“ATÉ TU, SUPREMO?” e “Não é por aí...” Bug Sociedade

“ATÉ TU, SUPREMO?” Bug Sociedade
Quem diria que eu teria alguma coisa em comum com um Ministro do Supremo – a oratória. E já começamos discordando: oratória para mim, ao contrário do curso que ele ministra, não é arte; nem passa perto de arte, aliás: oratória é estudo e treinamento. E uma das primeiras imersões é mesmo na filosofia porque oratória lida diretamente com os pecados da vaidade e do orgulho ao redor do falante – do orador. Por isso mesmo que comparar com arte, faz com que a gente se distancie da nossa verdade interior, ao falarmos. E qual seria a verdade? Aristóteles falava em generosidade do falante para com o ouvinte, a preocupação genuína de quem fala, na tentativa de alcançar e satisfazer o que o ouvinte ainda não sabe. Passar o conhecimento, a realidade.
Eu tento ser fiel a isso. Mas pensando na alma que está no livro A Poética, de Aristóteles, como consigo nomear o que o Ministro Mendonça “ordenou”, ao claramente fazer “uma interpretação própria, particular” e totalmente distanciada da lei vigente no País?
Os juízes, desembargadores, policiais, promotores, procuradores precisam olhar temerosamente para a vaidade e o orgulho.
Ah! E o poder.
Então ele achou que poderia tomar o lugar do chefe da investigação e de juiz ao mesmo tempo? Achou que poderia ter um “pelotão particular” de policiais federais, pondo-se contra quem o avisava que estava agindo de forma irregular? Não lhe parece totalmente irregular sair do lugar de juiz para aparecer no telão de igrejas evangélicas, durante o período eleitoral, na presença de candidatos? Não lhe incomoda ser apontado como “terrivelmente evangélico”, ao invés de justo?
Aliás, não seria preciso parar o barco chamado Brasil e começarmos a recordar que oportunidade é uma coisa totalmente diferente de “aceitar favores” que podem ser facilmente confundidos com corrupção? Que não é “status” ganhar e usufruir de passagens em jatinhos particulares de empresários? Que pensar em misturar encontros com investigados, ternos que foram ou não dados como presente, cursos de milhões sem licitação, deveriam embrulhar estômagos, ao invés de serem vistos como “melhoria de status”?
Aristóteles dizia que “para além da honestidade, o homem público precisa também parecer honesto”. Mais do que honesto, ele precisa parecer honesto…. Bem diferente de: posso mentir se todos acreditarem que é verdade…
Há um momento em que precisamos admitir que há um grande erro. São bilhões demais, é confiança demais desse Vorcaro em pedir e conseguir que se “drible” a Polícia Federal do Brasil – porque não é a polícia do Diretor, é a Polícia Federal do Brasil. BRASIL.
Aliás, de novo: alguém pensa que todos recebem seus salários graças ao povo brasileiro? Graças ao nosso trabalho que paga os impostos, que pagam essa gente toda? Que é a nós que todos deveriam respeitar? Que há aqui um sistema de justiça e que é graças a ele que os golpes de estado falharam? Quantos deputados respeitam o povo? Quantos apenas “lacram”? Quantos “monetizam” às custas dos que lhes dão visualizações cegas, ao invés de fiscalizá-los? Quantos estimulam os ódios, enquanto nos roubam a verdade? Dos fatos reais? E quem disse que a verdade pertence a algum partido político?
É uma vergonha isso. Ver a bandeira americana no lugar da nossa. Ver fugitivos da justiça falando em ver no Brasil, terra arrasada, como forma de vingança. Ver um Ministro do Supremo se perdendo de seu lugar por vaidade, por orgulho. Por se deixar cegar pelo poder. Ele já deveria ter descoberto que, independente de quem o indicou, ele foi alçado à posição de Ministro do Supremo Tribunal do Brasil. Do Brasil. BRASIL.
Ele está num lugar muito maior do que imaginou, ao aceitar ocupá-lo. Que pena.
