“O CÚMULO DO CONSUMISMO” e “Ajudemos, nem que seja com palavras” Bug Sociedade
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“O CÚMULO DO CONSUMISMO” Bug Sociedade
Na saída do mercado, uma jovem com um garotinho pequeno no carrinho, me pediu pra lhe pagar um Danoninho. Olhei lá pra dentro e não tinha nada de saudável. Nada. Zero coisas saudáveis. Doces, galinha ultraprocessada pra fritar, o menino chupava um pirulito, uma bola de futebol e Yacult.
Me deu um aperto no coração. O meu carrinho é que parecia o de uma família com crianças: verduras, frutas, pão. Ainda falei que ia comprar pra ela o que me parecia mais saudável – o Yacult – mas ela não estava atenta a mim, afinal. Ali, naquele carrinho de mercado, estavam agrupados os sonhos de consumo daquela pequena família – objetos de desejo que eles viram na TV. Quem comeria uma bola de futebol, afinal?
Meu coração se quebrou em mil pedaços. Há tanto por fazer pelas pessoas ainda e os políticos gastando milhões e nos tirando bilhões para financiar estes e mais muitos outros milhões em encontros, viagens, convenções. Inteligência Artificial de ex-presidente preso – como se uma pessoa presa, com dinheiro, pudesse ser menos proibida de aparecer publicamente do que outra, sem dinheiro. Presidente estrangeiro vindo aqui pra cuspir na ajuda que estamos dando aos praticamente mendigos econômicos que atravessam nossas fronteiras para comerem, abastecerem, trabalharem, viverem.
Tanto falaram que o Brasil ia virar Venezuela... com o coração aberto, nós recebemos ao povo dos dois países: Argentina e Venezuela - que vira e mexe vêm mesmo é pra cá, quando precisam de ajuda, na prática.
O Presidente estrangeiro veio, xingou o nosso País com uma tesoura maluca nas mãos, dançou daquela forma estranha, gritou daquela forma estranha, virou amigo de um homem que nunca visitou pessoalmente, nunca recebeu pessoalmente... Deve ser daquele típico amigo carioca: - passa lá em casa! – sem nunca dar sequer o endereço.
Se isso não me ofendesse enquanto brasileira e carioca, eu sentiria vergonha daquelas dancinhas, sempre patéticas e grotescas, desritmadas, ofensivas. Mas feitas como se aquela coisa grotesca fosse algo mais, além de grotesca. Sabe aquela história de que existem povos que podem se suicidar pulando do próprio Ego? Uma pista: são “hermanos”!
A menina do mercado tinha pequenos sonhos de consumo dentro de si. Aliás, não tinha mais nada além de seu sonho habitado por doces e venenos alimentares. Vendo-a, me veio a pergunta: O que será que habita a mente, a emoção, a inteligência do “presidente estrangeiro”, hein? Esses mundos seriam mesmo habitados, dentro do ambiente descabelado daquela mente?
Nem vou falar do candidato nacional. Sabe quando o Chacrinha ficava ouvindo o calouro cantar do seu lado, com o abacaxi numa mão e a buzina na outra? Eu senti exatamente aquela vergonha alheia que a gente tenta disfarçar porque a pessoa ta viajando na sua maionese e não vai se deixar interromper porque se sente importante – afinal empatia também serve nesse sentido.
Talvez, se ele estivesse com a boca ocupada chupando o pirulito do garotinho e a plateia tivesse sentido a vergonha alheia que eu mesma senti assistindo à convenção do seu partido... quem sabe seria um tantinho menos bizarro?...
Pegue sua malinha e “vuelva para su Casa Rosada, hombre”... Se não fosse uma invasão absurda e ofensiva que está sendo orquestrada contra o nosso país, se a babação de Egos não tivesse contornos ridículos na bendita convenção, ainda assim seria CRIME. Depois vão reclamar de novo que são todos inocentes, que ninguém fez nada, que é perseguição política... O bla bla bla de sempre que ninguém aguenta mais consumir. Eu, hein...
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
“Ajudemos, nem que seja com palavras” Bug Sociedade
Estamos em julho de 2026. Em outubro teremos eleições. O que vai acontecer? É que não faço a mais pequena ideia. Cada dia, cada hora, cada minuto e cada segundo, o resultado parece que vai ser um ou outro. Tá difícil, tá estranho e tá preocupante.
