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2 Contos 2022


Fotografia de Ana Santos

“CALENDÁRIO”

O vendedor de gás lhe passou um ímã com calendário – no caso de precisar comprar um botijão. Meio desanimada com o preço exorbitante, ela ficou ali olhando para as 12 folhinhas de papel, uma para cada mês de 2022, e achou ali uma esperança. Talvez alguns aborrecimentos ainda teimassem em ficar, já que – pra variar – ela olhava para o líder do governo e não conseguia sequer manter o olhar. Como uma única pessoa conseguia ser tão desprezível? Era como a fábula do carro atolado, pensava. Não basta atolar o carro, não basta ter que empurrar. A gente tem que aturar a maldita mosca, que acha que está abafando ao voar ao nosso redor, atrapalhando, dando nojo, pousando nos nossos braços, dando rasantes e fazendo aquele barulhinho asqueroso próxima aos nossos ouvidos.


Folheou o calendário. O ano que acabava tinha tantas histórias que ela esperava deixar pra trás... Tinham entrado em luta contra o COVID e se não fossem os ignorantes e os gananciosos, já poderiam talvez ter se livrado dele. Como sobram ignorantes e gananciosos, de variante em variante, ninguém sabia ao certo quando seria o “quando”. Uma coisa era certa. Os “mocinhos” usariam máscara, ela tinha certeza.


Muitos homens mataram, muitos outros morreram. O fato é que, num mundo sem comida, de uma maneira espantosa e trágica, muitos preferiam ter armas a comida. O machismo, aliás, ainda tinha garras espalhadas que precisavam ser cortadas e ela sorriu de leve, nesse ponto. Desaforo pra casa ela não levava. Controlava o gênio, mas a resposta vinha. Mas os homens, quando começam a chamar de “tia”, significa que entendem finalmente que precisam respeitar a mulher. Ela não realizava em sua cabeça porque isso tinha que ter relação com a idade de cada uma, mas afinal se sentia feliz e livre das malícias, das mãos bobas e ofensas travestidas de cantadas. “Bullying, isso sim” – ela encerrou aquele assunto e pronto.


Será que ela conseguiria um desconto no botijão?


Que espécie de país produz seu próprio petróleo pra vender como se não produzisse nada? - ela pensava. O meu. Aqui, nem na fábula mais mal contada, nem no conto do vigário! A coisa do gás tinha que ser resolvida logo porque o botijão precisava ser reposto.


Ano novo, com gás velho... fazer o quê? Folheava o calendário de 2022 de frente pra trás e de trás pra frente. Ela tinha tentado ajudar, entender, preencher, alegrar, debater. Reencontrou sua amiga Teresa, viu Ana fazer as mesmas coisas. Gostava de construir coisas com ela. Mas viu que o egoísmo morava em muitas pessoas e que dia após dia, seu trabalho deveria apontar na direção dos caminhos abertos, não das “quebradas estranhas”.


110 reais um botijão, gente... que coisa... parece até mentira esse preço...


Coisas apareceriam, em 2022. Até os 110 do botijão, ela planejava. Queria ensinar seu afilhado a dirigir, queria que nascessem maracujás no pé e que o manjericão parasse de dar praga. Queria uma muda de rosa branca, um coração aberto, uma vida pacificada e muito trabalho. Queria fazer o bem, com o seu trabalho. Queria luz, saúde. Queria um ano novo!

Folheou o calendário pra lá e pra cá. Tinham acontecido coisas meio baixo astral, mas ela conseguiu se manter saudável e só por nascer e ter saúde ela agradecia e muito. Havia tanto a agradecer sempre...


Fungou, lembrou de suas irmãs que não via há tempos, pensou mais um pouco na vida e levou o calendário pra dentro de casa. Ano que vem ela certamente iria resolver o gás.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


“12 desejos”

Ana olha para as 12 uvas passas na sua mão. Na verdade não são uvas passas, são sultanas. Na outra mão também não é champanhe, é espumante. Mais um ano diferente. No lugar onde vive nem se fala muito dessas diferenças. Nem se fala neste hábito de passar a meia noite de 31 de dezembro e comer 12 uvas, uma de cada vez, fazendo um pedido ao universo, ao mastigar cada uma. 12 pedidos, 12 desejos, 12 necessidades, 12 desesperos, 12 sonhos. São outras formas, outros jeitos. E está tudo bem.


