“EXISTE VIDA REAL PARA ALÉM DO MARKETING” e “Relógios que não batem certo" Bug Sociedade
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“EXISTE VIDA REAL PARA ALÉM DO MARKETING” Bug Sociedade
Estamos vivendo bizarrices. Coisas que são feitas sem nenhuma responsabilidade. Se o marketing vende, não importa nada a qualidade do produto. Se repetem receitas, palavras. Espantosamente, li o que aconteceu com a menina que foi jogada sem corda de uma atividade chamada rope jump – a cobertura não fala palavras como irresponsabilidade, falta de preocupação com a vida de quem está te pagando; ninguém fala que precisamos perguntar e reperguntar por que essa geração precisa de tanto hormônio ocitocina pelo corpo, como se a nossa vida, a nossa auto proteção não tivesse importância nenhuma. Tudo cada vez mais radical, quando nos desenvolvemos milenarmente através da vida coletiva e colaborativa. Da troca de ideias, do pessimista falando com o otimista.
Da mesma forma – lá está o marketing de novo – venderam-nos uma seleção brasileira que na vida real é horrível. Estou doida ou o Neymar – escalado ou não – se não está no banco apenas não está no banco, não pode ocupar aquele espaço e pronto. Quem falou, em nome de quem ele fica fazendo pose, enquanto os outros jogadores estão se aquecendo? Que espécie de palhaçada é a gente ouvir o nome “preparação para a Copa” quando nitidamente não tinha ninguém preparado porque não havia conjunto nenhum e seleção, amigos, é conjunto?
Marketing é apenas o papel de embrulho – pode até ser de presente – mas é papel de embrulho, só isso. Quem disse, quem pode acreditar na invenção de que o marketing é produto, se ele só embrulha o produto? Quem quer a sacolinha onde vem o IPHONE, ao invés do IPHONE? Quem quer uma seleção sem jogada, um rope jump – todo filmado – mas sem corda? Quem quer se colocar ao lado de um tubarão pra não perder a selfie? Quem está pagando pra ser idiotizado?
Temos que dar um basta nisso. Já. Minha dentista tem provas de prótese dentária da cor de dentes de leite e a gente vê diariamente adultos que pedem – e pagam – pra que seus dentes sejam destruídos e eles coloquem próteses de dentes brancos – igual a cor dos dentes dos cachorros – brancos – pouco orgânicos, excessivamente, anti-naturalmente brancos.
Reestruturações faciais que dão errado e tudo bem também. O médico errou, isso basta. O dentista deveria ter feito mais algum curso. Ou ainda mais irresponsável: o consumidor entregou seu rosto, seu corpo a um curioso qualquer que fez uma “oferta irresistível na internet”. E ele, sem critério nenhum, aceitou. Uma plástica de “balaio de loja popular”, senhores.
Também acreditam quando um influencer criminosamente lhe promete rios de dinheiro se jogar no tigrinho. Isso enquanto aposta a comida, a casa, seu futuro, achando que algum cassino vai ter prejuízo só porque você vai quebrar a banca!
Chega de marketing. Ele e a tela girando sem parar, o scrolling infinito, a mente totalmente idiotizada... e os deputados vendidos nunca colocam uma regulamentação para as redes em votação, enquanto na Inglaterra ninguém menor de 16 anos pode tocar num celular, nenhum adulto pode usar a tela perto de crianças. O que estamos fazendo no Brasil? Não é partido, não é liberdade de expressão – é perder pessoas para esse “oops” que está cada vez mais inadmissível. São vidas. Isso deveria bastar, mas no Brasil nada nunca basta.
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
“Relógios que não batem certo" Bug Sociedade
Tem uma coisa diferente nas pessoas que atravessaram alguns patamares – de dor, de sacrifício, de perda, de fome.
“Pepe Mujica, atingido por 6 tiros, preso quatro vezes, passou quase 15 anos detido (1972 a 1985) durante a ditadura cívico-militar no Uruguai. Mais de 11 desses anos foram passados na solitária, muitas vezes em condições desumanas e insalubres, chegando a ficar confinado no fundo de um bebedouro para cavalos. Sofreu tortura e ficou sem acesso a livros por sete anos. Em momentos de privação extrema, foi forçado a comer sabão, insetos e papel higiênico para sobreviver” (texto retirado do google). Todos vimos o ser humano extraordinário que era, seu tom de voz gentil, um olhar e um sorriso muito particulares.
Nelson Mandela, 27 anos preso por lutar contra um sistema racista e violento, por defender a igualdade de direitos entre brancos e negros. A condenação tinha sido de prisão perpétua. Antes de ser preso, andou vários anos fugido, escondido. Todos vimos a sua capacidade de perdão, sua generosidade, seu tom de voz, seu olhar, seu sorriso.
Estes são dois casos muito conhecidos, mas existem tantas histórias parecidas ou piores. Quantas pessoas passaram e passam, neste exato momento, por provações terríveis?
Dizem que o que não nos derruba nos torna mais fortes.
O que significa nos derrubar? Significa nos tornar vingativos? Agressivos? Significa morrermos? É isso “derrubar”?
