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2 Contos de "Adeus"


Ator Paulo Gustavo - Personagem D. Hermínia

Conto “INTERESSA OU NÃO INTERESSA?”


A TV estava ligada ao acaso como sempre. Os barulhos das vozes são amigáveis – pelo menos aqui em casa. Todo mundo fala que a TV não fala a verdade, mas eu olho ali aquelas pessoas e elas são minhas amigas. Eu vejo a cara delas todo santo dia, gente! Tem gente que me dá bom dia e eu finjo que não vejo, troco mesmo de canal porque não sinto ainda o Espírito Santo me cobrindo todo pra ter tanta piedade assim.


Tem gente que a gente tem muita intimidade porque a pessoa “é dada”. Passa por nós, mesmo pela TV e a gente tem certeza que o bom dia ta bem ali, te esperando pra ser dado, bem na ponta da língua. “Bom dia, Dona Hermínia, e aí? Aquele teu filho na vida real é bicha mesmo, né? Engraçado que na vida real tu é que é a bicha, que faz o papel da mãe da bicha quando é filme. Muito engraçado você... Cadê tua mãe? Ta pros lados de Niterói?


Quando a gente espantou tava todo “dado” também, amando a Dona Hermínia, cara... Como era mesmo o nome da Dona Hermínia? “Ô minha filha, como era mesmo o nome do cara que faz a Dona Hermínia”? Paulo. Paulo Gustavo.


Aí já não entendi nada porque primeiro a TV falava que essa doença do mal aí só pegava em gente velha e que bastava guardar os velhos que tava tudo bem. Aí depois avisaram que a zorra do vírus vinha colada na nossa roupa, é mole? Depois a TV também dava que era doença de rico que passou pra pobre. E aí, de repente, a TV não falava mais coisa com coisa, brother. Porque chegava um lá e dizia pra usar máscara e depois vinha outro dizendo que não precisava e que era pra tumultuar mesmo. Tome vacina e vire jacaré. Tem que tomar vacina! Que zorra é essa?

Dona Hermínia ta na Tv, no Natal! Ói lá: tem que usar máscara, ela falou isso! Cara, eu amo ela! O cara que faz ela, diz que é mesmo igualzinho na vida real, viu aí? Muito engraçado...


Que história é essa? Não, não, não... o cara é rico, não morre de COVID não... não deu na TV que a doença veio com os ricos e estacionou na vida do pobre? O cara tem grana pra comprar um hospital, cara.


Como assim, não deu? Não deu quer dizer que a gente perdeu ele pra essa praga de doença? Mesmo famoso assim? Não, não... o cara doava um monte de dinheiro que ninguém doa, cara. Abria o carteirão e mandava logo grana pra ajudar no Amazonas, na Irmã Dulce... ele tinha dinheiro pra pagar qualquer coisa.

...

Não adiantou nada, foi?

...

...

Eu fiquei olhando a TV, meus amigos que me dão bom dia, todo dia, ali dentro, cara... Quando isso acabar, não vai ser como no filme, que o mocinho levanta e segue a vida. Esse mocinho não levanta mais. A vida sem a Dona Hermínia vai ser bem mais apagada, cara... Mas não era pra isso ter acontecido com a gente e ser esse morticínio todo, não! Era pra ter vacina pra todo mundo!


O cara era rico e poderia ter comprado um caminhão de vacina, cara! Ah, o Governo não deixa porque ELE que tem que dar... Mas se TEM que dar, porque é mesmo que NÃO DEU?


Não era pra gente ter perdido a Dona Hermínia, cara... Porque pra ela ter morrido, não tem explicação nenhuma, daquelas que a TV me deu.

...

Nossa, o que é que eu posso fazer? Nem sei bem o que dizer... Meu coração partiu, cara... A bicha mais amada do Brasil, aquela que aparecia na TV sempre em 220, sempre na animação total. Foi por causa dela que eu comecei a conversar com as bicha aqui da rua, com certeza. Foi por causa dela que eu entendi que quem quer ser pai, é pai – não interessa se é casado com homem ou com mulher. Ela que falava isso: “NÃO INTERESSA!” - Tem um montão de filme que ela falava assim mesmo...


Mas Paulo, INTERESSA, SIM! Tu vai reto pro céu, tem muita gente lá agora que precisa do brilho que tu leva. Mas quem fica, cara... precisa tomar muita vergonha na cara também. E meu coração não seca de tristeza porque tem uma revolta que anima ele a voltar e seguir na caminhada.


