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Nem o dia do Pai escapou


Nem o Dia dos Pais escapou da polêmica. Do nada, de uma campanha publicitária, saiu a discussão acalorada – sim, porque agora elas nascem do nada absoluto. E do nada absoluto, aparecem as cabecinhas machistas de papais e mamães, dando 1 milhão de palpites sobre se ser pai requer ou não a presença de pênis. Merece um Emoji de boca aberta, não merece?


Honestamente, além do fato de que um filho é feito com esperma e óvulo, sua criação não se faz através da combinação da energia masculina e feminina? E veja: minha mãe tinha as duas energias muito bem definidas para os momentos exatos porque meu pai morreu muito cedo e ela teve que dar conta de criar nós três. Ela não era um homem trans e fazia isso desde que eu tinha 9 anos – quando meu pai morreu.


Agora imagine uma mulher que se vê tão completamente masculina que assume todas as dificuldades apegadas e nascidas do preconceito das pessoas para se ver com a imagem de um homem. Faz cirurgias, toma hormônios. Alguém acha que uma pessoa faz isso por tédio? Divertimento? Ou é porque sente que é necessário para seu equilíbrio? E na sua criação, um filho precisa do pênis do pai para quê? Porque meu pai morreu e lá se foi o pênis. Minha mãe nem namorou mais. Se devotou a nos criar. E sendo mulher e viúva, e eu sendo hiperativamente inquieta, todos os princípios de moral e empatia foram passados. Nunca se chamaram assim, mas eu sabia sempre muito bem os motivos das minhas tardes sentada na poltrona da sala, de castigo. Ela me explicava. Depois de um tempo, nem precisava explicar muito porque nós sabíamos. Um pênis teria mudado o quê?


Que falsa utopia, essa, machista. Que discussão falsa. Ou ainda menos que falsa. Que discussão idiota.


Aí está o Dia dos Pais. É hoje. E são milhões de parentes entre filhos, pais, avós, tios que farão falta no mundo. Aqui no Brasil, cem mil, com certeza, precisam ser vistos, apontados, procurados, chorados e sobretudo respeitados. E se no Líbano, a perda veio de outras formas, no Rio vem em forma de bandidos de Jesus – um pênis nos salva de quê mesmo? Os bandidos de Jesus têm pênis. Seriam melhores pais que a minha mãe? Que um homem trans?


No dia dos pais e em todos os outros 364 dias: caráter, energia, firmeza, alegria, companhia, amor, disciplina, preocupação, dedicação não requerem nem pênis, nem vagina. Requerem que as nossas humanidades voltem a ter mais importância na nossa vida, para que as possamos dividir com a vida dos outros. Antes do pênis, preocupem-se em contribuir e acompanhar as pessoas quando seu caminho cruzar com o delas. Ninguém precisa ser Messias, ninguém precisa ter pênis. Um pouco mais de percepção e empatia, talvez.


Ao meu pai, que me levava pra comer ambrosia e pastel de feira e a minha “pãe” que quando ele morreu, não tinha dinheiro nenhum, pra nada – aos dois, o mesmo amor. À minha mãe, muito orgulho. Eu sei quem sou e o que faço porque ela me apontou o mundo e me ensinou a decidir. Tem muitos “filhinhos de papai” por aí que vão ficar devendo...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Desejo que consiga ser bom Pai na sua vida. Seu pai pode ser uma boa referência para você. Das coisas boas que fez e que você tenta ser capaz de fazer igual ou melhor. E das coisas que não resultaram assim tão bem, você aprendeu e tentará fazer diferente. Quem sabe, melhor. Claro que vai perceber que falar, apontar, é muito mais fácil do que fazer. Mas a vida é assim mesmo. Falamos, criticamos, mas é na realidade que mostramos do que somos capazes. Realidade de uma vida inteira. Basta um momento em que o nosso comportamento não seja adequado, nem justo, para que os filhos nunca mais esqueçam. É preciso cuidar. Mas também, quando o pai faz algo mágico, ficará para sempre. Basta um segundo, algo bem simples.


Organizações mundiais falam de paternidade ativa. Novos tempos. Ser pai passa a ter mais do que estes dois comportamentos: trabalhar para ter dinheiro para cuidar dos filhos e ser o disciplinador da casa. O mundo mudou. Ser pai é muito mais do que isso. É estar presente de forma ativa - não apenas fisicamente, é proteger sem sufocar, é dar liberdade sem abandonar. É ser alguém em quem confiar. Entre muitas mais coisas.


