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“Moïse Kabagambe” Bug Sociedade


“AINDA HÁ O QUE DIZER”

Qual a diferença entre um refugiado e um imigrante? Os dois saíram de seus países e foram morar em outros, afinal. Mas os refugiados – o nome diz – precisam de refúgio porque estão em perigo. Perigo de muita coisa: de morrer, de ser sequestrado por milícias, exércitos inimigos, ser torturado, preso injustamente, ser violentado, esfaqueado, se ver sem direitos, ser espectador desesperado do estupro de suas irmãs ou mães ou namoradas ou filhas. Ser exposto à selvageria, ao primitivismo, ao preconceito e por eles ser massacrado.


O terrível, o insuportável é que ninguém fala, embora todos vejam: aqui no Brasil, os governos são tão péssimos que vemos o estado de primitivismo andando na rua, sem guerra nenhuma. Ou pior: talvez estejamos acostumadíssimos em viver na guerra. A guerra é o nosso lugar comum, o desrespeito é normal, o preconceito é a rotina.


Eu assisti as pessoas gritando JUSTIÇA, no Rio. Pela milionésima vez.


Isso não pode ser. Tem alguma coisa errada com a gente. Um sargento vê um homem negro andando no seu condomínio e não tem a mínima recordação, a mínima memória de que seu vizinho de muro é da mesma cor? Apenas pega seu revólver, mira e sai dando tiro? Mesmo andando na rua e VENDO que o Brasil é um país de mestiços? Parem com essa hipocrisia. Olhem em torno. Basta andar na rua. Mesmo o “Sr sargento super branco” pode fazer seu exame de sangue e vai estar lá que ele é mestiço. Então a quem estamos querendo renegar quando discriminamos? A nossa avó? De quem podemos ter vergonha, raiva, se viemos todos do mesmo lugar, da mesma história?


Um negro era muito pobre em tudo, menos na hora de falar. O irmão do refugiado morto, ao falar na TV, mostra que alguém gastou tempo e amor para lhe ensinar a falar e foi esse amor atencioso que fez com que a fala dele tivesse a força explosiva da decepção que mais me abalou. Falando em voz baixa, o refugiado, com sotaque, falava melhor que o bandido que nem um mísero cálculo de que as pessoas morrem ao apanharem assim, soube fazer. Relata o “alívio” da raiva. Sabem o que é isso? É não ter recebido em sua vida uma pessoa que gastasse tempo e amor com ele, o ensinando a resolver seus problemas falando deles e não reagindo como um terrorista bronco.


Os políticos não ligam. Estão concentrados em produzir e gastar bilhões em campanhas eleitorais. Que morra todo mundo. O senador “vá vendo Brasil” agora quer ser ministro. O presidente da Câmara quer dinheeeeirro, muuuito dinheeeiroooo... Enquanto isso, aqui na vida comum, ver TV às vezes é insuportável porque nós podemos ajudar, nós podemos contribuir, nós podemos compartilhar – mas nunca nos dão o espaço.


Se continuarmos assim, refugiados e nativos vão continuar sendo mortos num estalar de dedos, bem na nossa cara, todo dia. Porque são pobres ou negros ou mulheres ou gays ou simpatizantes ou porque bateram na traseira do carro ou chegaram na casa em frente, onde mora o maluco armado, que ainda por cima é militar ou por não aceitarem cobranças de alguém. Que dirá negão. Que dirá pobre. Que dirá gringo.


Chega de morrer. Chega de viver nesse sistema de desrespeito mútuo. Chega.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


“Moïse Kabagambe” Bug Sociedade

Olho o mundo, as pessoas e recordo o livro “Narciso e Goldmund” de Hermann Hesse. Pode-se viver intensamente e de forma semelhante ficando no lugar onde se nasceu ou saindo e vivendo em lugares onde não se pertence. Viver de forma artística ou de forma racional. De forma formal ou errante. Em ambos se sofre, se é feliz. Em ambos se pode cumprir o caminho.


Os indígenas consideram importante morrer onde se nasceu, como um ciclo que se fecha e deixando o espírito no lugar onde ele considera pertencer.


Os povos que têm tradições de emigração dividem esforços: uns ficam construindo no seu lugar enquanto aguardam a volta dos que foram para enriquecer, para viverem o fim da vida de forma confortável, juntos. Outra forma de ciclo que se fecha.