Vai em paz pro céu. Vai ligeiro. Pra você, acho que não vai ter barreira nenhuma, não. E não se preocupa com as crianças que você deixou porque qualquer brasileiro meia boca vai saber te descrever pra eles. Tu era demais, cara. Vai ser fácil te descrever. Qualquer pessoa que te viu, vai saber contar quem foi essa bicha montada mais linda que existiu! E que homem bom tu era... Mais homem do que todos que podiam comprar vacina, ajudar a botar na cabeça da gente que tem que usar máscara, cara. Que tem que guardar distância mesmo, não interessa o que você tem vontade de fazer. Que tem que lavar a mão toda hora e cuidar. Não é dos velhos. Não é dos doentes. Tem que cuidar. De todos. Porque vendo que não vai ter mais filme, não vai ter mais programa contigo, nunca mais, eu vejo que a gente ta muito só nessa luta. Sozinhos. E mais tristes.


Mas é levantar a cabeça e olhar a Dona Hermínia. “NÃO INTERESSA!” - A gente vai em frente e vai rir na cara desses caras! Porque rir é resistência e a gente sabe resistir! Não é mesmo o que a gente mais faz no Brasil?


Te amo, cara. Você sempre vai ser 10. Sempre vai ser show. E seus meninos vão saber de tudo isso porque a gente vai contar.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Ator Paulo Gustavo - Personagem D. Hermínia

Conto “Sobre um amigo”


Tenho um amigo que anda sem riso, sem rumo, sem ar. Todos os dias durmo e todos os dias acordo tentando encontrar uma forma de o ajudar. Mas ele parece nem ouvir. Nos últimos anos tem se aproximado muito de más companhias. Pessoas que têm danificado a sua dignidade, destruído sua reputação, destruído sua construção de vida. Como esse meu amigo é forte e muito talentoso, ele aguenta tudo. Sofre, apanha, chora, cai...levanta e segue sempre. Fico impressionada como ele aguenta sem falar, sem mudar nada. Parece que nasceu para aguentar.


Ele não saberá o talento, a genialidade, suas capacidades, beleza, criatividade, valor que possuí? Eu lhe digo tantas vezes, os outros amigos lhe dizem tantas vezes. Mas ele parece não ouvir ou não acreditar quando é dito por nós. Será que é isso? Queria tanto conseguir que ele ouvisse, que ele acreditasse mais em si e no tanto que é capaz.


Sei, todos sabemos, que ele é forte, corajoso e destemido como muito poucos no mundo. Empreendedor, cativante, charmoso. Gentil, carinhoso, poético. Belo, gostoso, diverso. Único. Este meu amigo é único gente. Me deixa sem chão vê-lo assim. Estou muito triste...


Esta semana morreu um dos seus filhos. Um dos mais queridos. Nossa, ele ficou muito mais ferido. Despedaçado. No entanto, parece que este duríssimo acontecimento o fez confrontar-se com seu futuro, com suas possibilidades, seus desejos. Será que ele vai incorporar toda a ação necessária para finalmente ser feliz? Para finalmente se dar conta de quem são os verdadeiros amigos? De se cuidar e acreditar em si? De viver e fazer de si o que a vida deseja?


Escrevi hoje esta mensagem para ele, no Messenger. Quem sabe possa ajudar a despertar nele algo:


“Meu querido amigo, desejo tanto, tanto, que possas acreditar no teu valor e nas tuas capacidades grandiosas. Estou aqui para o que for necessário. Sempre. Sempre me cuidaste e sempre foste um enorme e querido amigo. Mereces todo o meu envolvimento, todo meu carinho, minha dedicação. Todo o meu amor. Sei que falo por todos os outros amigos. Que são muitos.


Acorda por favor. Desculpa esta ousadia mas não posso mais ficar calada te vendo sofrer e perder anos de vida, anos de tanta coisa que podia ser boa e que não está bem.


É isso, querido amigo Brasil. É isso que tenho para te dizer rápida e envergonhadamente. É duro ver-te neste estado e ver o caminho que pretendes fazer. É duro ver isso tudo e não poder fazer nada.


Acorda amigo, acorda.


Beijo enorme para toda a família. Quando puderes liga para a gente bater um papo. É sempre um encanto te ouvir, aprender contigo.


Não fiques triste pela mensagem. Entende que não posso te ver degradar, te ver acreditar em pessoas que não te respeitam e deixar acontecer. Mais um beijo carinhoso.”

Ana Santos, professora, jornalista

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