“AS PALAVRAS E SEUS PODERES EXTREMOS” e “Salva pelo signo?” Bug Sociedade
- portalbuglatino
- 30 de jun.
- 6 min de leitura

“AS PALAVRAS E SEUS PODERES EXTREMOS” Bug Sociedade
A TV expõe, sem pena. Jogadores que fazem parte de uma seleção feita para ganhar milhões de marketing – atualmente olho para o time e não consigo ver o verdadeiro motivo de estarem ali juntos – seria nos representarem. Representarem o Brasil, nossas mazelas, mas também nossos ideais e garra.
As palavras. As que despertam em nós dores profundas porque são críticas, ofensivas, impactantes e impacientes. Ou que tentam nos retirar coisas – sentimentos, dinheiro, sonhos. Essas palavras pertenciam aos bandidos e todos os seus gatilhos mentais – sua mãe foi internada e precisamos de adiantamento, você ganhou sua causa na justiça, sua família vai ser morta se o resgate não for pago, quebre os dentes do jornalista e faça passar por assalto. As palavras.
“Eu não conheço” vira eu conhecia profissionalmente, que vira irmãozão, desculpa te cobrar esse dinheiro.
Ou: Eu estou tranquilo, a polícia vai fazer as investigações, o evento era jurídico, corporativo – esquecendo que jurídico ou não, há coisas que não se aceitam porque ser deputado não é uma forma de status, mas sim uma forma de servir ao povo de um País.
Talvez como os jogadores também, os políticos cometam os mesmos erros. É. Talvez.
Há esse “descazinho” que desfaz a importância de aparecerem milhões num saco de lixo dentro do armário ou jogados pela janela, escondidos em paraísos fiscais, em fundos privados, hotéis, aviões, malas. Afinal, quem anda de jatinho se sente tocado pelo status, vira importante. Responsabilidade diante de funcionários, povo, pacientes nem pensar.
Há as palavras que cegam e que começam sempre com a princesinha do papai, rei da casa e que acabam em festas de milhões, compras de cargos, empregos, carros, mimos, mentiras. E há as palavras que atacam e desvalorizam a pessoa humana, usadas em julgamentos como o de Mariana Ferrer, onde vídeos da audiência de instrução chocaram o país ao mostrarem-na sendo duramente hostilizada, humilhada e tendo sua vida pessoal e profissional exposta pelo advogado de defesa do réu, sem a devida intervenção do juiz ou do Ministério Público. Também as palavras do companheiro ou companheira que incriminam enganos cometidos conjuntamente, como a mais alta traição ou incompetência-mor. Que rasgam, acusam, mas não ajudam. Dizer “você não sabe fazer nada”, de agora em diante você deve me mostrar tudo o que for fazer para que eu organize, você não é capaz, está tudo em cima de mim são como bombas. Ah, mas as pessoas não ligam a mínima. São como os americanos – bombardeiam e pronto. Se sentem felizes com seus petardos ofensivos.
A destrutividade das palavras precisa ser objeto permanente de estudo. A crueldade com que são escolhidas também. E cada vez o marketing parece ser o papel de embrulho que transforma produto humano em lixo, mentira ou em palavras doces como pós-verdade (?), erro em incompetência, humanidade em estupidez.
Ah, as palavras... Não à toa colocam Neymar como o melhor jogador do Brasil, quando ele nem jogou nenhuma partida, Cristiano Ronaldo como semideus, quando ele, de fato, fez papel de estátua, Ciro Nogueira, Artur Lira, Davi Alcolumbre, Flavio Bolsonaro como políticos... Mas quem teve Ulisses, olha para essas pessoas e não as reconhece. Apenas estão no time para serem vistas. Não são. Não serão. Nunca foram.
As palavras. Temos que dizê-las, mas muitas vezes as olhamos e sentimos horror, pânico, ojeriza. Mas elas estão lá, saindo da boca das pessoas, nos atravessando como facas.
As palavras fazem parte deste extremo. São enormes, dilacerantes. São vida e morte, alma e calvário.
Humanas. As palavras.
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
“Salva pelo signo?” Bug Sociedade
Sou do signo virgem. Não entendo muito, mas é tão comum as pessoas me olharem com aquela cara de “eu vi logo que devia ser do signo virgem”, que devo exteriorizar uma ou muitas coisas desse mundo. Entretanto, eu que ainda pouco sei desse signo, fiquei a saber que a partir de uma certa idade somos mais o ascendente do que o próprio signo. Gente, mas eu ainda nem estou no primeiro nível de uma aprendizagem e já me vem outra? Tipo começar um diploma sem ainda ter terminado o anterior.
