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2 Contos Muito Diferentes


Fotografia de Annie Griffiths

Conto “SILÊNCIOS MILICIANOS”

Todas as brigas eram a repetição da primeira, que coisa incrível. As situações sempre pré-julgadas e o veredito era sempre o pior possível. Olhando detidamente seus pensamentos, ela procurava sua culpa e não a achava. Não achava porque não a tinha. Não havia fato. Não havia nenhum acontecimento. Havia apenas aquele justiçamento advindo de uma educação que não tinha sido a sua. Aliás, nesse quesito, quanto mais o tempo passava, mais adorava a sua própria educação:

- Por aqui é o caminho errado. É errado por isso e isso. Por ali é o caminho certo. É certo por isso e isso. Agora escolha o caminho que quer seguir, mas saiba que você é responsável pelo que acontecer de bom e de ruim – não tinha assim essas palavras tão bem arrumadas, mas o resumo era esse.

- Quer comer come, não quer comer não come; quer fazer, faça, não quer fazer, não faça.

Sua mãe também não aceitava que ninguém ficasse de mal. A pior briga acabava e as pessoas voltavam a se falar mais ou menos e depois melhor, melhor – pronto – já falavam normalmente.

Castigar as pessoas com silêncios obscuros era uma completa novidade em sua vida. E podiam acontecer por quaisquer motivos estranhos!

Aprendeu, portanto, a defender o que considerava importante e o fazia. Sempre. Apaixonadamente. Mas olhando tantos comportamentos ríspidos e inúteis, percebia que muitas decisões que nasceram daqueles embates, haviam empobrecido uma relação multifacetada e rica, cheia de complexidades, generosidades, nobrezas e dadivosidades, mas com aquele tom unilateral de justiçamento – parecia coisa de milícia. Alguém acha alguma coisa e você é quem paga. Assim, do nada.

Olhando o tempo, as tantas chuvas passadas lado a lado, perguntou-se pela milésima quanto tempo uma alma leva para reaprender um comportamento, passando-o de hostil para ameno.

- Flexibilidades...

Comeu sozinha – odiava! – achou uma goiabada no armário e comeu um pedacinho com queijo. Afinal, havia momentos onde o açúcar tinha mesmo a função de adoçar as partes amargas e aparentemente insolúveis da vida. Falar de novo, de novo - um milhão de de novos... E o comportamento absurda e rispidamente silencioso não saía daquele mesmo lugar. Uma coisa é não saber – outra, é não querer aprender.

Viver, muitas vezes demanda explicações que não temos...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “É a hora”

Ana está fazendo as malas. Vai mudar de cidade. Temeu tantas vezes este momento. Tinha pesadelos, tinha medo, paralisava a produção e o progresso da sua vida. Fugia. Varria seus pensamentos com uma vassoura nova de pelos bem retos, sem existir a mínima possibilidade de algum dos mais insistentes ficarem para trás. A consumi-la. Mesmo assim era consumida por eles, arranjavam sempre um jeito de se escapulirem para a cabeça de vento dela.

A cidade onde sempre viveu, Principado dos Importantes Isolados (Pimis), era difícil de deixar. Diziam que era impossível isso acontecer com qualquer habitante. Chegou a assistir a habitantes que conseguiram ir embora bem cedo e mais tarde voltaram. Chegou a assistir a habitantes que enfrentaram as leis injustas mas que depois eles mesmos as seguiam. Chegou a ver nos olhos dos habitantes que concordavam que realmente aconteciam coisas muito injustas, incorretas, de muitas desvantagens, mas depois não tinham coragem de falar, de impedir. Não sabe se não o faziam por afinal usufruírem dessas leis bizarras ou se apenas tinham comido o fruto da árvore que existia na praça do “deixa andar”. A praça era linda, mais linda ainda com essa árvore imponente. Quem não gostava de estar ali sentado, a olhar a árvore e nos tempos de colheita, a saborear a fruta? O que eles não sabiam era que isso lhes causava um efeito de “deixar andar” a vida como estava, sem mudanças, sem resolver problemas, sem tentar viver como pessoas de bem como diziam que eram.

Ana não queria mais comer dessa fruta, mas ficar na cidade sem comer a fruta ou ficar olhando a árvore, enquanto os outros comiam, não estava dando certo. Era esquisito ficar a assistir aquele povo, achando que estava certo e ela não concordando. Todos olhando ela com ar de que “estava errada”.

