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2 Contos: “6X1 UMA OVA” e “Quero-Quero”


Conto “6X1 UMA OVA”

              Vivia olhando para as coisas que queria, mesmo quando não podia comprá-las. Não era sempre por falta de dinheiro, não – muitas vezes, faltava tempo. Aquela escolha difícil entre faxina, compras, fazer almoço em casa, ver os deveres das crianças ou simplesmente não fazer nada e ficar com a família – só ficar com a família, corta – não dava pra deixar a casa e a escola dos meninos abandonadas, nem que fosse em um final de semana. Por causa disso mesmo ficou espantada quando viu o deputado federal na internet dizendo que o brasileiro trabalhava menos que os outros povos – como assim, menos?

              - Quanto dias trabalha mesmo um deputado?

              Foi ao Google. Todas as manchetes apontavam 3 dias por semana – o deputado trabalhava 3 e ela 6? Havia quem ousasse ser contra mudar a escala 6x1 pra 5X2? Como? Por quê?

              Onde isso atrapalharia o Brasil? Como priorizar pegar uma pizza de tarde, em casa, podia dar prejuízo, se ela finalmente ia conseguir comprar um lanche pra ela e os meninos comerem juntos?

              Aí, ela parou pra pensar que tinha político que não gostava nada de eleitor... que era largar o povo de lado, escanteá-lo mesmo.

- A gente paga o salário de todo mundo e tem que ver, tem que assistir esses políticos continuarem a não pensar no esforço que nós fazemos pra arrumar dinheiro e pagar seus salários de luxo.

              - É aviãozinho pra frente e pra trás, é acordo pra tirar imposto de tudo o que é de rico, mas acabar com essa escala 6x1 nem entra em votação!

              Reparou uma coisa muito irritante: só os muito milionários, cheios de funcionários, não queriam que a gente trabalhasse um pouco menos. Todo mundo parecia entender, menos eles! E eles influenciavam os deputados, que nos enrolavam o tempo inteiro e também passavam abaixo-assinados, pagavam um monte de propagandas na internet. E isso – que confusão, meu Deus – enrolava quem nunca tinha sido rico na vida.

              - O que é que tem, perder ou compensar um dia de serviço da sua empregada, moço? A casa não vai cair, ela deixa a comida pronta, a gente congela e pronto! Tanta coisa acontecendo e esse pessoal resolve “ser canguinha” com isso? Tenha santa paciência...

 

              Seu chefe era um desses. Achava que ter carro era ser rico.

              - Olhe seu carro e o carro do dono da rede de lojas, chefe... Isso se você, um dia, viu esse homem na sua frente. Observe. Viu aquela estrelinha na frente do carro? Significa Mercedes. O dono da cadeia de lojas chegou aqui, aquele único dia em que a gente viu a cara dele com esse carro. Eu dei um Google vi o preço. Não se espante: É bem mais que a sua casa. Não se assuste: É bem mais que a minha casa e a sua juntas! É um carro de mais de 500 mil reais! Então deixe de onda, que o seu carro não move motor nenhum. Você é apenas um pouco menos pobre do que eu!

              E assim, de grão em grão, encheu o papo. Começou um movimento que envolveu os funcionários da rede de lojas do patrão, pressionando os deputados pra votarem pra acabar com a escala 6x1. Fez uma chuva de e-mails, outra chuva de zaps e mais uma de telefonemas. Descobriu o gabinete da deputada que abraçou e lançou o projeto. Ficaram amigas. E venceram a votação!

              - Ninguém ”trisca” na minha deputada Erika! Quero uma igualzinha pra eu poder votar, mas aqui na Bahia!

              Se envolveu na política. Virou vereadora. Aliás, foi dela a lei que criou um departamento onde a gente reclama daquele “ente privado”, que diz que vai fazer uma coisa e não faz - ou faz outra coisa completamente diferente. Ficou conhecida como “6x1 uma Ova”. Foi seu começo, na carreira política. E um dia também fez história em Brasília, saída de Salvador da Bahia!

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Quero-Quero”

Não sou muito de praias cheias, nunca fui. Em jovem frequentava praias com enorme areal, em que mesmo se tivesse muita gente, existia também imenso espaço para todos. Era muito legal. Como onde eu vivia tinha muito vento frio, mesmo no verão, as famílias levavam sempre seu “paravento”. Aprendi a saber onde estava a minha família pelas cores e estilo do nosso “paravento” – uma armação metálica com pano, espetada na areia, para impedir que vento e areia incomodassem.

Lembro de caminharmos por horas, muitas vezes sem nos cruzarmos com ninguém. Como eu amava aquilo...

Em adulta jovem passava uns tempos com amigos e íamos a praias de grandes cidades. Todas praias cheias, atoladas de gente – verdadeiras multidões. Meu Deus! Eu nunca tinha visto nada assim. Não conseguia ver a areia porque tinha gente, ou toalha de praia, ou sacola, em todos os cantos. Não conseguia relaxar, não dava para deitar, era assustador. Eu tentava ter mais espaço indo para a água, mas era igual. Detestava, enquanto toda a gente curtia. Não entendia por que não se sentiam incomodados por estarem tão juntos de pessoas que nem conheciam, por não conseguirem esticar os braços sequer. Me parecia tudo a monte, sentia imensas saudades da minha praia, enorme, plena de espaço.

A vida me trouxe para Salvador, Bahia. Praias por todo o lado. Uma alegria. Bom, mais ou menos. Uma alegria até perceber que algumas praias são iguais na lotação, adicionando um hábito que eu desconhecia até agora – o de comer e beber o tempo todo na praia. Imagine as praias lotadas, povo bebendo, comendo, namorando, bem do seu ladinho, debaixo de um calor sufocante. Isto que eu descrevi é o sonho de consumo de um baiano e eu entendo já que aprenderam assim. Tudo certo, mas eu sou da praia grande, com distância, para correr, jogar raquete, jogar futebol, voleibol, tomar banho gelado, correr para a toalha para secar e aquecer, ler um bom livro enquanto eventualmente trincava uma maçã. Meu sonho de consumo.

Quando posso, procuro praias afastadas da cidade e aí encontro meu sonho de consumo – praias desertas, lindas, sem ninguém ou com gente que procura o mesmo – sossego, caminhar, dar uns mergulhos, curtir a natureza. Mas a gente encontra-se de 10 em 10 minutos, não estamos uns em cima dos outros. Os pescadores mergulham ou atiram suas redes, lá bem longe. A maré umas vezes está cheia outras vezes está enchendo. São outros ritmos, sem estresse. Tem muitos momentos sem ninguém. Ninguém. Bom, sem ninguém, mais ou menos. Tem uma multidão que surge quando nenhum humano está presente mas também não se atrapalham nem se incomodam com uma pessoa ou duas, de vez em quando, passando do lado. A areia tem de vez em quando uns altinhos – são as pulgas da areia que se escondem, brincando com a água. Os siris ficam olhando a gente, à porta de casa, e quando nos aproximamos mais um pouco, entram rapidamente numa gruta que eu adoraria conhecer porque eles entram para ali muito animados. Mas mais do que isso, a multidão se completa com os gaviões, as garças, trinta-réis, gaivotas, maçaricos, quero-quero e urubus-de-cabeça-preta. Eles também comem o tempo todo, mas não fazem lixo, não bebem álcool, não se maltratam, não discutem. São silenciosos, uns caminham em grupo outros mais individuais. São o máximo!

Quando for grande quero ser garça, gavião ou “Quero-Quero”.

Ai se quero!!!!

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: retirada neste site


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