Lembra das passagens de ano anteriores, com ternura. Holanda, familiares e simples. Após a meia-noite, naquele frio profundo, todos saíam para fora das casas e desejavam bom ano aos vizinhos. Espanha, vividas na rua, onde, final de anos 80, já eram visíveis famílias inteiras a viver nas calçadas e as sirenes dos policiais dando indicação que a festa já virou confusão. França, os sorrisos, a alegria e os abraços dos parisienses com o desejo de bom ano que lhe ficou gravado para sempre – “bonne anée”, “bonne anée”. Portugal, em família ou com amigos, na rua ou em casa, teve de tudo e lá estavam as “12” sempre.


Talvez o mundo não seja só a Europa e ela nunca tenha se dado conta, até passar a viver noutro continente. Talvez se viva bem sem uvas passas no ano novo. Talvez isso nem tenha tanto interesse, afinal. Os desejos, ela pode pedir sem elas.


Ana olha as uvas, olha para si, olha em sua volta e o mundo pesa. O futuro sempre permaneceu um mistério e sempre existiram pedidos que sabe serem impossíveis. Existe o Planeta Terra, onde ela vive, que chora, que grita, que pede ajuda e ninguém o ouve. Curioso...as pessoas não se ouvem umas às outras como elas conseguiriam ouvir o Planeta? Uma uva passa pedindo que as pessoas se ouçam, se cuidem, se preocupem com os outros. Outra uva pelo Planeta. Teoria, encontros, congressos, etc já não dá. Temos pressa. O mundo está desabando. Precisamos de ações práticas. E rápidas.


A vida não tem sido fácil para ela nos últimos anos, mas felizmente está viva. Muitas pessoas morreram. Muitas. Demasiadas. Uma uva para todos os que morreram e o desejo que, “lá onde estão”, estejam bem. E tantas e tantas pessoas que perderam tanto! E tantas que perderam tudo! Como elas olham o futuro? Como se faz isso? E o que interessa se têm 12 uvas passas? Mais uma uva que ela mastiga agradecendo por ter teto, cama, dinheiro para pagar as contas, comida, um corpo que é útil e funcional, uvas passas no ano novo. Outra uva vem logo de seguida e é de pedido para que as pessoas que perderam tudo, que possam ter saúde e serenidade para gerir essa pancada da vida, primeiro. E que, em cada dia que segue, com a ajuda que os que podem e se preocupam, estão dando, possam ter a sua alegria de viver, a sua vida recuperadas e o presente e o futuro possam ser preparados de novo.


A sexta e a sétima uvas, Ana mastiga saborosamente com desejos para a sua família. Desejos pacatos, serenos, quase pedidos.


Mais uma uva, a oitava. Um desejo enorme de que os portugueses e os brasileiros se tratem bem. Se respeitem. Se compreendam. Se aceitem. E somem em vez de dividirem. Não pensa no que é visível, mas no que acontece quando ninguém vê. De ambos os lados. Têm tanto a aprender uns com os outros...


A nona uva vai para o desejo de o mundo ser menos preconceituoso. Tantas pessoas que falam que não são preconceituosas, mas na prática nem percebem que são e muito. Ana sabe bem que todos são, incluindo ela e todos têm de fazer esse trabalho diário. Ninguém manda na vida. Muito menos na vida dos outros. Ninguém é perfeito mas isso não significa que a “obra terminou”. Sempre tem solução.


Na décima uva, Ana respirou fundo e pediu: “por favor universo, coloca presidentes no Brasil, a partir de 2022, que se preocupem com as pessoas, com sua saúde, seu bem estar. Que sejam honestos, que gostem de trabalhar e de fazer o bem. Que sejam capazes de cumprir as suas funções. Que não tenham desejo de enriquecer.


Aproveitou o fôlego e seguiu para a décima primeira uva, pedindo que Portugal decida impedir o aumento da corrupção no país e que mande em si próprio. Visto de fora, parece por vezes uma estância de férias de poderosos e gananciosos.


E a última, na palma da mão, olha para a Ana. E Ana olha para ela. Inicialmente as uvas parecem tantas e depois são tão poucas para os desejos todos.


Uva, uva, uva. Ana olha-a com ternura. Coloca-a na boca. Mastiga lentamente e deseja que seu filho continue com saúde, com vida, com energia. Que continue a aprender coisas novas. Que não tenha medo do futuro e dos momentos difíceis que vai ter no seu percurso. Que ela possa estar sempre por perto e que, quando não estiver por perto, ele já saiba bem o que fazer. Que viva muito e que seja livre de todas as amarras, censuras, condicionamentos.


Ana terminou. Está em paz apesar do coração estar ferido. Bebe um pouco de espumante. Aguarda 2022 com tranquilidade porque não adianta ficar tensa nem nervosa. O que virá, virá e logo se vê. Precisa estar preparada para mais um ano. Por que o momento do universo é duro e ela quer ser capaz de o enfrentar.

Ana Santos, professora, jornalista

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