Não vos falei de um detalhe. O povo da cidade de Pimis falava muito, se reunia muito, mas acontecia um fenômeno nunca explicado – nunca falavam de coisas importantes e sérias. As conversas e as palavras eram só um enfeite, uma razão para se encontrarem, uma forma de imaginarem que tudo estava bem. Parecia que todos viviam numa certa anestesia cheia de palavras sobre coisas, pessoas e acontecimentos, mas que não levavam a nada de útil, saudável, produtivo. O rio ia ficando cada vez mais poluído, a dona Biscoitinho cada vez mais doente. O edifício da escola cada vez mais em perigo de desmoronar, os roubos correndo soltos, os crimes e assassinatos também. Todos se reuniam para lamentar o estado das coisas mas era só para isso que as palavras serviam. Ana tentou algumas vezes que as palavras servissem para resolver, mas aconteciam silêncios “caladores”, ou irritações “afrontadoras”, ou ainda risos e sorrisos “desprezadores”. Anos e anos tentando. Não dava certo.

Ana está velhinha, está tristinha, está desanimadinha. Está na hora. Já devia ter feito isto há muito mais tempo, mas não foi capaz. Pensou sempre que seria difícil mas que era capaz de resolver. Sonhadora. Infeliz. Pensou ser capaz de contradizer umas frases que lhe disseram há muitos anos que ainda ecoam nos seus ouvidos: “achas mesmo que és capaz de enfrentar toda a população da Pimis? Tu não sabes onde te estás a meter. Vais te arrepender. Ninguém consegue. Quem achas que és tu?” Ela realmente não é ninguém, mas comer aquele fruto, não mais. Ficar olhando aquela árvore, não mais. Ficar a olhar para o rio, não mais. Assistir à Dona Biscoitinho morrer de tanto comer o fruto, não. Ficar mais uma vez debaixo do edifício da escola nem pensar. Ser roubada de novo e de novo, não, e querer morrer assassinada muito menos. Existem muitas formas de viver bem, não precisa de ser assim. Não vai mais poder ir às festas e aos encontros da Pimis? Na verdade isso até é um alívio. Não vai fazer mais parte dos que têm todos os segredos? Mas o que adianta fazer parte desse nicho se nada se resolve? Se não se pode utilizar as palavras e as ações para avançar? Se fazer parte desse nicho é apenas status? Para que ela quer o status?

Quando já está a fechar a mala, lembra de uma última coisa. Num canto da casa tinha guardado uma tigela e uma colher bem velhinhas. A tigela estava estalada e com uma parte quebrada, a colher meia amarela e enferrujada. Era ali onde colocava a sopa para as pessoas que de vez em quando batiam na sua porta, viajantes esfomeados, pedindo algo para comer. Nas primeiras vezes tinha nojo deles e utilizava aquela tigela e a colher separadas do resto da sua louça. Depois passou de nojo para admiração. Queria ser como eles. De verdade. Recebiam aquela sopa como se fosse a melhor comida do mundo e quando estavam comendo ela ficava olhando pelo canto da janela. O relógio parava. Um ser, viajando pela vida, parando sua caminhada para comer sua sopa sem falar se era salgada ou insossa, se era bem feita ou mal feita, se afinal ela era boa cozinheira ou se não, conectado com a fome, com o alimento e com seu corpo se recuperando. Terminava aquela sopinha com um pão, trazia-lhe a tigela vazia e a colher suja e a boca se abria cheia de agradecimento, os olhos a olhavam, como um tiro. Poucas palavras, mas cada uma vinha mergulhada em mel.

Embrulhou a tigela num pedaço de jornal, a colher noutro pedaço. Depois embrulhou cada um dos embrulhos numa camiseta e enfiou ambos na mala. Assim tinha a certeza que ficavam protegidas. Fechou a mala.

Os pesadelos, os medos, as preocupações parecem ter fugido dela subitamente. Como se ao fechar a mala, fechasse tudo isso. Sente um alívio? Parece ser. Levava o mais nobre da sua casa – a tigela e a colher. Não lhe faltaria sopa pela vida fora.

Sabe que não deixa saudades. Afinal ela era um estorvo. E está bem assim. É sexta-feira, início de tarde. É o horário em que a população do Pimis se costuma juntar na praça do “deixa andar” a comer a fruta, ocupando o silêncio com palavras. É um bom momento para ir embora.

Ana Santos, professora, jornalista

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