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2 Contos de Rush


Fotografia de Berenice Abbott - Revista La Fundation

Conto “HORA DO RUSH”

Tic tac, tic tac... Cada momento contava. Ali, olhando fixamente naquela direção, ela censurava, cobrava uma solução, mesmo sem falar. Que ousadia era aquela?

- A senhora não está se comunicando comigo... Preciso chamar meu superior.

Voltando alguns passos, no tempo, ela dirigia e falava ao celular – sim, ok, é proibido. Um funcionário da Companhia de trânsito a parou em cima de um viaduto, no centro da cidade e foi logo afirmando:

- A senhora infringiu a lei.

- Eu sei. Você pode me dar aquela multa que chega pelo correio, com código de barras? Essa, escrita, eu não sei como pagar.

- A senhora não entendeu.

- Tanto entendi que já confessei.

Isso levou longos 20 minutos.

- A senhora não está se comunicando comigo... Preciso chamar meu superior.

Caiu-lhe a percepção como um raio: a senhora não quer se comunicar comigo tinha como tradução a senhora não quer me oferecer “a cerveja por fora”...

Ficou firme com o “superior” também.

- A senhora não está se comunicando comigo...

- O que devo fazer para que entendam que eu tanto concordei com a infração que a confessei de primeira? Que apenas pedi aquele tipo de multas com código de barras, que chega pelo correio por serem mais fáceis de pagar?

- Não adianta, vê? – um falava com o outro – ela não quer se comunicar com a gente.

Fiquei eu 30 minutos parada ali, na hora do rush, com justo a multa que eu não queria, na mão...

O que esses homens pensam que podem tirar de uma mulher, hein?

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “O que acontece no passado, fica no passado”

Gritos, portas batendo. Depois silêncio e lá longe uns soluços abafados de alguém. Nessa hora, se alguém falava, o que dizia era dito baixo, mas contundente. Era a hora mais perigosa. A hora da encruzilhada. Ou tudo se acalmava ou tudo se perdia.

Estes “pequenos incidentes” no quarto do lado a lembravam de muitas coisas passadas.

Dentro dela tinha um mar calmo que se agitava sempre que estas coisas aconteciam. Como quando era bem pequenina e os amigos a assustavam ao virar da esquina. Seu “mar” se agitava de repente com aquilo, mas também se acalmava fácil. Era só ver as caras alegres dos amigos e suas gargalhadas de “brincadeira parva que deu certo” que seu mar voltava a serenar.

Nas situações que não eram de brincadeira, acalmar seu “mar” era muito mais demorado. Viveu demasiadas situações destas: de gritos e portas que batiam, de maridos que se descontrolavam com as mulheres e os filhos, dos olhos de fúria dos maridos, dos olhos de medo das mulheres e crianças, de ameaças, de castigos, de censuras, de segredos, de dois pesos duas medidas, de medo, de perda, de estupro, de traição.

