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"Aventuras de Robespierre, o porco espinho", capítulo 4


Capítulo 4

Quem gosta de nós de verdade, já pensaram nisso? Nossos pais e sobretudo nossa mãe – no caso das pessoas lá de casa, a gente viu a nossa mãe se desdobrando porque nosso pai morreu muito, muito cedo. Mas dentro desse gostar, sempre houve um espaço pra gente falar – pelo menos eu gastava bastante o meu espaço de discordar e pedir explicações. Robespierre nunca vai aprender a fazer isso. Nem Renée. Nem Descartes. São bichos e bichos não falam nada. apenas convivem conosco e todas as coisas mal feitas que fazemos e depois insistimos em explicar. Como se “colasse”...


Tem muitos pais assim.


- Você vai porque eu quero, porque sim, porque as pessoas vão comentar se você não for.

Agora eu pergunto aos pais todos do mundo: O fato das pessoas falarem e comentarem e fofocarem e serem maledicentes e abusivas, muda o fato de que muitas vezes as crianças têm seus motivos e precisam de um pequeno espaço pra tomarem coragem e colocarem as coisas em palavras?

- Essa é a regra e você sabe que não pode fazer isso, aquilo e aquilo outro também! Mas se existem regras que incluem crianças e adolescentes, não deveriam haver regras que todos obedecessem? Todos? Não é só: se você mata ou rouba é criminoso (e tem muuuita gente importante no mundo que “pula” a regra “não pode desviar dinheiro”, por exemplo), mas regras do tipo, se você se sentir doente precisa ir médico, as famílias precisam falar sobre vida e morte com seus filhos, se os exames dos adultos saem alterados, eles precisam se unir e fazerem coisas saudáveis juntos.


Eu não conheço muitos pais que façam isso. Na verdade, os pais reclamam com os filhos, mandam neles bastante e acham que estão conversando. Você ouve muitas ordens e indiretas: “se você tivesse estudado, se você fosse organizado, todos falam que você é gordo (e gordo nem se deveria dizer É, mas sim ESTAR porque é uma coisa completamente reversível se você estiver estimulado, por exemplo).


Os adultos adoram ser inflexíveis e fingem que as crianças estão teimando porque não querem o desconforto que muitas conversas honestas podem gerar. Aí se xingam, como se isso adiantasse alguma coisa. Ficam inimigos do Facebook. Se deletam.

Mas lá vai uma verdade incômoda, adultos: Temos muitas florestas no Brasil, mas muitas estão queimando. Por quê estou me referindo ao Brasil, se podia estar juntando a Califórnia, a Austrália ou Portugal no assunto? Porque os nossos incêndios não acontecem porque caiu uma chuva de raios ou porque alguém fez alguma besteira – os nossos incêndios acontecem porque alguém foi lá e tacou fogo. E se você quebra uma coisa importante do seu pai sem querer, é justo aguentar um esporro e um castigo; mas se você quebra por querer... Aí a coisa muda totalmente...


Robespierre é um porco espinho órfão. Eu queria muito dizer que a mãe dele morreu de velha ou enfartou ou foi pisada por um cavalo. Mas isso não costuma acontecer. Ou quase nunca. Eu nunca ouvi falar, pelo menos. Alguém então foi lá na serra de Petrópolis e tacou fogo no mato. Não sabemos se foi sem querer ou de propósito. Mas no Pantanal foi de propósito. Na Amazônia é de propósito. Lá tem tantos bichos, que o mundo chama esses lugares de santuários. Que nome... Santuários...


Mas tem indígenas do Brasil. Nossos amigos que são os guardas das florestas. Eles olham tudo, tomam conta de tudo. Tem muitos índios que estão presos lá dentro do fogo. Também estão presos dentro do ataque dos vírus porque inventaram tantas regras inúteis pra eles terem água, terem remédio... esses adultos deveriam ser colocados no meio da floresta em chamas pra sentirem medo. Porque eu tenho muito medo que as crianças vejam os filminhos de Robespierre, Renée e Descartes, mas algum dia eles não existam mais porque nós, os adultos terríveis, acabamos com tudo.

Mas existem adultos legais em muitos lugares. Mas precisamos de todos, das crianças e dos velhos. Nos ajudem e gritem por socorro pelo mundo. Temos muitas pessoas, mas não cuidamos muito bem delas – nos ajudem e gritem por socorro pelo mundo. Temos vírus e não os queremos porque eles nos adoecem, matam muitos e nos separam de todos os que amamos. Nos ajudem e gritem por socorro pelo mundo. Nos ajudem a nos salvarmos. Nos ajudem a nos educarmos e prevermos.


Robespierre, Renée e Descartes vão crescer mais um pouquinho e quando cair uma chuva boa para os lados da serra, lá no Rio de Janeiro e ele estiver mais crescidinho, minha irmã vai pegar a caixa de papelão, os seus amigos protetores de animais e todos juntos vão levar o porquinho para que ele entre na mata e siga seu caminho com aventuras, passeios seguros na floresta, uma namorada, um casamento e uma família. Os gambás gêmeos também. Mas nós, os adultos e a nossa incapacidade de ouvir, precisamos de ajuda...


Tomem coragem. Falem. Perguntem. E “porque sim” e “porque não” e “porque eu quero” ou “porque eu não quero” são inutilidades que os adultos tentam passar de pai pra filho. Ignorem solenemente. Perguntem de novo.


Agora então é minha vez:

- Socorro, crianças! Socorro! A Terra não pode morrer! Conversem com seus pais!

FIM


Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


O Bug Latino agradece a gentileza da AnimaVida, em ceder as imagens. Muito gratas.


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