Poesia da Voz
- portalbuglatino
- há 6 horas
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“Uma voz”
“Uma voz dizia que nos vinha a chuva
que mata, outra que abençoava a terra.
Uma palavra era sobre a água úbere,
outra sobre os lodos, limos e as regueiras.
Uma voz queria beber uma sede áspera,
outra clamava fogo, terra e água.”
FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO
escritora, poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora portuguesa (1938-2007)
"Nada tão silencioso como o tempo"
“Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até na íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.
Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.
Mas nós sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.”
FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO
escritora, poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora portuguesa (1938-2007)
Imagem: Salvador Dali
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