Queria ser capaz de ajudar as pessoas. Sempre desejei isso, desde menina. Permaneço nesse sentimento, nesse desejo.
Cresci com a sensação pragmática de que apenas se ajuda as pessoas sendo médico. Talvez isso fizesse sentido quando eu era nova. Esses tempos eram muito assim – padres, médicos, bombeiros, professores, eram os salvadores do mundo. Continuam sendo, mas agora sei claramente que qualquer profissão ajuda os outros, se bem intencionada.
A 24ª edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) ocorreu de 22 a 26 de julho de 2026 e alguns escritores e poetas convidados são pessoas que têm a capacidade de ajudar com as palavras. Não só pelo que escrevem, e como escrevem, mas também pela coragem do que dizem, do que defendem. Um desses escritores falou que no seu país, pessoas que matam, demoram a ser acusadas e condenadas, mas um escritor é preso logo que alguém interpreta o que ele escreveu como danoso aquela sociedade – mesmo que não o seja. Um escritor deixa de ser escritor e vira ativista, vira um agressor, quando as palavras são incómodas.
Olhem a importância de saber interpretar. Olhem a importância de se ser escritor. Olhem a importância de uma palavra, que se junta a outra, que formam uma frase, uma intenção, uma ajuda, uma direção, uma informação útil.
Existe uma interrogação permanente em mim que não sei se vou conseguir resolver antes de ir embora desta vida. E é esta: por que razão pessoas que crescem e vivem juntas desde a infância, no mesmo ambiente, são tão diferentes e pessoas que nasceram e cresceram em lugares tão diferentes, com histórias de vida tão diferenciadas, são tão iguais? Quase todos estes escritores se mostraram perto de mim e de muitas pessoas, já que a maior parte deles esgotaram os espaços onde foram entrevistados. Falas que abrem portas, falas que te mostram um outro mundo, bem diferente daquele que se apregoa nas redes sociais e mesmo nos jornais atuais. O que fala da família de um jeito que se sintoniza comigo. Outra que fala da sua forma de falar de si e de interagir com o mundo e novamente eu me vejo. Outra ou outro que desabafa sobre sua vida pessoal e que se percebe que está por um triz de chorar e isso é tão terno de se ver por que a pessoa está ali, livre e solta perante nós.
Hoje no mercado vi uma mãe jovem, com seu pequeno filho, tentando que quem está na caixa pagando suas compras, lhe pague algo. O discurso é de que precisa de algo para comer, mas tudo o que escolheu para comprar não tem nada a ver com fome porque tudo é venenoso para ela e para o filho. Quis lhe explicar que o doce que deu ao filho pequeno vai estragar os dentes e vai fazer mais fome por causa do pico de açúcar, mas Ana falou que não vale a pena, que ela nem vai entender. Como se aproxima esta mulher dos livros? Das palavras que ajudam? Como se ajuda?
Se não temos palavras para escolher comida saudável, mesmo sem dinheiro, como vamos ter palavras, pensamentos, reflexões para decidir o futuro do país onde vivemos?
Conheci há uns anos uma senhora aqui em Salvador que me espantou de alegria e felicidade. Ativa, risonha, brincalhona, impressionante. Estes dias o seu filho adulto e pleno de sucesso no audiovisual brasileiro, morreu. Seu corpo decidiu que era hora de parar. A luz vibrante daquela mãe mais que sensacional, se apagou. Como eu queria tanto que sua luz não se apagasse assim. Aconteceu a mesma coisa com uma amiga minha. Linda e sorridente sempre, destoava de todas as pessoas que eu conheci pela sua energia e luz. Um dos seus filhos era cinegrafista em Hollywood. As fotos dele estavam repletas de atores famosos do mundo inteiro ou personalidades como Cristiano Ronaldo, para quem trabalhava e com quem tinha amizade. Morreu num acidente de moto e a luz da mãe também se apagou. Da mesma forma. Como um curto-circuito. Uma explosão interna que destrói e deixa o sistema desligado. Parece que você passa a apenas sobreviver. E a recuperação pode demorar anos.
Que palavras ajudam? Como ajudamos a recuperar todo o sistema que foi consumido pela dor?
O país, a sociedade, as pessoas, que sabem utilizar as palavras como ponte para chegar aos outros serão os mágicos do futuro, os gênios do amanhã. Isso não nasce com as pessoas, necessita de treino – e muito. Treine, treine e treine, pelo bem do Brasil!
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Salvador Dali
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