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2 Contos da Guerra


CONTOS DE GUERRA URBANA

Envelheci naquele lugar. Vi casas e bairros crescerem, vi o comércio se alastrar por vilas tão pequenas que poderiam ser confundidas com aldeias, com favelas. Desde sempre me acostumei a rezar à Deus por causa das chuvas, do frio, do calor, das pessoas que perdiam suas casas, de refugiados/flagelados urbanos, fugitivos de seus destinos. Mas me acostumei a orar pelos outros, para os outros.


Ao me ver no caminho deserto da fuga, me lembrei de países que lutam com bandidos, traficantes e milicianos; lembrei também das velhas que, como eu, no fim de sua vida, queriam e mereciam apenas o seu lugar resguardado de balas traçantes, outras perdidas e bombas, numa guerra que todos veem, mas fingem não existir, enquanto bombas do outro lado do mundo apontam para maternidades e crianças mortas com a mesma covardia que vemos aqui.


O que temos em comum é que milhares de mortos são vistos como estatística, quando deveriam ser escândalos, julgamentos, prisões, nossas mãos na consciência, debate ininterrupto com os políticos, limites éticos visíveis, voto racional de acordo com a honestidade e competência e não por influência religiosa, financeira, etc.


Levantei os olhos para a rua totalmente destruída e cheia de lama, com carros empilhados como se fossem brinquedos velhos. O que estava acontecendo às pessoas, afinal? Como pode parecer normal ver corpos empilhados o dia inteiro na TV, se atolar na lama de uma cidade destruída e ver a Big Brother que saiu, desprezar tudo isso para falar de suas qualidades pessoais na entrevista, quando todos viram seus planos desonestos, seu bullying, sua agressividade? Ela viu que o mundo está em guerra? Que os ucranianos estão sendo massacrados, enquanto os russos estão perdendo o respeito e a qualificação do mundo por causa de um homem apenas? Que o nosso presidente vai invadir e destruir a Amazônia, se todos continuarem olhando hipnotizados para o BBB? Ela viu que os políticos estão invisíveis e que o Brasil continua totalmente abandonado?


Mais um dia de desolação, então. Tinha perdido até sua bicicleta. A água levou não se sabe pra onde. Pelo menos sua vida estava salva. Por enquanto. Mas não lhe saía da cabeça a velha ucraniana que queria apenas acabar seu resto de vida no mesmo lugar em que viveu e que por causa do Putin foi para onde não queria, viver uma vida que não era mais a sua. Uma velha que não tinha mais onde morrer sossegada. Deus nos proteja, meu Deus, meu Deus...


- Igual a nós, aqui. Todo mundo no Brasil se engana porque não é guerra declarada. É guerra. E enquanto ela passa despercebida, a morte se espalha, o medo, o espanto, a rotina de sustos, a hipocrisia, a miséria. Uma lástima. Será que só os velhos percebem que existe uma coisa muito errada pelo mundo e que precisa ser revista e consertada? Qualquer dia seremos nós que vamos empunhar nossos cabos de vassoura pra varrer os PMs violentos da nossa porta, antes que eles nos matem e criem uma cena de crime nova, já que traficante e miliciano fazem parte de uma triste rotina que temos que ver (só que não), para podermos abandonar. Chega de falar em arminha, gente. É pistola, tiro, fuzil de verdade, metralhadora, gente morta espalhada na rua, lama caindo do morro, nada de esgoto, nada de escoamento, nada de casa decente, nada de comida e todo mundo finge que não vê!


- Viva o protesto dos velhos da Ucrânia! Viva nós, por aqui também.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Voltas trocadas”