E nos tornar mais fortes? Significa ficarmos com mais músculos? Ou com aquela paz, aquele olhar, aquele sorriso, que talvez signifique que aprendemos que não temos capacidade nem poder para impedir a imensidão de coisas que nos podem suceder, nem impedir o mal e os maldosos com quem podemos ter a infelicidade de nos cruzar? Ou talvez que nos resta apreciar os momentos bons, que nos resta seguir, aproveitar todos os segundos bons. Sem nem olhar para trás.
Todos já passamos, estamos passando e ou vamos passar por momentos nebulosos, momentos em que não vemos saída, em que não nos sentimos com energia para os enfrentar, em que parece nosso fim, em que parecemos incapazes, fracos, em que as dúvidas chegam como uma onda. Quantas vezes foi atingido ou atingida por esses momentos? Quanto tempo demorou esse sufoco? Encontrou saída? Ficou com efeitos colaterais? Traumas? Feridas? Já olha para tudo isso em paz? Já sorri, com o sorriso de Mandela? De Mujica?
Sempre ficamos presos ao tamanho das situações – muitos anos preso, número de tiros, etc. A violência contra a mulher por exemplo, tem patamares que não são mensuráveis a olho nu. Sempre existe uma humilhação, uma inferiorização, um jogo pque procura o descontrole mental da vítima. Muitas mulheres sofrem por anos com um determinado homem, até se conseguirem separar, ou conseguirem fugir ou até se matarem. Tudo mantido em segredo, ou tapado com mentiras da família, dos amigos e até da comunicação social. Isso facilita que outras mulheres, sem se darem conta, entrem na mesma cilada. Isto é um ciclo de anos e anos, décadas, vidas, gerações, até que uma, uma dessas mulheres, aceita destruir sua reputação, sua vida, sua estabilidade, sua saúde mental, enfrentando esse cara e tudo o que ele a fez sofrer. Estes caras, normalmente têm muita experiência, muita frieza, têm muita gente a quem podem recorrer, controlam a comunicação social – o horror dos horrores. Um ator português, de novelas, que durante muitos anos foi considerado o galã português, foi finalmente acusado de violência doméstica. Ontem. Acontece que é pena suspensa de 3 anos. Ou seja, nada. Aquilo que ele diz que não faz, vai continuar a fazer, livre e solto. É extraordinário como tudo acontece na frente dos nossos olhos e parece estar tudo bem. É um caminho sem fim. Um ator de novelas, no Brasil, muito famoso, tem tido várias acusações, e os procedimentos parecem semelhantes – a culpa é sempre de quem acusa, mesmo que seja mais do que uma mulher a fazê-lo, mulheres que nem se conhecem e que descrevem os mesmos comportamentos, e o mesmo silêncio de alguns meios da comunicação social – provavelmente, sei lá eu, os canais de comunicação social ou produtoras que ganham dinheiro com eles - atores de novelas e de filmes. Se falarmos de jogadores de futebol, de tênis, das modalidades que quiser e em que o dinheiro roda com muitos zeros, é igual. Os próprios clubes por vezes também os protegem, seus empresários, canais de comunicação social – a preocupação é manter o negócio e lucro que roda em volta daquele nome.
Ontem, também, o Tribunal de Sintra, em Portugal, condenou, o agente da PSP/polícia Bruno Pinto a três anos e meio de cadeia, com pena suspensa, pela morte de Odair Moniz, afrodescendente, ocorrida em outubro de 2024, no bairro da Cova da Moura, na Amadora. O que a maioria das pessoas vê como um crime racial, vira nada. O coletivo de juízes deu como provado que Odair não tinha uma faca quando foi alvejado, mas considerou que a pena devia ser "especialmente atenuada".
Não sei o que é a justiça, nem a honestidade. Não sei onde estão as ações certas... Não sei se existem.
Bárbara Guimarães, a melhor apresentadora de Portugal de todos os tempos, foi emocionalmente destruída, e com isso, perdeu toda a sua capacidade de trabalho, ao ter a coragem de enfrentar seu agora ex-marido violento – ex-marido que tem um currículo poderosíssimo e enorme controle dos canais de comunicação social.
Precisamos de passar 27 anos presas ou presos? Precisamos levar com tiros, passar 11 anos na solitária? Por que é preciso atravessar um calvário para sermos considerados pessoas de bem? Para nos darem razão?
Por que quem assiste, fica calado, baixa a cabeça, diz que “é assim”? Por que não mudamos?
Ser humano por vezes parece ser nada.
Os últimos estudos sobre saúde e longevidade dizem que é importante ter vínculos – amigos, família. E eu pergunto, mesmo que o meu marido seja violento? Aguento para não perder os vínculos com a família toda? Porque ninguém vai ficar do meu lado, quando eu acusar meu marido bom e belo e simpático e perfeito. Tem algo nos estudos sobre saúde e tem algo na justiça que não bate certo. A vida dos seres humanos não bate certo. São relógios que não estão batendo certo. Estão atrasando, avariando. Visitas aos relojoeiros precisam-se...
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Salvador Dali
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