Acumulou um pouco de veneno de cada vez que uma situação destas acontecia. Ela não percebeu, mas acumulou. Deitada naquela cama de hospital durante anos, tetraplégica, tinha muito tempo para pensar e principalmente para recordar. Sua cabeça parecia uma panela cheia de pipocas abrindo. Cada hora uma recordação mais estranha aparecia. Aos poucos o veneno acumulado de tudo o que viveu começou a vir à tona. Aos poucos tudo fazia sentido e nada mais fazia sentido. Como se o mundo se tivesse desmoronado na sua cabeça. O seu puzzle construído de forma exemplar sobre a forma como o mundo funcionava, como eram as pessoas e como ela devia proceder, foi desabando. Ali, deitada para sempre, o tempo mudou de significado, o pensamento também. Os pontos de vista sobre as pessoas e o mundo foram girando, mudando, se transformando. Era engraçado, belo por vezes, mas também duro, difícil. Pequenos flashes surgiam de sua infância, adolescência, vida adulta. Os personagens que a acompanharam por toda a vida começaram a aparecer nos seus sonhos como se fossem modelos na passerelle. Olhavam-na desconfiados, preocupados com toda esta transformação no seu pensamento. Ela achava estranho esse medo de cada um porque afinal na vida real nenhum tinha medo de nada, nem mesmo de aceitar coisas erradas. Talvez em sonho ela os conseguisse ver realmente. Talvez estivesse a ficar louca. Dependia de todos eles, como podia pensar isso das pessoas que a cuidavam e que amava profundamente? Mas os sonhos insistiam, as recordações insistiam. Muito do que parecia ter lógica na sua vida, deixava de a ter. O ritmo que a sua vida tinha antes do acidente impedia este confronto com a realidade. Tetraplégica não tinha jeito, o corpo parado, a cabeça a mil, a vida e seus venenos, as suas dores e marcas do passado corriam para lhe contar, lhe lembrar, a enlouquecer. E de cada vez que se lembrava desses momentos infelizes, ao mesmo tempo aparecia uma imagem em que todos estavam de pás nas mãos tapando um buraco, atirando terra. Umas vezes todos ao mesmo tempo, outras vezes dois ou três, outras vezes apenas um. Uma ação permanente de “enterrar” o passado, de tapar a realidade com “paz e amor” – o nome que cada pá tinha. Ela destapando o buraco com as mãos e eles tapando com as pás. Duas mãos contra 20 pás. Como se o mundo lhe dissesse para ela parar de destapar as coisas cruéis da vida, como se as pessoas estivessem muito desiludidas com ela, mas ela não conseguia evitar algo que estava a acontecer para além da sua vontade. Os dois mundos – da vida real que conhecia até aquele momento e que se ia revelando agora, não batiam certo. Estavam em conflito na sua cabeça. Se perguntava constantemente porque ninguém nunca tinha feito nada já que todos sabiam de tudo. Como conseguiam seguir a vida sorrindo, curtindo, convivendo?

Aos sábados, vinha a pessoa que ela tinha visto atropelar um casal de velhinhos e fugido sem dar assistência – ela estava no carro quando isso aconteceu. Devia ter uns 3 anos. Os que vinham juntos todas as 3ª feiras eram os que a obrigaram a perder a virgindade com o vizinho com síndrome de down, tinha ela uns 11 anos – ainda sem ter “virado” mulher. Ninguém falava nesses assuntos. Nunca. A vida sempre rolou normal, em aniversários, eventos, almoços, jantares, chá, etc. Como se nada tivesse acontecido. E nas visitas ao hospital para a visitarem tudo permaneceu igual. Só ela que se ia sentido diferente e os via de forma diferente. Via tudo diferente. A vida, sem poesia, sem música, sem o calor do sol. Crua, fria, com cheiro de mofo, choco.

Nos outros dias tinha a visita da mãe. A mãe estava percebendo essa transformação nela e estava preocupada. Ela sabia que a mãe nada podia fazer. Se aceitasse confrontar as pessoas com o que fizeram, perderia todo o apoio emocional e financeiro que todos lhe davam. Não aguentaria. Aceitou o emprego que eles lhe deram, aceitou fazer parte desse mundo, não tinha espaço para o confronto. Então ela tentava seguir a farsa, acalmar seu “mar” sempre que as lembranças voltavam, sempre que as visitas chegavam. Aos poucos foi falando menos, conversado menos ainda. As visitas vinham e iam, nada se conversava. Era a forma que encontrou para sobreviver. E essa forma de sobreviver a foi matando.

Dizem que todos aceitaram facilmente ela deixar de falar. Dizem que quando ela morreu todos ficaram muito aliviados pelo fato dela não sofrer mais. Dizem que em frente ao hospital onde ela estava internada, todos os anos, no mês de agosto, acontecem as ondas maiores do mundo.

Ana Santos, professora, jornalista

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