“Tre ciotole” / “TRÊS VEZES ADEUS ” / ”Three Goodbyes” (Autoral Filmes, 2025)

Poderia começar de muitos lugares, mas a direção é sensível, maravilhosa, leve – num assunto onde 99% dos diretores iriam descambar para a troca de foco e o exagero.
Um roteiro primoroso, onde as pessoas falam acerca dos defeitos umas das outras, procuram saídas, mas não renunciam ao fato de que tudo é parte da vida e das nossas buscas.
Alba Rohrwacher esteve perfeita o filme inteiro. Tão perfeita, que no começo parecia meio fora do ar – num dado momento, percebi que somos nós, a sociedade, que fugimos do ponto principal, perdemos o foco e com isso, nos perdemos de nós, da nossa essência.
Vamos todos morrer. Não importa muito se o bebê vai nascer morto ou morrer de velho; vamos todos morrer. Deveríamos encarar a morte com extrema naturalidade, mas... em mil outros filmes, ao aparecer a variável esperadíssima: “você também vai morrer, como todos”- o filme muda de foco, temos que ficar encarando a aproximação da morte, quase vendo a imagem da mulher de preto, com a foice na mão. Bem, em TRE CIOTOLE não é assim. Ela comia mal, terminou uma relação, perdeu o apetite, sua irmã insistiu e não – não era uma depressão, uma tristeza, um ranço – era a morte.
O elenco sustentou a leveza: a perplexidade leve, a vontade de ajudar, sem se locupletar da atenção que Marta simplesmente não precisava por ainda estar viva. Ela continuou viva até o fim. Cuidou de suas alunas problemáticas, se aproximou do professor simpático, resolveu a questão de sua irmã e do ex companheiro. Nenhum minuto perdido entre dramas e mudanças de foco – ela estava viva e ativa.
Essa leveza vale milhões, se pensarmos que estamos enxarcados de violência e adversidades nos programas, filmes, séries – todos policiais, claro – e pingando sangue e desgraças.
Em TRE CIOTOLE Marta termina relacionamento, descobre um câncer, fica com um professor, percebe a fragilidade de algumas alunas, vai a exposições... ela vive, até que morre. Continuou comendo mal, fazendo as coisas que fazia, mas se entendeu, se viu, se respeitou. Nesse momento individualista, pernóstico e tantas vezes agnóstico, não é a coroação de uma vida?
Eu achei perfeito.
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Alguns filmes parecem nos abraçar. Este é um deles. Inicia de uma forma que parece um filme comum sobre relações, e que parece se dirigir para um tema fundamental nas nossas vidas – a doença terminal e a morte. Mas ele é muito mais do que isso, ou, diria até que não é nada disso e sim, um filme sobre o amor-próprio, sobre aproveitar a vida, sobre viver de verdade, sobre fazer bem aos outros, sobre contribuir para um mundo melhor, sobre amadurecer, sobre melhorar, sobre entender a vida, e tantas outras coisas boas, construtivas, que não incluem redes sociais, corrupção, fake news, preconceito. Talvez se resuma a nos dizer para não fazermos o que não queremos. E buscar o que queremos. Tão simples não parece? Mas não é. Nunca é. E cada vez é mais difícil, com tanta poluição emocional à nossa volta. Tanta gente nos dizendo como devemos ser, o que devemos gostar, como devemos viver.
É tão bom quando aparece um filme destes, confirmando aquilo que sabemos, e nos dizendo que estamos no caminho certo, saudável, no caminho que verdadeiramente interessa.
Isabel Coixet de novo com um filme impactante. Encantador, sensacional, sensível, tocante, maduro, profundo, necessário. “Três vezes Adeus”, vem em contrafluxo, parece uma boia de salvação, um ombro amigo, uma carona, um abraço, como falei no início. Nos diz aquilo que precisamos ouvir para seguir fazendo os caminhos mais difíceis, mas mais verdadeiros. Andamos todos por vezes sozinhos pelo mundo, por vezes chocando uns com os outros, por vezes desejando mal aos outros, por vezes infelizes por hábito e aprendizagem. Este filme nos dá uma luz para seguir, nos dá soluções humanas e bem simples. Nos alerta para sermos de verdade, em vidas de verdade, olhando de verdade, comendo de verdade, gostando de verdade.
Me tocaram profundamente algumas cenas. Mas deixo a que mais me tocou, que foi a do enterro do pombo.
Atores e atrizes espetaculares, numa produção maravilhosa, num roteiro que nos atrai em cada milésimo de segundo.
Im...per...dí...vel!!!!
Ana Santos, professora, jornalista
Ficha técnica
Direção: Isabel Coixet
Roteiro: Isabel Coixet e Enrico Audenino, baseado no livro "Tre Ciotole" di Michela Murgia
Elenco: Alba Rohrwacher (Marta), Elio Germano (Antonio), Francesco Carril (Agostino), Silvia D'Amico (Elisa), Galatéa Bellugi (Silvia) e Sarita Choudhury (Doctora Benati)
Música: Alfonso De Vilallonga
Designer de Produção: Paola Comencini
Fotografia: Guido Michelotti
Som: Luca Anzellotti
Edição: Jordi Azategui
Produção: Riccardo Tozzi, Giovanni Stabilini, Francesca Longardi (Cattleya), Carlo Gavaudan, Marco Miana (Ruvido Produzioni), Massimo Di Rocco, Luigi Napoleone (Bartlebyfi lm), Marisa Fernández Armenteros (Buenapinta Media), Sandra Hermida (Perdición Films) e Alex Lafuente (Bteam Pictures)
País de produção: Itália e Espanha
Idioma original: Italiano
Formato: colorido
Trailer e informações:
https://www.imdb.com/pt/title/tt35705184/
https://www.youtube.com/watch?v=9kQ6lIzIqG8
Sobre a Autoral Filmes
A Autoral Filmes, fundada no início de 2025, teve sua origem através dos sócios do Paradigma Cine Arte, Felipe Didoné e sua mãe, Marize Didoné, que desde 2010 mantém a sala de cinema que é uma instituição cultural em Florianópolis (SC).
A Distribuidora vem do desejo dos sócios de ampliar as atividades no mercado do cinema, replicando na distribuição o mesmo conceito de filmes independentes e de arte que formam seu conceito na exibição.
Como seu nome deixa claro, a Autoral Filmes terá seu foco no cinema de autor e em documentários de arte, focando em produções escolhidas a dedo, tanto nacionais como estrangeiras, prezando sempre a alta qualidade dos filmes.
Para Felipe Didoné, diretor da distribuidora, "a Autoral Filmes é a realização de um sonho, de expandir os horizontes para além da distribuição, mantendo a curadoria elegante que sempre foi o diferencial do Paradigma Cine Arte".
Domingo é dia de sugestão cultural: uma exposição, um bailado, uma ópera, uma peça de teatro, um filme.
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