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“Senhor do meu destino...ou não?” Bug Sociedade


Quando levantei os olhos, vi de novo a mesma cena, sempre indistinta. Havia alguém que, entre a construção árdua, mas plena, preferiu o tilintar das moedas, o dinheiro. Havia o plano e a novidade e o dinheiro – sempre ele – e os mesmos usos das mesmas pessoas, com as mesmas ideias.


O suspiro saiu sem querer. Mas, daquela vez, ao invés de lutar por aquilo que considerava mais justo, apenas levantei os olhos e perguntei se aquela pessoa queria mesmo apenas as moedas de ouro.


Nem sempre – comigo quase nunca – me vender foi a opção escolhida. Mas não quero mais ensinar isso. Gostaria, ao contrário, de encontrar quem já aprendeu que todos ocupamos o mundo e que se o mundo acabar, não sobrarão camarotes de luxo onde se esconder.


Contar ou não contar, explicar ou não explicar por que acabo pensando em soluções boas para a maioria – nada disso justifica a soma de egoísmos na qual vivemos hoje. E se a personagem pode ser eu, ela também pode ter qualquer nome, ser qualquer pessoa. O grito de guerra das festas do Rio de Janeiro não pode mais ser “ME ENTUBA” – mas é – numa clara referência aos pacientes graves de Covid-19.


Meu queixo cai.


A cada vez que a cena de individualismo se repete, baixo os olhos e me pergunto se isso é uma pegadinha do destino, do karma, pra ver se estou mesmo decidida a permanecer tentando solucionar problemas vendo as pessoas. Quando levanto o olhar, a decisão ainda é a mesma – pelo menos por enquanto.


A corrupção do caráter não precisa necessariamente ver ou pegar em dinheiro – e este é o meu medo. Ao contrário, ela entra no seu coração pela facilidade, pela vaidade, por você se sentir especial, o escolhido.


Mas, de passo em passo, chegamos ao ponto onde estamos: levante os olhos e olhe o mundo. Era este o seu plano pra ele? Estado de terra arrasada explica o seu sonho? Não explica o meu... não foi nada disso que sonhei. Nessas horas, levanto os olhos, suspiro e sigo em frente. Eu e todo o resto de nós porque não há, nem haverá um lugar especial para os ricos e escolhidos e indicados, quando a fatura do mundo chegar. Sei lá... o mundo pode ser cada vez mais um lugar estranho, inóspito e confuso se você não estiver seguro de que, pelo menos, não vai usar as pessoas, não vai fazê-las sofrer porque só pensou em você e, sobretudo, que o mundo não é só você.


Conto? Não conto?

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro, TV


“Senhor do meu destino...ou não?” Bug Sociedade

Às vezes o teu país está calmo e tu estás inquieto. Às vezes tu estás calmo e o teu país uma confusão. Às vezes o que vês na televisão, o que lês nos jornais, nas redes sociais parece real, parece mentira. Às vezes limites são ultrapassados, às vezes tomam-se decisões que rasgam, às vezes o perigo respira o momento. Morrer não é mais morrer. Viver não é mais viver.


Às vezes tu tens tudo o que é preciso, mas o mundo não quer. Às vezes tens pouco, mas serve perfeitamente. Às vezes és o melhor que existe, mas não nessa hora. Viajar é bom, mas não é quando tu viajas. Ter sucesso é bom, mas não o teu. Inovação é brutal, mas nos outros. O que tu fazes não tem valor. Quando os outros se queixam é experiência, quando és tu, é vitimização. Quando fazem algo diferente é puro talento, quando és tu...”só faltava mais isso, aldrabão”.


Afinal...

É teu o melhor acarajé da cidade e o mais barato. Teu suco, teu kibe, teu pastel, faz todos babarem, no centro da cidade. Teu sorriso carrega todos os dias galões de água para as casas, rua acima, rua abaixo. Levas o lixo da rua como se se evaporasse, 2ª, 4ª e 6ª, pela noite, com luvas que te protegem dos nossos perigos e uma energia sempre total. “Penduras-te” no sino das casas e esperas de sorriso rasgado, para fazer a leitura da eletricidade. És a vida nos legumes, verduras e fruta dos que fogem de medo do vírus pelas ruas. És a salvação das inundações, goteiras, trabalhos de uma habitação. És a carne, o peixe, o sustento dos que dão ordens. És gentileza, senhor do teu destino e mão que embala o destino dos outros.


Senhor, o teu destino é o teu...porque o meu não é o meu?

Ana Santos, professora, jornalista

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