A Casa dos Budas Ditosos (Teatro Castro Alves em Salvador, 2026)

Eu amo - AMO! - peças onde a ação verbal nos conduzem pela nossa imaginação. É como pegar a nossa "criancinha mental" pela mão e levá-la pelo labirinto do que ela vê, ao ouvir o ator - a atriz - que atriz! - Fernanda Torres! - narrando a peça.
A primeira coisa: os políticos deveriam cair duros e com espasmos, ao ouvirem o que significa narrar - e não aquilo o que eles chamam "narrativa", atualmente.
Segunda coisa: Quem domina a respiração, faz o tempo da ação ficar em suas mãos e Fernandinha - é grande = enorme - em cena - e sem se mexer.
Terceira coisa: A plateia baiana tem peculiaridades estranhas, como o desespero que a leva a rir - tantas vezes espasmodicamente e em momentos estranhos. Poucos atores conseguem a sutileza das falas e principalmente das pausas para controlar a "ênfase baiana" pela risada louca e muitas, muitas vezes - fora de hora.
Fernanda foi cirúrgica a peça inteira. Dominou mais de 1.500 pessoas com olhares, esgares, silêncios, suspiros. Dominou a plateia - ponto. Mais do que isso: a colocou no bolso! Atrás de mim havia uma moça que precisava de uma pequena fresta para rir descontroladamente. Não houve fresta. Houve dicção, articulação, prosódia, entonação, interpretação e tudo aquilo que a Escola de Teatro daqui tem se esmerado em colocar de lado.
O que separa um grande ator, de um ator? Esse domínio. Porque o texto é longo, a imobilidade é absurda, Fernanda não dá um único passo por 2 horas, o espaço do palco do TCA é gigante e manter os olhos do público focados em uma única mesa por tanto tempo é... insano.
Uma pena que aqui, como há em Portugal, não haja bilhetes populares porque ver Fernanda Torres em cena ensina mais do que semestres de aulas de teatro.
E um texto que tinha tudo para se tornar perigosamente próximo da busca da gargalhada fácil, fluiu, apontou nuances, regionalismos, contou casos, circulou pela nossa dificuldade social em falar de sexo com todas as palavras ditas - mas sem grosserias, sem baixarias, sem gritos urros e sussurros.
O teatro hoje se viu ao nos levar ao voo vivo da nossa imaginação com uma Fernanda "baioca" - com sotaque meio baiano, meio carioca. Amei!
Imperdível.
Ana Ribeiro, diretora de teatro, cinema e TV
Em primeiro lugar dizer da imensa honra de termos tido dois ingressos de cortesia para jornalistas, para o Bug latino, cedidos pela Trígonos Produções Culturais, nomeadamente, pela Nicolle Meirelles. Gratidão imensa por nos reconhecer valor.
Pude assistir a esta excepcional peça, realizada pela excepcional Fernanda Torres, no Festival Internacional de Expressão Ibérica – FITEI, em Porto, Portugal, há mais de 10 anos e vos digo, que hoje, venho impressionada pelo fato de Fernanda Torres estar ainda melhor. Mesmo se mantendo sentada – naquela época, fazia acrobacias em cima da mesa - é impressionante a forma como se expressa, tanto corporalmente, como nas expressões faciais, como na marcação das palavras. Pequenos movimentos, paragens, viradas de olhar, e uma aparente natural capacidade de colocar uma plateia de mais de 1.500 pessoas, “bailando ao seu ritmo”. Dominou a plateia dominando o silêncio, os momentos, os sorrisos, as gargalhadas, as surpresas, as emoções. Uma sala principal do Teatro Castro Alves, a abarrotar, aceitando silêncios sepulcrais. Só Fernanda Torres para o conseguir. Incrível.
Um cenário minimalista, marcação de ritmo com coisas simples como uns óculos para ler e uns óculos escuros, uma fita cassete que entra e sai do aparelho de som, um copo com uma bebida com gelo, um livro, uma caneta e umas folhas e, os minúsculos budas ditosos comprados numa viagem ao Oriente. E é assim, que uma atriz, num palco, mantém hipnotizadas as mais de 1.500 pessoas, durante duas horas. Um texto difícil, longo, cheio de detalhes, curiosidades, emoções implícitas.
Um texto carregado de temas difíceis e preconceituosos socialmente, falado de forma educada, simples, quase de forma ingênua e sem tabus. É um match perfeito – o texto de João Ubaldo Ribeiro baseado no depoimento de uma mulher baiana de 68 anos, personificado de forma tão perfeita por esta atriz tão sensacional, tão profissional, tão competente, tão merecedora de Óscar.
Que honra tão grande ter podido assistir a este momento, aqui em Salvador.
Um hino ao teatro, um hino às mulheres, às atrizes, à liberdade, ao Brasil.
Volte Fernanda Torres. Volte em breve.
Trígonos Produções Culturais, gratidão pelo vosso trabalho e competência. Voltem também por favor em breve.
Ana Santos, professora, jornalista
Sinopse: A Casa dos Budas Ditosos um livro escrito na primeira pessoa, é o depoimento de uma mulher que deseja dizer ao mundo que ousou cumprir sua vocação libertina e foi feliz, não há danação na luxúria.
FICHA TÉCNICA
Texto de João Ubaldo Ribeiro
Com Fernanda Torres
Direção – Domingos de Oliveira
Dramaturgia – Domingos de Oliveira e Fernanda Torres
Direção de arte – Daniela Thomas
Figurino – Cristina Camargo
Criação Maquiagem – Marcos Padilha
Light designer – Wagner Pinto
Trilha sonora – Domingos de Oliveira e Jonas Rocha
Direção de Produção – Carmen Mello
Assistente de direção – Lincoln Vargas
Operação de Som – André Omote
Operação de Luz – Diego Diener
Controller – Elinete Barcellos
Comunicação e Produção – Nicolle Meirelles
Assistentes de comunicação – Maria Alice Belo e Pedro Bozan
Produção Executiva – Theatron Produções Artísticas
Produção – Trígonos Produções Culturais & Co-produção – Bonarcado Produções Artísticas
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