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Bug Cinema

Público·89 membros

“Les Enfants vont bien” // “As Crianças Estão Bem” // “Out of Love” (Autoral filmes, 2025)


É um filme árduo. Sem trilha, sem música nenhuma. Quando ela toca aqui e acolá, de um modo bem disperso, você nem percebe direito que aquilo é música.

Um filme com crianças, mas que as crianças não deveriam viver – muito mais até do que ver. Tem famílias – mas totalmente desajustadas e com problemas que ninguém imagina que elas possam ter – eu, pelo menos, nunca havia pensado que um problema com esta dimensão seria possível. Mas é.

E se a sua vida pudesse se desequilibrar totalmente e o estado natural de todos, dentro dela, fosse o de solidão? Crianças e adultos – juntos, mas separados pela capa gélida da solidão? O menino maltrata a tia, a menina se sente enxotada e reage, os dois irmãos apenas dão as mãos eventualmente e as duas irmãs perderam contato emocional há anos. Se a mãe não quer ou não se sente capaz de ficar com as crianças e o pai está morto, quem pode ficar com elas? A irmã não as quer – tem a vida resolvida e não quis ter filhos. Terminou um casamento para não ter que discutir o assunto filhos. Mas daí a colocar num abrigo vai uma distância emocional insuportável.

O que você faria? O que diria às crianças, já que é impossível disfarçar o seu mal estar diante delas, a sua incapacidade de lidar com crianças, a sua não vontade? E como educá-las para que parem de gritar e fazer malcriação na frente de todos?

Como perdoar sua irmã? Como rever sua relação, quando é sua ex namorada quem consegue melhor se relacionar com os filhos que ela queria, você nunca quis e agora os tem?

Veem? Trilhas sonoras não caberiam aqui, mesmo. Tomadas difíceis, falas baixas, sussurradas, rápidas, intercaladas por olhares que culpabilizam – ríspidos.

Com quem ver? Não sei. É muito taciturno mesmo para adultos, mas é um problema real, que atualmente e nesse mar de depressões pode acontecer no dia a dia.

Eu já chamaria meus filhos adolescentes, se os tivesse. Há assuntos que foram criados e a solidão coletiva também é um deles.

Atuações magistrais, artistas consagrados, dicção perfeita. Tema absurdamente atual. Direção justa com a história. Roteiro curto, grosso e amargo. Perfeito.

Você acaba com muitas perguntas, emocionalmente pior, mas não teve nada que sobrasse em nenhuma área. Filme incrível.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Um filme que nos dá aulas de legislação, sobre filhos, guarda de crianças, abandono, direitos e deveres de mães, tias, crianças. Muito interessante esse aspecto de “As Crianças Estão Bem”, na medida em que nos alerta e nos informa. Ganhamos um filme que nos leva a questionar variados comportamentos e além disso nos educa. Bastante importante.

Parece um filme que se debruça sobre comportamentos que estão a crescer – mães em situações precárias, ou lutos, ou ambas as situações, que não conseguem digerir, ou não conseguem forças para enfrentar, com um, dois, ou mais filhos, e que deixam esse ou esses filhos com família e desaparecem. Vidas que vão em crescendo, mas que a construção desaba, por morte de marido ou mulher, falta de trabalho, e tudo o que isso atrai – perda de rotinas saudáveis, perda de confiança em si mesmo, perda de esperança na vida, etc.

Uma irmã com um trabalho de sucesso, com uma vida muito confortável financeiramente, mas que fora do trabalho não encontra estabilidade. O filme deixa algumas pistas da sua infância, da relação com mãe, pai e irmã, que nos levam a suposições sobre essa instabilidade emocional ou opção de viver só e de forma controlada. Essa irmã, com tudo organizado e controlado, que nunca quis filhos, de repente, precisa cuidar de duas crianças, suas sobrinhas.

Uma viagem sobre o amor, a amizade, tudo aquilo que sabemos e não sabemos das nossas vidas e relações com os familiares. A necessidade de enfrentar o inesperado, sem magoar os outros, principalmente quando são crianças.

Curioso é também a colocação de uma ex-companheira da tia, que aparentemente foi “descartada” por querer ter filhos e a “tia” não, e que dá apoio – e um apoio maravilhoso às crianças – e que a tia fica com a sensação que é território controlável – quando não é nem deve ser. Por que a vida não é como a matemática, as contas quase nunca batem certo ou como esperamos.

Um filme duro, que não tem praticamente trilha sonora, para sentirmos mais profundamente a realidade dos factos. Lento, silencioso, cru, arranha nossos medos, traumas e certezas. Excelentes atrizes, atores, as crianças são também sensacionais.

Ana Santos, professora, jornalista

 

Sinopse: Numa noite de verão, Suzanne visita a irmã Jeanne e deixa lá os dois filhos pequenos. Na manhã seguinte, ela desaparece sem deixar rastros, exceto por uma carta pedindo que não a procurem. Jeanne vê-se subitamente forçada a assumir o papel de mãe biológica e a cuidar dos sobrinhos diante de um abandono voluntário. Enquanto a família tenta digerir o trauma e a ausência enigmática da mãe, o drama foca na perda da inocência e na resiliência das crianças. Em competição no Festival de Cannes 2026.

Direção: Nathan Ambrosioni

Roteiro: Nathan Ambrosioni

Empresa Produtora: Chi-fou-mi Productions

Produção: Nicolas Dumont, Hugo Selignac

Empresa Coprodutora: Studiocanal

Fotografia: Victor Seguin - Afc

Montagem: Nathan Ambrosioni, Alexandre Hecker, Laure-anne Darras, Olivier Guillaume

Direção de Arte: Rozenn Le Gloahec

Figurino: Clara Rene

Edição de Som e Mixagem: Laurent Benaïm, Alexandre Hecker, Laure-anne Darras, Olivier Guillaume

Música: Alexandre De La Baume

Elenco: Camille Cottin, Monia Chokri, Juliette Armanet, Manoã Varvat, Nina Birman, Guillaume Gouix, Myriem Akheddiou, Franckie Wallach, Tania Dessources, Camille Lethuillier, Maxime Tshibangu, Féodor Atkine

Contato: Autoral Filmes

Festival do Rio, de 1 a 11 de Outubro de 2026

 

Domingo é dia de sugestão cultural: uma exposição, um bailado, uma ópera, uma peça de teatro, um filme.

 

Sempre que possível indicamos filme ou documentário que pode ser visto por todos, na internet.

 

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