que ficam secando numa tigela.

As baratas são uma companhia muito desagradável, que felizmente não é muito frequente. No tempo de muito calor, são mais frequentes e me enojam multiplicadamente. Não precisam aparecer, viu?

Sabiá, Bem-Te-Vi, já são da família. Os macaquinhos, querem ser da família, mas eu não os aceito. Eles lá e eu cá. Roubarem constantemente os ninhos da Sabiá e de outros pássaros, não consigo perdoar.

Borboletas, lentas e calmas, parecem nos lembrar que o mundo pode ter outra velocidade. Visitas frequentes e muito agradáveis, são sempre desejadas e bem recebidas.

Formigas são problema porque eu acho que elas mandam na cidade. Vivem debaixo da terra, em vasos, nas raízes das nossas plantas e árvores, até dentro dos armários e das paredes das casas. São terrores silenciosos. Lindas, fofas, incríveis carregadoras de mercadoria, muito organizadas, mas as olho como terroristas silenciosas.

Os ratos, meu Deus, os ratos. Estão por todo o lado, literalmente por todo o lado. Acredite ou não, um destes dias, vínhamos de carro para casa e passamos numa rua cheia de carros, de caminhões/camiões, de motos. Estava mesmo muito trânsito, aquela confusão de pré-carnaval. Tanto ônibus de turista, tanto caminhão/camião, que por vezes até ficávamos na sombra – e nesse dia estava muitooooo calor. Deviam ser umas 11h da manhã, um calor absurdo, e de repente, um bicho caminhando em cima do vidro da frente do carro. Sim, um rato, aquela coisa pequena, mole, dengosa, parecia tentar entender onde estava. Eu, que detesto ar condicionado, respirei de alívio por estarmos de vidros fechados. Normalmente os vidros e portas fechados são prevenção contra assaltos, mas desta vez me salvaram de morrer de nojo. Tentei falar, dizer que estava ali aquele bicho, mas minha garganta trancou. Só saiam sons bizarros, junto com minha expressão de horror. Agora rio e faço rir todos a quem conto isto, mas naquele momento demorei a entender que ele estava do lado de fora. Nunca tinha visto um bicho tão nojento, tão perto. Meu pânico acho que era a sensação de que ele ia entrar no carro, a sensação de que ele me tocava, ao tocar o carro. Querer que ele olhasse para mim e percebesse que eu não queria a sua companhia. “Por favor, sai, sai...” Consegui mexer o para-brisas, o que fez com que ele saltasse – acho. Viajamos uma hora depois desse acontecimento, à velocidade de 80 km/h, mas ainda hoje, tenho receio que ele apareça dentro do carro, ou de novo caminhando no vidro. Se fosse um filme, diria que era bonitinho e indefeso, mas na vida real, só penso em doenças, em nojo, na minha garganta trancada, nos meus tremores e expressões de horror, como se tivesse mastigado algo bem amargo. Que situação! E quem caminha na rua, regularmente vê grandes ratos esmagados pelos carros. Se caminhar ao final da tarde e noite, vê muitos vivos, horrorosos, tomando conta das cidades. Vou parar senão minha garganta tranca de novo. Socorro!!!!

Os cachorros. São os eleitos, os fofos, os docinhos das ruas, cada um com seus donos, seus mimos, seus cuidados. Mas a porcaria que fica no chão é demasiada. Gente, que situação! Eu imagino a seguinte situação...de dia, todos os donos são muito educados. Apanham o cocozinho dos seus bichinhos queridos – claro que tem os mais rebeldes e desgraçados que nem de dia. Mas será que quando os donos passeiam seus bichinhos, de noite, apanham a porcaria? Duvido...pois pela manhã, as ruas, tem tanta porcaria que parece ter sido lançada de helicóptero. Que situação!

Escorpiões existem em outros bairros. Aqui nunca vi e espero nunca ver nem “sentir”. Jacarés também não faço questão nenhuma. Fiquem lá no vosso lugar por favor. E jiboias me deixaram preocupada. Um amigo que vende frutos secos na rua, junto de uma mata, nos contou que um dia destes, de tarde, adormeceu sentado, junto da sua banca, e acordou com uma jiboia bebê passando por cima do seu braço e seguindo para a mata. Pensei que ele estava brincando, mas não estava. Diz que era bonita, que passou sossegadamente pelo braço dele e lá foi...

Temo que, se fosse eu, a fala me deixaria para sempre.

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Lisipo


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