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Bug Outras Artes

Público·88 membros

“PIRACEMA E PARABELO” do Grupo Corpo (TCA, 2026)


A palavra principal precisa ser explosão. Talvez a segunda seja: Frenesi. Muitas vezes a arte tem o potencial de passar por cima da nossa expectativa, de transcender tudo. Foi o que aconteceu em PIRACEMA E PARABELO do começo ao fim. Em Piracema, tentei imaginar os peixes subindo o rio antes. Era fácil porque já fui até a Belém, a Santarém, a Óbidos e lá, no rio Amazonas, na piracema, o caboclo nem precisa pescar, basta colocar a canoa contra a corrente – os peixes pulam lá dentro – eu vi!

Mas a Piracema que eu vi ontem, tinha uma energia diferente e inacreditável – como se aqueles corpos estivessem mesmo agitando as águas, naquela sincronia que não quer dizer que todos estejam fazendo o mesmo movimento ao mesmo tempo. Quer dizer apenas que o movimento vem de todos os lados – igual – mas em tempos diferentes- o que cria uma sincronia absolutamente particular.

A trilha, nem sou capaz de descrever, além de dizer que foi emocionante, criando enlevo, algo que não consigo exatamente descrever com palavras – o que me é também estranho, já que sou especialista em comunicação. Algo que vinha em ondas e que foi uma perda, um luto quando as luzes se apagaram.

PARABELO foi como um raio. Ritmo, mais ritmo, harmonia, estrondo, explosão que não começa assim, mas que se move no “miudinho” num tipo de “arrasta pé” – mas com o corpo. De novo, a energia. Algo que quando vi já tinha virado xaxado, baião, forró, loucura, ritmo, velocidade, explosão, frenesi, pés no pescoço, eu batendo os pés por baixo da cadeira, o som da trilha tomando os olhos e, de repente, naquela luxúria absoluta de movimentos incríveis – fim.

Plateia louca, aplausos ininterruptos por minutos inteiros – e a minha ideia de que um dia talvez se pudesse reviver algo como o Projeto Aquário, do Rio, aqui em Salvador, mostrando o que corpos podem criar, ao enlevar o grande público não apenas do TCA, mas transformando apresentações como esta em públicas, dentro da água do Dique, por exemplo. Algo além do que consta no cardápio do carnaval dos camarotes.

Uma grande obra precisa ser compartilhada e ontem eu vivi um momento assim. De frenesi. Do toque da arte.

Muda os espíritos.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Em primeiro lugar agradecer a gentileza da produção do espetáculo, ao permitir que o Bug Latino pudesse assistir e fazer esta matéria.

Depois dizer que depois da reforma do TCA, é muito mais agradável assistir a espetáculos. Se tudo já era muito profissional e encantador, agora melhorou. Parabéns ao TCA e seus profissionais. Somos sempre recebidas com sorrisos, extrema competência e gentileza.

Acontece que tento, há 13 anos, assistir a este grupo de dança. Finalmente foi possível. Fiquei muito feliz por ter conseguido e pela forma gentil como aconteceu.

Bom, este grupo tem algumas características muito próprias. Não existem pessoas que se destacam, todos são muito talentosos, muito bons. Diferentes alturas, envergaduras, também me agradaram. Dá passos diferentes, decisões diferentes, escolhas diferentes. A competência é tão elevada que diferenças corporais não são tema. Um trabalho com poucos momentos a solo, muito grupo, fazendo jus ao seu nome. Duplas inusitadas, duplas e trios, e conjuntos e todos, em diferentes momentos que se agrupam e se “desagrupam, com vários momentos de um mesmo tema obrigando o espetador a estar atento, a buscar as intenções – e isso torna o espetador muito mais ativo e se sentindo fazendo parte ao poder escolher focos de atenção. Interessante. Curioso. Original. Como se fosse uma refeição em que você escolhe o que quer mais, o que quer menos, o que deseja misturar, porque não é possível ver todos a fazer tudo, em todos os momentos. Amei. Afinal isso é a vida.

Corpos muito bem treinados, muito bem preparados. Muito complexas as coreografias, exigentes, ousadas. Todos com uma disciplina impressionante fazendo sua parte, sabendo que juntos explodem nossos corações pelo efeito incrível que recebem nossos olhos.

Música original e sensacional de Clarisse Assad na primeira obra. Na segunda obra Tom Zé e Zé Miguel Wisnik nos encantam igualmente, mas a originalidade de Clarisse Assad me deslumbrou.

Iluminação, figurino, cenários, simples e fenomenais por isso mesmo. Detalhes de meias, de mudança de cores, sem grandes complexidades, no figurino, permitem liberdade aos bailarinos e permite ao público ver a pureza e extrema exigência e perfeição dos movimentos – como se fossem cantores cantando “à capela”. Estão ali perante nós sem formas de esconder fragilidades, demonstrando uma enorme coragem, altos níveis de trabalho, e uma frontalidade no trabalho que impressiona.

Quando voltarem a Salvador, que espero seja em breve, desejo poder vê-los de novo.

Ana Santos, professora, jornalista

 

Informações cedidas antes do espetáculo:

PIRACEMA E PARABELO

O Grupo Corpo traz ao Teatro Castro Alves, nos dias 28 e 29 de outubro, duas obras marcantes do seu repertório: Piracema, que comemorou os 50 anos de atividades da companhia em 2025, e Parabelo, de 1997, definida pelo coreógrafo Rodrigo Pederneiras como a “mais brasileira e regional” de suas criações.

A imagem dos peixes que vencem a correnteza para alcançar as nascentes dá sentido a Piracema. O movimento de avançar contra obstáculos e recomeçar o ciclo da vida serviu de metáfora para a trajetória da companhia. Com coreografia de Rodrigo Pederneiras e Cassi Abranches, a obra marcou também a chegada de Cassi à função de coreógrafa residente, ao lado de Rodrigo. A música original é de Clarice Assad, primeira mulher a compor uma trilha para o Grupo Corpo.

Completando o programa, Parabelo leva ao palco uma paisagem musical ligada ao sertão. Na trilha de Tom Zé e Zé Miguel Wisnik, cantos de trabalho e devoção convivem com o baião e contrapontos rítmicos, matéria que ganha no corpo jogo de cintura e forte marcação dos pés.

O Grupo Corpo é apresentado pela Petrobras e conta com o patrocínio da Vivo, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.


Domingo é dia de sugestão cultural: uma exposição, um bailado, uma ópera, uma peça de teatro, um filme.

Sempre que possível indicamos filme ou documentário que pode ser visto por todos, na internet.


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