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2 Contos Encantados


Conto “O tempo não para”

Olhava muitas vezes para o tempo. Tanta coisa aconteceu e tanta coisa poderia ter acontecido diferente... O destino tem ideias muito particulares para juntar e separar pessoas. Outro dia mesmo, num filme, um casal tinha levado mais de uma década pra ficar pronto um pro outro e quando isso aconteceu, ela foi atropelada de bicicleta e morreu na hora. Oh! – Se chega a pular da cadeira na vida real também.


Mas a ficção apenas imita a vida real quando faz os corações acelerarem. Como se pode descrever isso? Há uma coisa a ser feita – pegar um turista, parente de alguém, por exemplo. Uma tarefa comum na vida de quem sabe dirigir e está num lugar com praias. Mas naquele dia, quando os olhares se cruzam pela primeira vez, é como um raio que se desvia para apontar em outra direção. Deveria cair lá longe, mas cai sobre as cabeças que ali estão. E os corações se aceleram e as palavras parecem não tem fim. O destino – lá está – puxa as pessoas para lugares opostos durante anos e num dado momento, as traz de volta ao mesmo lugar, ao raio, às palavras que nunca têm fim, a amizade e ao amor – tudo ao mesmo tempo. O raio e o para-raios. A fechadura e a chave.


Mais de vinte anos entre a “queda do raio” e a corrente elétrica contínua. Por isso olhava repetidas vezes para o tempo. Tanta coisa já havia passado e ainda parecia muito pouco, diante de tudo o que havia no universo dos corações descompassados.


Muitos problemas – e também verdades amargas. Lágrimas derramadas por mil motivos diferentes – muitas de tanto rir e outras... nem tanto. Ainda ontem, leu no Facebook: “Só sabemos que estamos no caminho certo quando aparece gente pra nos sabotar”. – Que bom que estavam nos caminhos certos, porque nunca faltaram sabotagens...


Mas em todos os momentos, havia o jardim, os passarinhos cantando - já donos do terreno todo – e seus olhos pregados no tempo e nas respostas que ele ainda lhe reservava, no futuro.

Uma nova eleição, ano que vem – Graças! – E esperava ansiosa também que a solução de tudo o que tantos haviam começado finalmente acontecesse. E eram tantas coisas... Novos negócios, ideias, sonhos, necessidades. Torcia por todos os que não fossem assassinos e ladrões. Mas ainda havia tantos a combater que perdia o fôlego.


Com os olhos postos na pitangueira e no cavalo que pastava logo em frente da casa, seu coração acomodou-se naquele silêncio calmo. A pandemia ainda espetava sua alma, 600 mil mortos pediam uma investigação e uma resposta justa, mas naquele instante, eram apenas seus olhos espremidos diante do tempo, o cavalo, os passarinhos e as flores. E um suspiro de alívio – viver tinha desses momentos mágicos, às vezes...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Ana se sentia a pior pessoa do mundo. Chateada porque nada corria bem. O trabalho que tinha nunca era o trabalho que queria. O namorado que tinha nunca era perfeito. A cidade, a casa, a comida, os amigos, tinham sempre um defeito, um problema. O dinheiro nunca chegava para ela e parecia chegar para todos os outros. Quando estava sol e calor, tinha saudades do frio e da chuva. Quando estava só, sentia falta das pessoas. Quando estava com as pessoas, queria estar só. Como a vida era injusta.


Via as pessoas pela rua caminhando e quase todas sorriam. Umas até davam sonoras gargalhadas. E ela pensava que era a pessoa com a vida mais infeliz do mundo porque nunca tinha vontade de sorrir nem de dar gargalhadas.


Foi levar o seu carro para a oficina para fazer a revisão. Apanhou muito trânsito no caminho. Talvez tivesse sido melhor ir mais cedo, ou mais tarde. Ou então, hoje era o pior dia para andar na estrada. Logo no dia que teve de levar o carro. O cara que a atendeu parecia simpático, mas os outros pareciam ser mais. Foi a última a ser liberada. Tinha de ficar com ela logo o mais lento. Puxa vida.


Lamentando internamente as suas infelicidades pediu um Uber para ir para casa. O preço não era mau, mas será que ainda podia ter conseguido uma viagem mais barata?


O Uber chegou, ela entrou e lá foi para casa. O senhor não era nada falador. Ela tentou começar a conversar por vários temas mas o senhor nem respondia. Até que Ana deu uma gargalhada quando ouviu na rádio que as pessoas estavam fazendo fila para entrar na praia da Barra. O radialista até falou que não vai demorar muito para começarem a vender ingressos para entrar na praia. Nessa gargalhada, o motorista olhou para trás, para ela e também sorriu. Silêncio de novo. Ana começou falando que nem consegue entender como as pessoas conseguem ir para a praia, numa quarta-feira de manhã, numa época de pandemia. “Elas não trabalham? Eu passo os dias a trabalhar. Não tenho dias para ir à praia não. Tenho de ralar todo o dia. E o dinheiro nunca chega. Não entendo. As pessoas estão felizes e indo para a praia nos dias e horários de trabalho?”


Subitamente o senhor começou a falar que também não entendia como as pessoas faziam esse tipo de vida quando a situação estava tão difícil para todos. Que tinha vergonha do seu país ter chegado a este estado. Que havia muita injustiça, muita fome, muita dificuldade, muito problema, para além da terrível pandemia. Ana já começou a gostar dele. E o resto da viagem foi sendo feita numa triste mas boa conversa. Ana falava com cuidado porque viu na mão esquerda do senhor um terço e normalmente as pessoas que expõem a sua religiosidade, costumam ser obsessivas e intolerantes. Mas este senhor falou até que estava muito triste por ver no seu país, pessoas – algumas em cargos bem importantes – utilizando a religião para fazer o mal, quando a religião só quer o bem de todos, dos outros, da vida, do universo. Nossa, Ana ficou bem admirada de ouvir isso porque ele era a primeira pessoa que o dizia. E ela sabia que era verdade mas nunca tinha ouvido de forma tão simples e clara a verdade. Estavam quase chegando na sua casa e o senhor falou as últimas palavras. Que tinha gostado muito de a conhecer, que lhe desejava muita sorte e que gostava muito que o seu país pudesse parar de aumentar os problemas. Que ele precisou fechar o seu negócio no início da pandemia, depois roubaram-lhe o carro, depois teve um AVC... Atualmente está a trabalhar na Uber com um carro emprestado uma parte do dia porque a outra parte do dia precisa de tratar de crianças e idosos da sua família. Ana, pagou, agradeceu a viagem, desejou-lhe uma vida feliz mas não conseguiu encontrar palavras para dizer o quanto tinha ficado emocionada, tocada, impressionada com o que ouviu e por ter conhecido uma pessoa tão especial com uma vida tão frágil. Abriu a porta de casa e chorou horas. Sentiu uma vergonha brutal pela forma como olhava a vida. Como podia ser tão patética, tão egoísta?”

Ana Santos, professora, jornalista


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