Mesmo com pouca informação sobre astrologia, signos, etc, percebo que se vai mudando, não sei se é por causa da idade, do que se vive, do quanto se apanha, mas realmente vamos ficando diferentes. Lembro que as pessoas mais velhas ficavam muito espantadas quando explicávamos o que era a internet, mas agora sou eu que me espanto com o tanto que o mundo mudou.
Uma mulher vai fazer um salto – rope jump – e termina fazendo apenas jump em direção à morte. Uma jovem atirada pelo penhasco como um saco de lixo. Ver aquelas imagens é surreal. Os 3 preocupados em segurar direitinho a menina, e “bumba”, lá foi ela. Depois de a lançarem, os mesmos 3 ficam olhando, aguardando que ela volte sozinha. Tem uma pessoa filmando, tem gente assistindo e tem uma corda no chão, aguardando que algum ser humano se lembre dela. O peito aperta ao assistir as imagens. A pessoa que vai saltar não se lembra de verificar se tem uma corda, uma segurança? Os responsáveis nem pensam na corda? Me espanto, me assusto, me preocupo.
Temos pais e mães que esquecem os filhos no carro e as crianças ou até bebês, morrem no calor. Todos os pais e mães dizem que a melhor coisa que lhes aconteceu foi se terem tornado pais ou mães. O que sucede então para um pai ou uma mãe se esquecer da “coisa” ou pessoa mais importante na sua vida? O que isso significa? Me espanto, me assusto, me preocupo.
Temos pessoas que decidem matar outras pessoas que não gostam e lhes oferecem comida com veneno. Temos pessoas que dizem que amam mas se a pessoa que dizem que amam, diz que quer se separar, matam essa pessoa – e a morte que escolhem é a que está mais à mão. Eu nunca consegui ver filmes de terror mas a vida supera tudo o que acontece nesses filmes. Me espanto, me assusto, me preocupo.
Tem os que começam guerras quando querem, só porque querem, mesmo sabendo que vão matar gente inocente, e que vão retirar milhões de pessoas das suas casas e dos seus países. Os que consideram mais importante o ego, o poder e o dinheiro do que a justiça. Os que estupram mulheres coletivamente, muitas vezes mulheres com quem convivem e de quem se diziam amigos, e que dão como justificação que foi a bebida ou o ambiente. O que aprende o homem e quem lhe ensina que existe algo de bom no estupro coletivo? Ou no estupro? Que conversas têm os homens quando estão juntos? O que ensinam aos mais jovens? Pertenço a alguns grupos de WhatsApp em que somos poucas mulheres – 2, a 3 entre 100 homens. De vez em quando alguém envia vídeos de pornografia pesada para o grupo, depois apaga e pede desculpa de imediato. Nas primeiras vezes eu demorava a entender o que era. Imagine um grupo cheio de personalidades e a imagem que aparece é de uma mulher com algo na boca. Você tenta entender até perceber que ela tem um pênis na boca. Este é um dos vídeos mais suaves. Tento entender, mas é difícil. Você está entre pessoas com cargos muito poderosos na cidade, estado, país, onde você mora. O tempo destas pessoas é gasto assim? É esse seu interesse na vida? Ficar passando vídeos de sexo pesado entre os amigos? Tem algo de muito, mas mesmo muito errado na educação sexual dos homens. Muito. Me espanto, me assusto, me preocupo.
Volto aos signos e à minha desinformação sobre o que cada um significa. Mas preciso assumir que também sei muito pouco sobre os seres humanos. Perto dos meus 60 anos me dou conta que nada sei sobre nós enquanto civilização. Pelos meus olhos, tem dias que vejo como somos incríveis, pelos mesmos meus olhos, tem dias que vejo como somos horríveis.
Um destes dias vimos um menino brincando na rua. Paramos, falamos um pouco com ele, ele explicou como era o jogo. Parecia tudo tão igual aos tempos em que nós também, éramos da sua idade. Acontece que quando nos despedimos ele de imediato pediu dinheiro, não para comer, não para saúde, mas pediu dinheiro para comprar cromos para a sua coleção da Copa do Mundo. Eu acho que ficaria de castigo por toda a eternidade, se eu tivesse feito algo assim e meus pais soubessem. Me espanto, me assusto, me preocupo.
Não sei mais como proceder em algumas situações, não sei mais onde está o limite do que somos capazes no sentido negativo. Parece que a culpa é da internet, das redes sociais, da IA, mas quem faz e gere tudo isso são seres humanos. Estou em convalescença em relação ao que penso, à minha esperança na raça humana. Talvez seja um bom momento de ouvir coisas boas do meu signo...e dos outros...para me animar...
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Picasso
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