“FALSA CORAGEM” e “Onde está a saída?” Bug Sociedade
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Conto “FALSA CORAGEM”

Desde pequeno era massacrado com frases do tipo: “Se vier apanhado da rua, vai apanhar de novo quando chegar em casa”, “isso não é coisa de homem”, “não é brinquedo pra homem”, “engole o choro porque você é homem”, “se a menina deu mole você tem que pegar”. Ele se olhava ao espelho e se perguntava, sinceramente:
- Será que sou gay? Nada disso que meu pai me fala pra fazer na rua combina comigo... Eu odeio brigar na rua, aviso a “tia na escola”, quando os moleques pegam meus colegas pra bater, as meninas são minhas amigas, igualzinho aos meninos... Não dá pra eu olhar minhas amigas como se fossem buracos a serem preenchidos... de mim, por mim... pelo menos do jeito que meu pai fala, não tenho vontade nenhuma. E falar em “pegar”, em “comer”- sinceramente, não tem nada a ver.
Em casa, seu pai não parava de insinuar:
- Aqueles meninos da escola te chamaram pra sair, você não vai?
- Eu detesto eles, meu pai. Eles querem pegar minhas amigas à força e eu não sou assim. Eles vivem batendo nos menores, nos mais fracos.
Uma vez viu três meninos ao redor de uma colega de escola, que parecia lhe chamar com olhos suplicantes. Pediu que parassem de molestá-la. O resultado é que eles disseram que iam continuar e ele insistiu em seguir defendendo a garota. A coisa veio aumentando cada vez mais de temperatura até que ele se viu rodeado pelos garotos, cada vez mais ameaçadores. Se encostou na parede para não ser apanhado pelas costas – e gritou. Gritou como se sua vida dependesse daquilo.
- Tia! Socorro! Socorro!
Os meninos não esperavam que aquilo pudesse acontecer. O garoto não tinha medo de gritar, não tinha vergonha de ser visto assim. Ao contrario, mantinha seus olhos prendendo o olhar dos outros, sem medo. Era menino e não precisava bater, que estranho... muitas vezes diziam que o verdadeiro herói nem levantava as mãos. Ele era assim.
Chegaram as meninas e o viram, ali “mandando ver no alarme vocal”. Juntaram seus gritos aos dele:
- Socorro tia, bullying, bullying!
- Pega tia!
Uma ameaçou:
- Eu vou “caguetar” vocês, podem esperar!
A “coragem” dos moleques se esfumou por completo. Os que antes "pareciam fracotes", não tinham vergonha de “pagar mico”gritando – isso era encrenca feia para os valentões.
Foram todos flagrados. Os “ditos” frágeis tinham a vanguarda da informação, da denúncia. Uma das meninas chamou seu tio, jornalista. Bafafá geral. Juizado de menores. Reportagem. A coragem dos bullies acabou virando menino escondido, boné enterrado na cabeça, cara tapada pela camiseta.
Já o grupo “dos fracos”apareceu em todos os jornais – HERÓIS – diziam as manchetes. As crianças enfrentaram o perigo, denunciaram os culpados, colocaram em xeque o machismo, a violência escolar, o bullying. Mostraram que a comunicação vence tudo, o diálogo vence os “sequelados da violência”. Os ogros contemporâneos.
Os ex-machões? Ainda devem estar de castigo. Mas quem se importa?
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Onde está a saída?”
Um destes dias ouvi uma gravação da mulher do Presidente do Brasil, a Primeira Dama, nossa querida Janja, contando um episódio de violência que sofreu quando era jovem. É inacreditável como todas somos atingidas, cada uma do seu jeito, enquanto os homens que dizem que não são agressivos, ficam entristecidos e até chateados por generalizarmos. Mas como seria suposto falar? Fazer uma lista? Aquele, aquele e aquele? Mas já viram que a lista é interminável? Só aumenta? A lista de agressores, assassinos, estupradores, traidores, é cada vez maior? Exagero? Quem me dera estar a exagerar. Sempre estamos erradas, exageramos, somos esquisitas. Mas na era da imagem está difícil desmentir as nossas acusações e preocupações, não é? E mesmo assim sempre aparece alguém que diz que aquele, sim precisamente aquele é o seu melhor amigo e jamais seria capaz de tal coisa. Mas vocês conhecem os vossos amigos? De verdade? Acreditem, vocês não iriam gostar de conhecer o lado que conhecemos, esse lado sombra, sujo, podre, obscuro, demoníaco. O lado em que nos olham como se fossemos tudo aquilo que eles não conseguem ser, tudo aquilo que eles aprendem a odiar, tudo aquilo que aprendem a combater, tudo o que não admitem que exista noutras pessoas, principalmente em pessoas do gênero feminino – e aprenderam isso no mundo, porque não é um que pensa assim, são milhares e milhares. E eu nem quero pensar que você, sim você, defende seu amigo porque é igual a ele. Porque aí eu perco a esperança e eu não a quero perder.
