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Poesia para Mãe negra


“PRELÚDIO”    

 

“Pela estrada desce a noite

Mãe-Negra, desce com ela...

 

Nem buganvílias vermelhas,

nem vestidinhos de folhos,

nem brincadeiras de guisos,

nas suas mãos apertadas.

Só duas lágrimas grossas,

em duas faces cansadas.

 

Mãe-Negra tem voz de vento,

voz de silêncio batendo

nas folhas do cajueiro...

 

Tem voz de noite, descendo,

de mansinho, pela estrada...

 

Que é feito desses meninos

que gostava de embalar?...

 

Que é feito desses meninos

que ela ajudou a criar?...

Quem ouve agora as histórias

que costumava contar?...

 

Mãe-Negra não sabe nada...

 

Mas ai de quem sabe tudo,

como eu sei tudo

Mãe-Negra!...

 

Os teus meninos cresceram,

e esqueceram as histórias

que costumavas contar...

 

Muitos partiram p'ra longe,

quem sabe se hão-de voltar!...

 

Só tu ficaste esperando,

mãos cruzadas no regaço,

bem quieta bem calada.

 

É a tua a voz deste vento,

desta saudade descendo,

de mansinho pela estrada..”

ALDA LARA

(1930-1962)

 poetisa e médica angolana

 

“PRESENÇA AFRICANA”

“E apesar de tudo,

Ainda sou a mesma!

Livre e esguia,

filha eterna de quanta rebeldia

me sagrou.

Mãe-África!

 

Mãe forte da floresta e do deserto,

ainda sou,

a Irmã-Mulher

de tudo o que em ti vibra

puro e incerto...

 

A dos coqueiros,

de cabeleiras verdes

e corpos arrojados

sobre o azul...

A do dendém

Nascendo dos braços das palmeiras...

 

A do sol bom, mordendo

o chão das Ingombotas...

A das acácias rubras,

Salpicando de sangue as avenidas,

longas e floridas...

 

Sim!, ainda sou a mesma.

A do amor transbordando

pelos carregadores do cais

suados e confusos,

pelos bairros imundos e dormentes

(Rua 11!... Rua 11!...)

pelos meninos

 

de barriga inchada e olhos fundos...

 

Sem dores nem alegrias,

de tronco nu

e corpo musculoso,

a raça escreve a prumo,

a força destes dias...

 

E eu  revendo ainda, e sempre, nela,

aquela

Longa história inconsequente...

 

Minha terra...

Minha, eternamente...

 

Terra das acácias, dos dongos,

dos cólios baloiçando, mansamente...

Terra!

Ainda sou a mesma.

 

Ainda sou a que num canto novo

pura e livre,

me levanto,

ao aceno do teu povo!”                               

ALDA LARA

(1930-1962)

 poetisa e médica angolana

Benguela,1953 (de  Poemas,1966) 


Imagem: Salvador Dali


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