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2 Contos de Guerra


Conto “NOTÍCIAS DA GUERRA”

Levantou os olhos: teria mais pena dos ucranianos ou dos russos, ambos refugiados dos humores do poder? Andou pela loja vazia – a equipe de filmagem tinha acabado de sair e a expectativa de um bom programa lhe iluminava um pouco. Porém, como ser feliz no Brasil naquele momento? O que dizer dos homens para os homens? Como explica-los para eles? De onde vinha aquela violência, aquela falta de conversa, de argumentação, de razão?

Nem sabia dizer se os homens sempre tinham sido assim e a vida era mais diluída entre coisas que se faziam na rua ou se depois da pandemia, tudo ficou à descoberto, à mostra. O caráter humano afinal era isso? Seu resumo era aquele egoísmo que cabia numa folha de rosto de livro de terceira categoria? Mesmo?

A mulher que tinha interrompido a filmagem para ser vista, com certeza gravada saiu frustrada... o senhor que nem inferiu o trabalho que ela ia ter pra tentar não perder a gravação do programa... Tudo isso acontecendo e o Putin gemendo entredentes que quer bombas e sangue humano; tudo isso e o presidente fingindo que não sabia que ninguém o suportava mais e que a eleição seria a nossa oportunidade de vê-lo pelas costas e com um belo chute no traseiro. Ai, como ela o detestava com aquela boca espumante...

Passou uma criança na frente da loja e, antes que a mãe pudesse evitar, ela empurrou a porta e entrou.

- Aqui é fistito, é? Me empesta?

Ela levantou as sobrancelhas. Em meio a tantos pensamentos, tantas notícias, o amor a tinha achado na loja.

- Você gosta de vestido?

A mãe do menino entrou e ia começar a justificar. Ela logo a interrompeu:

- Não é que ele adivinhou certinho? Eu nunca penso em gênero quando crio uma roupa, sabia?

Ficaram amigas, claro. Só imbecis não reconhecem presentes. Mesmo em tempos de guerra.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Sem brinquedos”

E ali está ela, sentada na sua cama, olhando o futuro. É só isso que tem neste momento, uma cama, num espaço pequeno onde cabe uma espécie de banheiro e uma espécie de cozinha. Não sabe se chora, não sabe nada. A vida zerou total. Era para estar numa estância de férias de luxo com seu marido, companheiro, amigo de uma vida. Era para estar ali junto com o resto da família, como habitual, todos os anos, naquele mês. As festas, as bebidas, as comidas, o luxo, o descanso, a praia, a piscina, o que poucos têm acesso. O silêncio parece um zumbido nos seus ouvidos. Durante mais de 20 anos, naquele momento, estava noutro lugar, noutro mundo. E está ali, naquele silêncio, percebendo que os sons eram o rumo: os risos e a água, sinal que o povo estava na piscina, os risos e os aromas, sinal que estavam comendo. Ali, sem sons, sem cheiros, sem rumo. Sempre tinha a quem perguntar, com quem desabafar, companhia, lugar. Agora pergunta ao ar, ao silêncio, ao vazio, a si. Para onde ir, o que fazer, como fazer, o que aprender, o porquê de tudo aquilo? Lembra do que a avó lhe dizia sempre em menina: “quando morreres não vais poder levar nada disso contigo, para que é que queres tanto brinquedo? Só levas o que fizeres e o que sentires. Faz e sente netinha, faz, faz, faz, sente, sente, sente.” Continua sentada e seu corpo não se quer movimentar, mas ouve a buzina do uber. Perdeu tudo, todos “os brinquedos” e está na hora de recomeçar a fazer e sentir. Levanta-se. Está na hora. Vai ajudar o seu país, vai dar a sua contribuição, vai de encontro ao futuro que precisa ser melhor do que o presente. Para si e para o Brasil.

Ana Santos, professora, jornalista

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