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2 Contos da vida louca do Brasil


Foto retirada do site Clima Info

Conto “MUNDO-HOSPÍCIO”

Ela tinha uma poltrona espetacular, em casa - daquelas de onde sai um lugar especial pra colocar as pernas. Quando queria ver alguma coisa mais detidamente, pensar em alguma coisa, era ali que ancorava suas costas – sempre um pouco moídas de tanto usar o computador.

Pois naquele dia, ela se preparou para pensar. E havia muito o que fazer nesse sentido! Afinal, seu País – o Brasil – parecia estar em surto. O presidente vigente havia desaparecido. Alguns diziam que ia fugir, outros que tinha uma bactéria, fungo ou algo assim na perna, outros que tinha dor na barriga. O fato é que depois da eleição, ele - o perdedor - desapareceu, sumiu escafedeu-se. Grave, isso! Terrível! O País estava sem líder! Mas o mercado, os investidores, nem ligaram. O dólar não ficou nem mais quente, nem mais frio. Nada.

- Pois tome essa: O Ministério da saúde não comprou a vacina de segunda geração de Covid e a peste da doença estava crescendo. Pânico! Medo! O mercado? Nadica de nada!

O presidente eleito, mas não empossado, pegou carona no avião de um empresário e afirmou que o Brasil precisa dar comida aos famintos.

- Meu Deus! Pensem no caos! Empresários, banqueiros, investidores – todos desesperados! Bolsa caiu, dólar subiu. Turbulência no cenário!

O presidente eleito pode fazer alguma coisa, além de falar? Não. Na verdade, nada.

O presidente da vida real está vivo e não quer ou não pode trabalhar? Isso mesmo.

- E o mercado reage com quem não pode fazer nada ainda e nem liga para o que tem mês e meio de mando? Estranho...

Ela esticou o lugar para as pernas em sua cadeira maravilhosa. Era um mistério aquilo. Quem poderia fazer alguma coisa, não queria/podia fazer nada; quem não pode fazer nada além de falar, parece causar terremotos por qualquer motivo.

- Qual a lógica dos investidores, afinal? Medo de não receberem seus juros bilionários, mesmo que as pessoas desapareçam de fome? Mas quem disse que não se ia pagar nada? Quem falou a palavra calote?

Abriu os olhos – a chuva mansa que caía era um alívio naquele meio de primavera sufocante. O que ela via na TV era que todos deveriam investir. Não ter miseráveis perambulando pelas ruas da cidade não era um ótimo investimento? Menos ladrões, mais alunos, menos doentes?

- Tsc, Tsc, Tsc... de alguma maneira louca e inalcançável, sem dizer que ia dar calote, mas exigindo uma ação, um movimento contra a miséria, o presidente eleito para restabelecer a democracia perdida, que voltou a fazer o mundo nos ouvir com respeito, que pediu e cobrou a mesma generosidade do mundo inteiro - abalava os mercados. Putin era menos ameaçador quando ameaçava começar uma guerra atômica... a Polônia causou menos danos ao mercado quando foi bombardeada...

O presidente real, desaparecido de vez, tragado pelo Palácio, nem arrepiou o mercado. Já os pobres...

- Vai entender...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “ O Brasil e a Melancia”

Ana ama melancia mas nem sempre foi assim. Toda a gente falava na melancia e nas suas propriedades nutritivas, no enorme suco e enorme e doçura. No verão ela via melancia por toda a parte. Começou a achar que era ela que não gostava, que ela era o problema. Se diziam que era um fruto incrivelmente doce e de cada vez que comia, não era doce, o problema estava na sua boca. Sempre que via se aproximar uma travessa de melancia, não queria. No lanche todos ficavam felizes e ela fugia. Não, essa coisa não de novo. Que loucura! Será que ela não é normal? Como todos amam, todos comem e todos se lambuzam? E como ela come e só sente a boca cheia de água sem uma ponta de açúcar?

Houve um período que não só não queria comer como até sentia uma certa aversão. Era muito barato comprar e houve um tempo que até a terra de sua casa dava. Por amor de Deus! Nesse período do ano entrava na cozinha sempre com medo de ver melancia na geladeira, no armário, de o seu lanche ser melancia, de todos fazerem muitos ruídos de felicidade quando iam comer essa maravilha, menos para ela. Mas que raio de situação...como todos amam aquilo e ela não?

Um dia não deu para fugir, teve de ficar a assistir a descascarem uma enorme melancia para o lanche do pessoal todo. Socorro! Pensou que ia ser um horror, mas foi interessante ouvir o barulho da casca rachar, ver o contraste entre o verde, muito verde, o vermelho muito vermelho e aqueles pontos pretos, muito pretos e brilhantes. E, principalmente, ter direito a conhecer a verdadeira melancia. Finalmente! Na operação descascar, todos tiveram direito a um quadrado de melancia da melhor parte – o coração, o centro. O que era aquilo? Que doçura, que sabor, que alegria, que cacofonia. E mais um quadrado e mais outro e ali, no descascar, a parte rainha da melancia desapareceu para as suas barriguinhas. Por isso sempre tanto povo ali naquele momento... Também ali, naquele dia, entendeu que perto da casca a melancia é menos doce e a doçura vai aumentando na direção do coração. Será possível que até aquele dia ela comeu apenas melancia perto da casca? Gente...

Engraçado como a vida é. De repente se deu conta que a sua relação com o Brasil parece ter começado da mesma forma, vendo todos se deliciando e ela sentindo falta de doçura. Bastantes anos de Brasil perto da casca. Sem entender, sem fazer sentido, sem saber a razão. Como a melancia, talvez estivesse a comer apenas a parte que ninguém quer, que todos fogem. A parte destinada aos que não fazem...PARTE. Como se muda isso? Convida todos para assistirem ao “descascar” da “melancia” como sucedeu com ela? Luta para fazer PARTE dos que descascam e têm a oportunidade de comer o coração todo e depois distribuir o resto? Tenta sair da zona da casca para a zona do coração e se sentir vitoriosa? É isso viver? Porque não podemos ter todos um quadrado do coração da melancia e uma parte da zona das sementes e outra próxima da casca? Tudo parece depender da forma como se descasca e distribui a melancia...

Ana Santos, professora, jornalista

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