Tem os que saem e terminam seu caminho fora. Porque venceram e decidiram ficar noutro lugar, ou porque não venceram e não conseguiram voltar. É certo que quando ficamos, tudo nos é mais familiar, o bom e o menos bom. Conhecemos os ventos, a costa, o padrão. De alguma forma, existe uma sensação de amparo nesse lugar, da história que fizemos, os pais, os avós, bisavós, das alianças. Quando vivemos noutros lugares perdemos a mão do vento. Não sabemos mais como é. Seja o que for. Inicialmente nos toca o estímulo turista, aventura, desafio, descoberta. Chegamos com muita esperança, muita vontade de contribuir. Mas com o tempo percebemos que perdemos as boias, a bússola, a vela, a costa. Perdemos o rumo. Precisamos nascer de novo, aprender o básico de novo, como o amigo querido Sérgio, gentilmente me verbalizou um dia. Em cada passo tudo pode ser sensacional, mas tudo pode descambar. É estimulante, apaixonante, mas o abismo passa a te acompanhar bem de perto. Porque ali não tens história. Porque os que são dali podem ser generosos, mas podem não ser. E nunca sabes. Nunca saberás. Percebes a permanente fragilidade da vida e a proximidade do abismo. Ele vive colado em ti. Podes ter sobrevivido a dias numa balsa, a tráfico, a abusos, a fome, a maus tratos e, quando a tua vida parece caminhar para algum equilíbrio, vendendo cocos numa beira da praia do Rio de Janeiro, uma discussão, uma briga, um desacerto, transforma-te de novo em alguém extra ao lugar, passas a ser algo a evitar, a destruir, a esmagar, a matar. Estás só e fora de lugar, dois ou três contra ti são uma multidão. E três que se sentem donos da terra – esse engano. A vaidade cega da identidade e da pertença, enchem o peito de razão e de direitos cegos e eis que resvalas e és engolido nesse abismo colado em ti, à espreita, desde que és estrangeiro, migrante, refugiado. Aquele que trazia novidades e acrescentava, está se transformando no que não devia vir. No que vem tirar o que é nosso. No que me vai obrigar a aceitar que também posso aprender com ele? Não, não. Vamos intimidá-lo, assustá-lo, mostrar quem manda. Estimular a voltar para seu lugar. Impedir que consiga. A tragédia e o abismo não têm limites, muito menos os humanos os controlam. E em cinco minutos teu corpo não é mais a morada do teu espírito. E teu espírito não está no lugar onde nasceste. Não está em lugar nenhum, não és ninguém, não pertences a nada. Quem te matou também não sente nada. Não és nada para ele, nem vizinho, nem primo, nem amigo do sobrinho.


O que é o mundo? Como podemos descrevê-lo? Se estou doente o mundo está problemático? Se ganhei o euromilhões o mundo é um lugar perfeito? Pontos de vista, dependendo do país onde vivemos, do país onde nascemos, do trabalho que temos, do gênero que somos, da família a que pertencemos, da nossa cor de pele, da estabilidade financeira e profissional, da saúde. Cada um dos 5 continentes, um ponto de vista. Cada país, cada terra, cada casa, cada cabeça. Era tão bom encontrar um ponto de contato entre todos esses pontos de vista. Porque reagimos de forma diferente quando a mão vem aberta pedindo ajuda ou quando a mão vem cheia de dinheiro? Porque temos medo que nos tirem o que acumulamos? O incrível livro de Joan Didion, “Pensamento Mágico”, nos alerta para a realidade. Podemos morrer neste instante. O que levamos daqui? Apenas o que vivemos mas insistimos em ter, ter, ter e proteger esse ter.


O porteiro do prédio adormece. Coitado. Está cansado. O Uber tenta fazer viagens por fora para ganhar um extra. A vida está difícil, coitado, ele tenta sobreviver. Na porta do mercado e do aeroporto tem filas de homens oferecendo transporte, serviços. Coitados, cada um na sua luta. As pessoas vendem fruta no sinal. Coitados, vivem como dá. Um refugiado, um migrante, um estrangeiro pobre, não pode ultrapassar nem meia regra. E se ultrapassar uma regra as consequências podem ser duras. E mesmo, sem ultrapassar regras, se está no sítio errado na hora errada lá vem o abismo, o abismo, o abismo. Aprende o medo. O medo que aprendeu a nunca ter. Que sempre enfrentou. Com este novo medo viverá para sempre. Precisa aprender a viver com esses novos companheiros de vida – medo e abismo. Não pode cair em nenhum buraco, como o menino Rayan. Não terá um povo, como o Marroquino, a tentar salvá-lo.

Ana Santos, professora, jornalista

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