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2 Contos: “CONTANDO OS MINUTOS” e “Rir dos outros”

há 2 dias
5 min de leitura

Conto “CONTANDO OS MINUTOS”

Não era bem Natal, mas havia aquele frisson no ar: será que a democracia venceria? Será que o Nordeste – de novo o Nordeste – desequilibraria um jogo onde se viu todos os tipos de roubalheira – da censura à verdade, até passar armado em meio da torcida adversária?

Andando pela rua, na madrugada de 3 para 4 de outubro, via-se um movimento diferente. Havia Lula, Lula! E havia um descarado, que tinha um irmão norte americano. Um cara totalmente devasso e traidor do seu País, com amigos tipo “irmãozão”, pra quem ele teve coragem de pedir milhões de dólares fazendo soar como coisa normal. Trouxe à baila também outros companheiros que depois de mentirem na eleição passada, resolvem mentir na eleição presente e uma TV totalmente descambada para um lado da disputa - e eu, andando de madrugada, com as mãos nos bolsos.

- Aí finalmente você encontra o broto: que felicidade, que felicidade, que felicidade...

- Garçom, uma cerveja! Desce 2! Desce mais!

Será que o Brasil vai saber se amar e respeitar ou vai continuar, como sempre, se auto entregando para ser explorado pelo mal? Será que o Brasil sabe se amar? Ele pode ter uma pessoa respeitadíssima no mundo inteiro ou escolher um pústula purulento, capaz de vender a mãe. Capaz de vender seu País. Capaz de orgias. Capaz de enganar velhinhos e velhinhas com seu amigo, o “irmãozão”.

Começava a amanhecer o dia 4. Eu parei na porta da escola onde votaria. Ainda não tinha chegado ninguém, mas as urnas já deviam estar lá dentro, protegidinhas. O excelentíssimo “esperteleco” e seus asseclas, já tinham inventado de um tudo sobre elas -as urnas. Pra quem tinha passada a vida mafiosa dependendo do resultado delas era mais um absurdo – mais um, entre tantos outros.

Parou na frente da escola. Lembrou dos Blitz de novo:

- Você não soube me amar, você não soube se amar...

Tinha cada coisa no Brasil...  Tanta terra maravilhosa pra tanta gente perniciosa... Deixar de graça nossas terras raras e ainda ter gente pra votar nesse tipo de bandido? Com essa veemência? Com gritos, tiros, perseguição em igreja evangélica? Falar mal das outras religiões? Então quem sobra nesse território gigante? Só eles. Os radicais, desapercebidos que se todos morressem agora, haveria briga entre os radicais e os ultra radicais pelo tal amor de Deus – do ponto de vista deles. Porque na verdade, isso nunca foi de Deus. E por acaso bilhões em dinheiro são para o lucro de Deus? O que ele faria com dinheiro terreno? O pastor faz o quê com o dinheiro terreno?

- Bem... compra até avião! Até troca de avião! Compra mansão! Carrão!

- Como chegamos a um grupo de pessoas que não aceita nada de mais ninguém? Que estão cegos pelo orgulho e pela vaidade – por acaso pecados mortais...

- Se a eleição começasse agora, para onde eu iria, em qual escola votaria, que candidato escolheria, onde compararia o que eles fizeram pelo Brasil?

É só dar um Google. Nem precisa gastar a sua Inteligência Artificial porque em toda parte, de programas sociais até educação, de habitação até saúde, de discursos monumentais, de comércio exterior, só teve uma pessoa presente e não foi garotão da orgia. Aquele que trai todo mundo: da mulher ao País. E de boa!

Nessa hora o sol saiu e mostrou a estrela da democracia, da liberdade, lá no meu céu de esperança. Estava contando os minutos para as 8 horas. Era hora de votar e defender o Brasil contra os terroristas traidores da Pátria. Tinha chegado a hora.

Apresentou seu título sorrindo. Iria até Marte para salvar seu País, como agora.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Rir dos outros”

Quando nasci, não me dei conta que isso aconteceu. Não sabia que a pessoa que tinha os olhos, pelos quais eu via o mundo, era eu. Não tinha noção de que era um ser humano igual aos outros, com um corpo semelhante, movimentos semelhantes. É que eu via os outros por completo e a mim, eu apenas via metade.

Via minhas pernas correndo, saltando, via os meus braços, mexendo em tudo, fazendo com que a minha vida se desenvolvesse. Olhava pouco a minha cara pois na minha casa não existiam espelhos.

Uns dias as pessoas me olhavam e sorriam, até davam altas e sonoras gargalhadas, outros dias me olhavam sérias e silenciosas. Eu tentava, todos os dias, fazer com que as pessoas sorrissem, dessem gargalhadas longas e gostosas.

Fui reparando que elas, mais facilmente sorriam e davam gargalhadas quando eu zombava das pessoas. Fui percebendo que essa era a forma mais rápida e fácil de criar um ambiente gostoso em minha volta. Deixei de tentar outros caminhos pois este era muito fácil, rápido e de efeito explosivo. Ganhava amigos com a mesma facilidade com que as pipocas explodem na panela, quando aquecem no fogão.

Vivi anos assim. Sentia-me feliz porque achava que era o máximo e que o que fazia era bom, já que todos à minha volta eram felizes.

Cresci, fiz a faculdade, e aumentei os amigos mais ainda. Na faculdade meu jeito foi mais aplaudido ainda. Fazia esporte e música e esse lugares também amavam meu jeito. Mais amigos ainda.

Me sentia uma pessoa incrível, que fazia todos felizes.

Arranjei um trabalho bom e bem remunerado. Quando pensava que tudo estava a meu favor, comecei a ter menos tempo para conviver com os amigos e no trabalho minhas brincadeiras não eram bem recebidas. Além disso, eu virei o motivo dos risos e gargalhadas. Diariamente. Ou era minha roupa, ou era o que eu falava ou era o que eu fazia. Tudo provocava explosões de risos e gargalhadas em todos os meus colegas de trabalho, meus chefes, familiares de todos.

Primeiro doeu-me perceber que passaram a rir de mim e não comigo e nem tão pouco do meu talento para a “boa disposição”. Depois comecei a perceber que aquilo que fiz aos outros por anos, doía muito quando os outros faziam em mim. Sobre mim.

Adoeci. Precisei de muitos médicos para me ajudarem a recuperar e tentar ser boa pessoa de verdade, sem precisar de falar mal dos outros, nem apontar suas características menos comuns para zombar. Fiquei só, recomecei a vida e uma forma diferente de interagir com os outros. Estou nessa luta. De vez em quando ainda deslizo e volto a brincar com coisas que fazem mal aos outros ou deprimo quando alguém me trata mal. Mas estou no caminho da cura. Lentamente mas dedicadamente.

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Pollock


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