Meu namorado é igual. Igualzinho, zinho, zinho, zinho. Imagine só que quem quis namorar comigo foi ele. Eu o achava engraçado, mas não queria namorar, queria liberdade. Éramos bons amigos e isso me chegava. Não sentia nada mais do que amizade. Mas ele não me deixava em paz, nem aos meus amigos, nem à minha família, enchendo os ouvidos de todos com a vontade de namorar comigo. Insistente de tal forma que todos me enchiam a cabeça com o menino que me amava muito e que eu não o podia deixar naquela situação. Não devia ter ligado a esses comentários. Chegou a um ponto que se eu não aceitasse iria perder a sua amizade, iria ter de explicar à minha família, aos meus amigos porque eu não queria namorar e com 18 anos e ainda sem nenhum namorado conhecido pela família, isso ia virar uma coisa esquisita. Tão esquisita que eu não queria ter esse problema. Vamos lá namorar o cara – pensei. Pois esse cara que me perseguiu até eu dizer sim para namorar com ele, tornou-se rapidamente um traidor. Eu fui percebendo que ele me enganava com outras mulheres, mas não podia dizer nada porque ele não admitia sequer o início da conversa. Eu não queria dividir namorado, muito menos namorado que quis vir com aquela vontade toda atrás de mim, e depois, com a mesma vontade, foi atrás das outras. Fui entendendo que aquele não era meu lugar, nem meu companheiro, mas também não estava interessada em criar barraco porque sabia que se fizesse dessa forma, ele me deixaria envergonhada perante os amigos e a família. Sim, é que a família foi toda conquistada por ele. Muito comum aliás. Talvez com você também tenha acontecido igual. Na frente de todos, o exemplo, mas na verdade, o traidor profundo.
Eu sabia que teria de encontrar uma forma diferente de me separar, mas nunca descobria a ideia melhor para resolver aquela situação. Se não fizesse da melhor forma, ele podia ser agressivo, talvez até me matar. Ele falava isso de outras mulheres, quando estavamos sozinhos. Eu fazia de conta que não ouvia, mas estava bem atenta.
Porque nos procuram se depois não nos respeitam, se depois nos tratam como mercadoria? Qual a nobreza que existe nisso? Querem um cachorro? Comprem um. Porque querem um cachorro, mas colocam a mulher nesse lugar? Não conseguem ficar sós. Aprendem que ficarem sós significa que não prestam. Imagina só!
Eu tive um colega de trabalho que gozava toda a gente que era solteira ou divorciada. Eu achava aquilo tão feio. Um dia a mulher pediu o divórcio e ele se acabou. Me disse um dia que não sabia como ia aguentar viver sozinho e que gozava com todos os solteiros e divorciados porque achava sempre que eram pessoas que não prestavam já que ninguém as queria e agora tinha vergonha de estar na mesma situação. Eu perguntei onde estava a vergonha e lhe falei que ele estava muito enganado. Essas pessoas não estão “estragadas”. Na verdade, essas pessoas é que sabem o que é melhor para elas e não querem saber se é feio ou bonito estarem casadas, solteiras, divorciadas. Querem apenas ser felizes e se é sozinhas que ficam felizes, que seja.
Peraí que esta conversa, comigo mesma, me deu aqui uma bela ideia. Todos meus colegas de faculdade aceitam fazer ERASMUS – um ou mais anos da faculdade em outra faculdade de outro país da Europa - menos eu. Nunca o fiz porque sabia que ele não ia gostar. Vou me candidatar. Minha família vai ficar feliz e aí eu terei a família do meu lado na hora de me separar por causa da distância. Fico por lá, num país bem longe, procuro trabalho vou ficando. Até ele me esquecer. Sim, se eu ficar bem quietinha, noutro país, fazendo o trabalho de estudante, sem redes sociais, silenciosa, talvez dê tempo dele se decidir por outra pessoa.
O celular está tocando. Deixa ver quem é. É meu pai. Até é bom falar com ele para o informar que vou me candidatar a ERASMUS.
- Oi pai
- Onde você está filha?
- Estou saindo da faculdade, aguardando o ônibus para ir para casa.
- Venha, venha filha. Seu namorado está aqui. Pediu sua mão em casamento, eu e sua mãe já pensamos em tudo para a cerimônia, precisamos que venha para abrirmos a garrafa de champanhe que eu tinha guardada esperando este momento. Vamos fazer um anexo aqui em casa para vocês, até terem dinheiro para fazer a vossa própria casa. Mas não se preocupem que podem ir ficando, principalmente porque será mais fácil para ajudarmos na criação das crianças. Vem filha, vem...
- Pai, preciso falar com o senhor.
- Sim, ok, falamos aqui. Venha filha, falamos aqui, além disso seu namorado já é de casa e pode ouvir também o que você tem para dizer. Venha...
Desliguei sem falar uma palavra. Eu fiquei com a vista um pouco turva talvez, porque tive a sensação que o ônibus estava travando, por isso avancei para a rua para ir para casa a pé, mas ele não estava travando. Me apanhou em cheio. Voei 100 metros. Não percebi nada porque apaguei, mas não morri. O senhor que me socorreu diz que eu falava com ele coisas estranhas sobre um namorado e um casamento, mas que o que interessava era que eu me mantinha viva. Fiquei em coma meses. Um dia abri os olhos, do nada. Estava do meu lado o senhor que me socorreu. Me visitou no hospital todos os dias. Fiquei sem as duas pernas. Demorei a aceitar, a me adaptar a essa nova vida, mas ele me ajudou muito. Viramos bons amigos. Lhe devo a vida e ele diz que eu lhe devo a dele porque estava sozinho, deprimido e sem vontade de viver quando aconteceu o meu acidente e ele se sentiu impelido a ajudar-me.
Devem se estar a perguntar o que aconteceu com o namorado, o casamento. Não se perguntem. Imaginem. Eu fiquei estragada, como ele ficaria com uma mulher sem pernas? Isso não é bonito para se mostrar e além disso eu preciso de muita ajuda. Não sou a mulher empregada que ele esperava. É isso amigos. Nem sempre temos a resposta, mas a vida tem. Sempre.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Marino Marini
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