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2 Contos de Julho


Conto “2 DE JULHO”

- Pra quê tanto candidato se bandeando pros lados de Salvador?

- 2 de julho é data política. E se prepare porque talvez seja a última vez que a gente vai tropeçar nessa gente toda junta, antes da eleição... Cada um com seu discurso e suas promessas...

O povo baiano sabia muito bem o significado de sobreviver à guerra; de se colocar à disposição da luta, mesmo que fosse armada, mesmo sabendo que muitos morreriam. O povo baiano sabia muito bem o significado de se sentir cativo e a importância de ser livre. Cada um de nós, brasileiros, se viesse em qualquer 2 de julho até Salvador, sentiria a emoção, o significado de lutar pelo que se acredita.

- Quem desses que vêm, ama o Brasil de verdade? Ando tão cansada de ver as mesmas caras, os mesmos sobrenomes, os mesmos discursos e o mesmo nada em atitudes, que até fico descompreendida, passada!

- Vá então pra rua e diga isso, minha mãe. O 2 de julho serve pra isso – pra lutar por aquilo que se acredita. Faça pior: vote com esse espírito de luta. Cada passo que se dá aqui na Lapinha tem um grito preso na garganta que esses políticos nunca vão poder calar porque é o nosso grito – o grito do povão. O 2 de julho não aconteceu como luta de ricos. Fomos todos nós, nossas avós e avôs que resolvemos a luta, que morremos e matamos.

Elas olhavam a subida da ladeira, as casas velhas e mal cuidadas pela Prefeitura. Afinal, a luta nunca havia cessado. Os pobres continuavam lutando por cada palmo de chão pra pisarem, enquanto os políticos continuavam sendo visitas sazonais que apareciam e sumiam, deixando um rastro... vazio de ações, afinal.

- A Bahia é a luta brasileira de todos os dias. Agora, como antes, eles acham que devem nos tutelar, nos matar de fome pra nos abrandar, mas quem tem orgulho, levanta a cabeça e sobe a ladeira lutando como se lutou em Cachoeira, como se lutou pelo meio da rua, pelo mar, até que momentaneamente os opressores fujam, como já fugiram antes. Sejam portugueses ou os aristocratas atuais, a luta pela igualdade nem vai à meio.

A energia da liberdade passava pelos carros, pela porta da padaria, pela praça, pela estátua de Maria Quitéria, pela Cabocla e o Caboclo, pelo amor que nos une no meio da rua, durante o dia em que o grito de guerra nos reaflora, boca afora.

O 2 de julho tem algo no ar, um orgulho que não é qualquer discurso, nem qualquer promessa vã que consegue calar. Não importa muito qual é a bandeira que cada um levanta, se o conceito a não perder é o de liberdade, democracia e união. Se não? Senão é guerra!

- Cada dia, um dia de luta, minha mãe.

- É... Cada dia uma agonia. Mas no 2 de julho, a gente grita: Com tiranos não combinam brasileiros corações – e afinal é só isso mesmo. Quem não tiver verdade dentro de si, que caia e nas mãos de Xangô, trazido por Exu. Aqui, é a ação do orixá, da cultura, da raiz que reina e o 2 de julho é... é o nosso dia, filha. É o dia em que o povo vai pra rua, guerreia e vira rei do Brasil.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Julho”

Um mês cheio de festas e celebrações. Muitas familiares e amigos nasceram neste mês. Aniversários quase dia sim, dia não. É, no hemisfério norte o verão puro. Calor, início de férias para alguns, final do período de trabalho para outros. Tempo de iniciar a praia sempre que se tem um tempinho livre, pele morena, sorrisos maiores, tempo de boa onda, boa vibe, convívio ao ar livre. No hemisfério sul, tempo de inverno rigoroso. Bem, a Bahia e toda a zona norte e nordeste do Brasil, apesar de inverno, parece que está no verão do hemisfério norte. E é aí, que junto mais uma data a esses festejos. Uma data diferente, mas muito importante – 2 de julho, o dia da independência do Brasil, na Bahia. Conheço pessoas que nasceram num dia e estão registradas noutro porque naquela época, ou o registro estava fechado, ou naquele dia não havia condições para ir a um registro demasiado longe de casa. De qualquer forma, é algo que está em paz para aquela pessoa e para seus familiares. Mas, neste caso não existe paz e talvez nunca exista. Uns “familiares” “registraram” no dia 7 de setembro de 1822 e outros “familiares”, talvez mais “próximos” registraram no dia 2 de julho de 1823. Como se tivesse saído a cabeça da criança no dia 7 de setembro, mas dessa mesma criança, saiu seu corpo completamente no dia 2 de julho. Por isso, para mim, sua data é dia 2 de julho. Para mim e para muitas pessoas, mas infelizmente as pessoas mais importantes nestas coisas de festejos não lidam com a situação da mesma maneira. Uns festejam num dia, outros festejam no outro. E aí já começo a não entender porque com os meus outros amigos, a gente festeja nas duas datas, mas todos sabem e todos aceitam a data principal e é nesse dia que todos estamos em força e intensamente mergulhados nos festejos. O Brasil poderia ter ficado sem a parte Bahia e não ficou...ou ficou? Estou confusa. Ouço histórias, versões, opiniões, mas “todos os caminhos parecem levar a Roma”. Só que nada muda, tudo se mantêm, todos os anos o mesmo pensamento, a mesma tristeza, o mesmo descuido, a mesma saia justa, o mesmo imbróglio de opiniões, de silêncios. Muito gostamos de complicar eu e os meus amigos. Quem sabe no próximo ano...quem sabe no próximo ano, continuamos a complicar...

Ana Santos, professora, jornalista

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