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
“Não é por aí...” Bug Sociedade
Estou tentando escrever este texto enquanto o prédio vizinho tem uma festa acontecendo. Aqui em Salvador, uma festa acontecendo, seja em prédio, seja na rua, seja pobre, seja rica, tem música, muita música e som muito alto. Parece que o Carnaval nunca termina. Imagino que seja um sinal de alegria e felicidade todo este ruído, mas meus ouvidos e meu cérebro não se acostumam, principalmente quando estou trabalhando. Como no Bug Latino trabalhamos diariamente, estes ruídos perturbam diariamente. Me dou conta que não é por ser música, mas por ser música com letras machistas, sexuais, bem desagradáveis. Não entendo como existem mulheres que cantam junto, dançam junto e ainda rebolam ao ritmo. São letras degradantes para qualquer mulher e eu diria que são degradantes para qualquer homem igualmente. Normalizam comportamentos de poder dos homens sobre as mulheres, nas relações, mas com letras e significados que nem é possível colocar aqui. Horrível! Imaginem isto num prédio de gente rica, com suas profissões de advogados, médicos, etc. Custa ver e ouvir isto. Dói. Isto atrapalha muito a travessia contra o machismo, puxa vida!
Aí, a coisa já está difícil, quando começo a pesquisa e dou uma olhada no Youtube, ainda me aparecem, como sugestão, 4 jogos, com a seguinte frase: “Jogue quando quiser, sem download”. Minhas pesquisas nunca incluem jogos, eu nunca joguei nem vou jogar, de onde saiu esta proposta? Que algoritmo foi este mesmo? Um dos jogos tem o nome de “Simulador de Evolução”. Nunca eu vou entrar. Melhor mesmo tentar evoluir sem jogo. Será que não existem mais estímulos saudáveis à nossa volta? É muito preocupante!
A Avestruz esconde a cabeça na terra para fugir do perigo.
Será que esta barulheira pretende o mesmo resultado? Fugir das diferentes opiniões – e bem opostas – sobre quem deve vencer as eleições? Os desentendimentos e o diferente ponto de vista sobre imensos assuntos, em cada lado, é brutal. E não vejo vontade de ninguém para encontrar um entendimento. Principalmente da extrema direita. Os problemas são vistos de forma oposta e assim vão ficar, só que são assuntos que se movem no tempo e na vida de cada um por isso precisam ser falados, enfrentados e resolvidos da melhor forma para todos. Mas como se faz isso? Nas vacinas é assustador porque basta uma parte da população não se vacinar para que não seja suficiente que a outra parte o faça. O machismo vai pelo mesmo raciocínio porque enquanto existir um machista, todos vamos sofrer as consequências desses comportamentos. O mesmo em relação à misoginia, homofobia, aporofobia, etarismo ou ageísmo, racismo, ... Basta uma pessoa pensar “errado” para deixar semente, para envenenar, para abrir de novo a possibilidade.
O Brasil é um país complexo, pois diverso. Sempre fico no mesmo ponto: são poucos os líderes e muita a terra, muito assunto, muitas pessoas para gerir. Um governador é insuficiente para territórios como o da Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo. Um presidente para liderar um país destas proporções também é insuficiente. Imagine, por exemplo, uma família com 20 filhos. Uma alegria sem dúvida, todos crescerão saudáveis, “cascudos”, mas não existe tempo para dar atenção a todos, da forma que cada um merece e precisa, para o seu desenvolvimento poder ser completo e maximizado. Se um filho fica doente, outro muito doente, outro tem um acidente grave, outro é raptado, etc, como se consegue dar a atenção devida a cada situação de cada um? É impossível. Por isso vemos que os problemas dos mais invisíveis, demoram a ser resolvidos ou nunca são resolvidos. Quanto mais pessoas liderarem, mais atenção se pode dar às pessoas e aos assuntos. Vejam o exemplo do esporte: antigamente um treinador fazia tudo, mas agora tem um time em que cada um se ocupa de uma área. Tem sempre o principal, mas é hora de aumentar as especialidades e os sub líderes, não para gastar dinheiro, mas precisamente o contrário – para otimizar tudo e todos. Continuamos a precisar de meses e de dezenas de telefonemas e pedidos para colocar uma simples tampa de concreto numa calçada. Continuamos a necessitar de anos para resolver um grave problema de esgoto, de poda de árvore, de manutenção de piscinas, nos prédios dos bairros ricos. Continuamos a ter os mesmos conseguindo os melhores empregos, os melhores salários, as melhores oportunidades. Continuamos a ter pessoas aguardando anos por um exame ou uma cirurgia. Continuamos a não conseguir melhorar a educação, a formação e a saúde mental das pessoas, com tempo, carinho, informações regulares. A educação continua a ser uma competição, um lucro, um número para mostrar nas candidaturas. Não é por aí...
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Pollock
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