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2 Contos de Danos


Foto retirada do site Folha da Terra Digital - Tapete do Planalto danificado

Conto ‘E O NAVIO NÃO FOI À PIQUE”

Uma semana inteira tinha se passado. Ou era apenas uma semana? O Brasil tinha virado uma coisa tão “over” que aquela semana de posse parecia estranha. Não havia impropério, xingamento, encrenca. Estranhamente as coisas estavam “normais” – aquilo que ela vivia antes era apenas uma espécie de sobrevivência social e agora – paz! O silêncio e a alegria nas redes parecia falar por si.

Mas as noticias chegavam sem parar, como sempre: o Palácio tinha “apanhado” da família que havia sido despejada porque ocupar o espaço sem pagar também quer dizer “cuide”. Mas... a tal família nunca tinha percebido o básico do básico e não seria agora.

Olhou pela janela e o tempo permanecia nublado. O cheiro de tinta marcava suas narinas, agora que o Palácio tinha entrado em reforma, mas o “cheirinho principal” era o da esperança que sentia. Infelizmente, todos tinham perdido alguém ou conhecido alguém, ou sabiam de alguém – todos mortos.

Caiu uma chuva forte. Olhando pelo vidro ela pensava que na Bahia, os antigos dizem que a chuva lava. Bem, ela precisava de um pouco mais: ela queria que a chuva lavasse e levasse aqueles anos, aquela família. E queria também receber de volta as pessoas que tinham se afastado por estarem – algumas, iludidas – outras, totalmente “surtadas, loucas, malucas, doidas e tantãs”. “Coisadas da cabeça”, completou.

Sorriu. De alguma forma foi como uma tempestade que havia destruído muita coisa.

- Mas não o suficiente porque sobramos nós... Nós!

Passaram uns micos pelo fio do poste de energia – estavam atrás da sabiá que tinha feito ninho numa coluna do Palácio. Ela espantou os micos, com o rodo na mão e sorrindo.

- É a vida que segue! Afinal, na hora H, as baratas fogem e nós reconstruímos o navio!

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Isso é que não!”

- Dona Michelle?

- Sim?

- O doutor já pode recebê-la. Faça favor de entrar no consultório 3 por gentileza.

Michelle levanta-se e lá vai ela para mais uma consulta com o psicólogo.

- Dona Michelle, como vai? Bem? Faça o favor de entrar e de se sentar.

- Boa tarde doutor.

- Diga-me, conte-me coisas. Tem andado melhor. Mais animada?

- Mais ou menos.

- Como mais ou menos?

- Ando preocupada.

- Normal em si, já sabe disso. Mas tudo vai melhorar.

- Mas doutor, o meu filho mais novo agora diz que adora o artista Stromae.

- Mas isso é uma maravilha. Eu mesmo adoro! É sensacional. A senhora devia ouvir algumas músicas. Ia se sentir muito melhor.

- Ó senhor doutor, por franqueza. Um homem com cabelo de mulher, com tranças? Com anéis de mulher, jeito de mulher e casado com uma mulher e com filhos? Não me diga isso que eu fico já a suar. Aparece bêbado num videoclipe e tudo.

- Dona Michelle, ele fez de propósito. Devia assistir. Mas tudo bem. E o seu filho mais novo? Está melhor o vosso relacionamento?

- Melhorou um pouco mas às vezes também diz umas coisas que me preocupa.

- Por exemplo...

- Quer ser presidente da república do Brasil um dia.

- Mas isso é bom não é?

- Mais ou menos...

- Como assim?

- Porque ele quer ser presidente para poder furar quadros valiosos com canetas, rasgar tapetes persas, andar de moto ao domingo com os amigos, andar de moto de água com os amigos, comer farofa, pizza e sei lá mais o quê pelas ruas de vários países, com os amigos. Eu acho que ele também é gay... Eu estou desgraçada...

- E o seu marido? O que diz ele de tudo isso? Não a ajuda a ter pensamentos mais positivos?

- Olhe senhor doutor, o meu marido é a única forma de eu me sentir melhor, me sentir normal, sentir que a vida está no rumo certo.

- Olhe que bom, viu? E porque diz isso? Que coisas boas ele lhe faz? Posso saber?

- O meu marido tem uma amante. Estou mesmo feliz. É um homem normal, como os outros, os valentes. É que eu também andava muito desconfiada e preocupada. Ele estava com comportamentos tão corretos, que aquilo não me estava a cheirar bem. Só me faltava ele também ser gay...

Ana Santos, professora, jornalista

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