O comportamento do pai (e da mãe), é uma referencia eterna e permanente para os filhos. Mesmo quando são velhinhos, mesmo quando estão frágeis, são exemplo. Eles nos mostram a possibilidade de destruir barreiras, ultrapassar limites. Quando precisamos de quebrar barreiras que eles não conseguiram, elas são muito maiores e mais difíceis.


Um presidente ou primeiro ministro de um país é um pai também. Pai de uma nação. Algo cada vez mais raro.


Os professores são pais também. Para sempre. Professores que nos motivaram, que nos apoiaram em momentos difíceis na escola. Que nos aplaudiram em momentos de sucesso, avisando para termos sempre o “pé no chão”. Os professores precisam ser mais bem tratados e mais respeitados. No mundo inteiro. Não se maltrata quem cuida e semeia o futuro. Quem critica os professores poderia trabalhar nessa função um tempo. Uns meses bastariam para sentir na pele a importância e a dificuldade de ser pai (mãe) escolar. Onde se é tudo: testemunha das dores, tristezas, dificuldades, dos sucessos. E onde se tenta ajudar de todas as formas que se pode, fazendo milagres todos os dias. Literalmente.


Existem crianças que são deixadas pela manhã ainda dormindo e de pijama, na casa dos avós e retiradas no final do dia, já com banho tomado, leitinho da noite bebido, pijama. Prontas para colocar na cama. Por anos. Algumas dessas crianças acham que os avós são os pais, sem ninguém falar nada. Pelo que sentem, pela forma como são tratadas, pelo que vivem com essas pessoas. Pelo tempo. Algo a pensar...


Tem crianças que chegam na escola tristes, machucadas, traumatizadas, medrosas, inseguras, sem vontade de ir para casa no final do dia. Gostam da escola, do carinho que recebem, da atenção, de fazer parte, de serem respeitadas. Ali existem. Inventam atividades, se inscrevem em todos os projetos da escola, ficam assistindo o desporto escolar, a música, ocupam as salas de jogos da professora de matemática, por exemplo. Alguns até ajudam a senhora do bar. Se esses lugares têm bom ambiente, com regras, disciplina e respeito uns pelos outros, vão criar vínculos ali. São felizes. Começam pedindo para assistir, depois aceitam colaborar, depois colaboram sem se pedir, estão sempre disponíveis. Depois fazem parte totalmente e são extremamente confiáveis. Será que encontraram uma forma diferente de ter um pai?


Existem pessoas que vivem a vida toda, ou quase toda sem pai. Sentem essa dor eternamente. Sentem que foram prejudicados. Sentem um vazio. Sentem-se menores. Existem os que preferiam não ter pai, para não serem maltratados, nem viverem com medo, todos os dias. Existem os que “fazem” filhos e não são pais. Aparecem quando os filhos são elogiados, mas quando os filhos estão doentes, chamam as mães. Os que se vão embora porque apenas não querem “brincar mais”. Existem os que não conceberam as crianças ou jovens, mas que se comportam como pais. Exercem a paternidade ativa. Seres humanos que decidem dedicar a sua vida aos seus filhos ou aos filhos de outros que não cuidam, ou que morreram, ou que precisam de ajuda. Pessoas de bem, que têm o seu lugar no céu.


Existem discussões que ainda são muito primárias, infelizmente. Pessoas que precisam de mais tempo, de mais vida, talvez. Não sei. É preocupante ouvir depoimentos de pessoas que não conseguem ter uma visão do mundo como um todo. De respeitar o outro. Talvez precisem de ler e aprender um pouco sobre sociologia, psicologia, bom senso. Não sei. Sei que vão precisar de muito tempo para entender. E isso é preocupante. Enquanto esse tempo não acontece, crianças abandonadas e maltratadas demoram para ter um lar seguro. Pessoas que sabem ser pais, não podem sê-lo porque é considerado errado. Crianças que são maltratadas todos os dias pelos próprios pais, que sofrem em silêncio e ninguém pode fazer nada. Dá vontade de pedir ao tempo que acelere, que amadureça as pessoas rapidamente. Porque a vida não é teoria. Nem sempre a vida é programável, nem sempre é o que desejamos. Mas aceitar e fazer do que temos o melhor possível, talvez seja o maior dos nossos feitos. Parabéns a todos os pais do mundo, sejam eles quem forem. Desejo que cada um consiga ser bom Pai na sua vida.

Ana Santos, professora, jornalista

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