Mais um dia de “ginástica mental” para pagar as contas. Foi à padaria. Ao entrar e ao sair encontra sempre um senhor que já virou amigo. Um homem de uma enorme envergadura, que antes da pandemia vivia do dinheiro de estacionar carros para concertos e espetáculos próximos dali. Ana via como ele ganhava bem e viu como ficou sem nada durante a pandemia. Nenhum espetáculo nas redondezas, nenhum carro para estacionar. Agora parece estar a recuperar mas ainda é pouco. Foi ao banco pagar a primeira parte do imposto do carro. Adora ir ali. Aquela agência tem umas pessoas tão queridas, tão sensacionais que ela se sente em casa, porque a fazem sentir-se cuidada, protegida, como se fosse da família. A rua da agência bancária, é uma rua turística o que quer dizer que tem mais pessoas roubando, pedindo. Tem sempre de ir sem celular e com uma roupa bem descontraída para não chamar a atenção de ninguém. Ana não tem muito para dar, mas com seu ar diferente sempre ficam com a sensação que é turista rica e isso traz muitos problemas. Foi à farmácia. Tem sempre umas pessoas pedindo na porta, pedindo e insistindo, insistindo. Ana tem de dizer com carinho que não tem como ajudar, que também ela, apesar de parecer em melhores condições, está em dificuldades. Mas fala baixinho para que as pessoas ricas que vão à farmácia não a ouçam. Tem vergonha e tem medo de ser discriminada, como os que estão na porta. Vai ao mercado. Compra o estritamente necessário. Consegue pagar as contas, consegue comer, tem um lugar para dormir, tem plano de saúde. Estas idas ao mercado foram-se tornando torturas pelas dificuldades cada vez maiores em comprar o que precisa, mas principalmente pelas pessoas que circulam no mercado pedindo - pedindo escondido, pedindo baixinho, pedindo com os olhos. Ela olha, diz que não tem como ajudar, mas parece mentira quando essas pessoas olham para ela não vêm uma pessoa em dificuldades. Ela quer ajudar, sempre ajudou, mas agora não pode ajudar, não consegue. Começa a ficar sufocada com os olhares das pessoas olhando a toda a hora. Nem compra tudo o que precisa. Paga e vai embora. Sabe perfeitamente que não consegue ajudar mas sente-se um lixo por não o fazer. Ao mesmo tempo se sente feliz por ter de novo comida em casa. Quando sai do mercado, vê na calçada, famílias sentadas no chão, rapando latas, caixas, sacos com restos de comida. Seus olhos começam a ficar molhados. Na sua vida passada sempre dava uma ajuda a estas pessoas mas agora não tem como ajudar, nem com dinheiro, nem com comida. Então como pode ajudar? Porque isso não pode existir. E a água nos olhos aumenta quando pensa em mais de 4 milhões de pessoas tendo de mudar subitamente de casa. Meu Deus! Como conseguem? Ela já sente tantas dificuldades num lugar quente e sem guerra, como será esse horror? Esse medo, esse frio, esse abandono, a fome, a sede, o perigo, a insegurança, a incerteza? Limpa as últimas lágrimas quando chega em casa, arruma a comida nos armários e sente uma sensação de paz, de sossego, de bem estar profundas, misturada com muita culpa. Novamente a sua casa tem comida por mais algum tempo e isso é um milagre e uma benção. São tantas as dificuldades, como é possível sobreviver como as pessoas que vivem na rua? Como as que encontra no mercado pedindo? E como sobrevivem 4 milhões de pessoas, que de repente têm de sair do lugar onde viveram toda a vida?


Ana julgava que o seu futuro era mais previsível, mas se enganou profundamente. Professora universitária há tantos anos, tinha um salário alto dando aulas numa faculdade famosa da cidade. Uma vida perfeita, organizada. Trabalhou muito para isso. A faculdade antes da pandemia começou a atrasar os pagamentos do nada, mas com a pandemia, foi o caos. Passou a pandemia sem dinheiro, trabalhando todos os dias, aguardando que a crise terminasse. Mas não terminou, agravou. Não deixava de trabalhar para manter o emprego, mas sem ganhar dinheiro a vida foi ficando desesperadora, vazia, inundada de contas e despesas. Teve de recorrer às suas economias mas resta pouco dinheiro. A pequena diferença com as pessoas que encontra pela rua e pelo mercado pedindo é que ainda engana com suas roupas de qualidade e seu status, já que todos pela cidade sabem que é professora universitária. Mas isso vai terminar em breve porque mais tarde ou mais cedo todos saberão a verdade.


Queria tanto ajudar, mas ela também precisa de ajuda. Como se faz, como se vive assim, vendo a necessidade das pessoas e tendo tanta necessidade? Pensa em soluções mas não é fácil. A vida trocou-lhe as voltas e trocou-lhe as esperanças. Não sabe fazer mais nada para além de dar aquelas aulas que sempre deu. Errou feio em não querer aprender outras coisas. Errou feio.

Ana Santos, professora, jornalista

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