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2 Contos de Fingimento


CONTO “O INCORRUPTÍVEL”

Lá estava ele – intrépido colosso! Nada parecia abalá-lo. Entrou na toca do leão e olhava as autoridades quase que com desprezo. Humildade não era com ele. Veio para vencer e venceria.


Ao olhá-lo, todos – absolutamente todos pensavam – “como consegue”? E lá estava ele: o Leão, o Tigre, a raposa preparada para comer os ovos todos. Seus olhos estavam olhando coisas imaginárias, era certo. As mãos... as mãos nem tanto. Eram mãos inquietas, daquelas que queriam estapear, mas se quedavam comportadas, apertando a caneta – talvez um pescoço imaginário.


Não fez nada, não sabe de nada, não viu nada. Incorruptível. A imagem da estátua impávida. Para si, parecia quase heroico. Mas...


Sem mas, pensou ele. Eu sou o intrépido colosso!

Mas alguém colocou diante do invencível, do incorruptível o espelho onde ele, ao invés de se ver, via o povo. Desgraça. Seu olhar tremeu, seu temperamento real, cruel, relampejou dentro de seus olhos. Ele disfarçou, olhou para outros lados, mas lá estava ele – o povo – dançando diante de seu pensamento, corrompendo sua alma de culpa, invadindo seu cansaço com aquelas imagens malditas de morte.


- Eu sou o intrépido colosso, eu sou o intrépido colosso – gemia de si para si.


Enfim, conseguiu concentrar-se na sala onde estava e viu tantos que, tal qual ele, esperavam sua chance de serem “intrépidos e colossais”. As horas passaram e o fantasma do povo foi insistentemente afastado. Tapas mentais. Postura. Concentração. Treino, logo existo.


Pegou seu carro, seu motorista, sua pose de impávido colosso e sentiu-se um campeão. Era o incorruptível, o intocável, o que não viu nada, não tocou em nada. Era o imaculado.


Mas do alto, lá estavam os olhos que o assombravam sempre. O alto da sua altivez não conseguia vencer aquele adversário. Ele fugiu e deixou atrás de si provas, gritos, lágrimas em abundância. E documentos. E testemunhas. E desprezo.


- O objetivo é o de descer a ladeira inteirinha, Deus afirma. Por cima do ombro, olha milhares de olhos – Cuidem disso, encerra.


O imaculado vai ver só.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto do “Inocente”

Era uma vez um ser inocente. Quando nasceu aprendeu que tudo era maravilhoso, lindo e perfeito. Que não existia nada de errado nem de mau. Que as pessoas eram todas maravilhosas, bondosas e amigas. Que as dificuldades da vida eram trabalhar para comprar uma casa, um carro, manter os seus 3 filhos, ter dinheiro para dar umas férias boas à família, tratar-se bem para poder viver saudável até, pelo menos, aos 90 anos, conseguir guardar dinheiro para a aposentadoria e para algum imprevisto. Esses eram apenas os problemas da vida. Essas eram as dificuldades de existir. Ser ou não capaz de executar tudo isso com extrema maestria. Ou, viver um pouco pior, com um pouco mais de dificuldade, com menos férias, com mais problemas de saúde pelos erros alimentares e de comportamento cometidos.


Um dia ouviu a primeira mentira. Depois dessa, ouviu muitas mais. O que o deixava sempre pensando era o fato do mentiroso estar sempre sorrindo e sempre cheio de vaidade, de ser uma pessoa rica ou muito rica, com poder ou com muito poder. Outra coisa que o deixava pensando era o fato do mentiroso não sentir pena nem preocupação por ninguém, nem pelas pessoas da sua própria família. Nem mesmo a morte de pessoas inocentes, morte cruel e terrível. Nem mesmo a fome, o sofrimento, a desgraça. Nem mesmo que as mentiras levavam a injustiças absurdas.


Além disso, estranho, estranho, o mentiroso tem mais amigos do que ele que faz tudo corretamente e de forma justa. Mais amigos ou mais protetores. Mais amigos ou mais mentirosos como ele. Os mentirosos têm mais oportunidades. O mentiroso vive feliz. Sorri sempre. Seus problemas são resolvidos num instante. Quando tem problemas, algo raro para ele. Sempre impecável, sempre feliz, sempre cheio de amigos, sempre na “crista da onda”.


O inocente dormiu pensando em tudo isto. Sonhou bastante, teve muitos pesadelos. Acordou. Acordou e quebrou. Como quase todos.


E o inocente viveu feliz para sempre, sendo mais um mentiroso.

Ana Santos, professora, jornalista

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