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Poesia que aguça a Vida





 

“Pequenos Poemas Mentais”

“Mental: nada, ou quase nada sentimental.


I

Quem não sai de sua casa,

não atravessa montes nem vales,

não vê eiras

nem mulheres de infusa,

nem homens de mangual em riste, suados,

quem vive como a aranha no seu redondel

cria mil olhos para nada.

Mil olhos!

Implacáveis.

E hoje diz: odeio.

Ontem diria: amo.

Mas odeia, odeia com indômitos ódios.

E se se aplaca, como acha o tempo pobre!

E a liberdade inútil,

inútil e vã,

riqueza de miseráveis.

 

II

Como sempre, há-de-chegar, desde os tempos!

Vozes, cumprimentos, ofegantes entradas.

Mas que vos reunirá, pensamentos?

Chegais a existir, pensamentos?

É provável, mas desconfiados e inválidos,

Rosnando estúpidos, com cães.

 

Ó inúteis, aquietai-vos!

Voltai como os cães das quintas

ao ponto da partida, decepcionados.

E enrolai-vos tristonhos, rabugentos, desinteressados.

 

III

Esse gesto...

Esse desânimo e essa vaidade...

A vaidade ferida comove-me,

comove-me o ser ferido!

 

A vaidade não é generosa, é egoísta,

Mas chega a ser bela, e curiosa!

E então assim acabrunhada...

Com franqueza, enternece-me.

 

Subtil

A minha mão que, julgo, ridicularizas,

de que desconheces a suavidade,

cerra-te pacificamente os olhos

e aquieta benignamente o ar.

Paira sobre a tua cabeça, móbil, branda,

na prática de um velho rito,

feminil, piedoso, desconhecido e inconfesso.

 

IV

Ó luxúria brutal, perversa e felina,

dos outros, alheia,

sem pensamentos nem repouso!

retira-me da frente o venenoso cálice,

a tua peçonha adocicada.

Que a morte, o nirvana, a indiferença

dos longuíssimos anos sem sobressaltos, me retome.

 

Abro os braços e meço: cá, lá... cá, lá...

solidão, infinita solidão!

E neste movimento, neste balouço, adormeço,

Cá, lá... morte, vida... morte, vida...

Todas as ausências, todas as negações.

 

V

Os poetas cumprimentam-se, delicados.

Cada um como seu metro, o seu espírito, a sua forma;

as suas credenciais...

Mas são simpáticos os poetas!

Sensíveis, femininos, curiosos.

Envolve-os um mistério.

Não! Esta é a linguagem de toda gente: o mistério...

Que mistério?

Os poetas são apenas reservados, são apenas...

perturbados e capciosos.

 

VI

Cai um pássaro do ar, devagar, muito devagar.

E as árvores soturnas não se mexem.

Estio!

Não se veem bulir as árvores, em bloco, ou aos arcos, estampadas...

Elegante Lapa! Sol fosco, paisagem de manhã.

A gente do sítio, pobreza e riqueza, ainda recolhida.

Aqui, uma janela discreta que se abre, preta, cega.

Ali outra fechada.

E esta alternância, bastante irregular, vai-se repetindo, repete-se...

 

E eu, ai eu! Prisioneira, sempre prisioneira; tão enfadada!”

Irene Lisboa

Portugal

1892-1958

Escritora, Professora, Pedagoga

 

 

“Amor”

“Aqueles olhos aproximam-se e passam.

Perplexos, cheios de funda luz,

doces e acerados, dominam-me.

Quem os diria tão ousados?

Tão humildes e tão imperiosos,

tão obstinados!

 

Como estão próximos os nossos ombros!

Defrontam-se e furtam-se,

negam toda a sua coragem.

De vez em quando,

esta minha mão,

que é uma espada e não defende nada,

move-se na órbita daqueles olhos,

fere-lhes a rota curta,

Poderosa e plácida.

 

Amor, tão chão de Amor,

que sensível és...

Sensível e violento, apaixonado.

Tão carregado de desejos!

 

Acalmas e redobras

e de ti renasces a toda a hora.

Cordeiro que se encabrita e enfurece

e logo recai na branda impotência.

 

Canseira eterna!

Ou desespero, ou medo.

Fuga doida à posse, à dádiva.

Tanto bater de asas frementes,

tanto grito e pena perdida...

E as tréguas, amor cobarde?

Cada vez mais longe,

mais longe e apetecidas.

Ó amor, amor,

que faremos nós de ti

e tu de nós?”

Irene Lisboa

Portugal

1892-1958

Escritora, Professora, Pedagoga


Imagem: Olesya and Andriy Voznicki


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