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Aparências - a Bela e a Fera da Comunicação


A religião meio que nos passou a perna quando instituiu anjos de olhos azuis. Ficamos mal-acostumados e confiamos nas pessoas com os olhos claros. As belas. Parece que dentro dos olhos claros está toda a pureza e, mesmo sabendo que uma coisa não tem nada a ver com a outra, nós olhamos e somos induzidos ao erro.


As vezes dá pra combinar beleza de cara e de caráter - Gisele Bündchen é mesmo apaixonada pela natureza, ela mesma até hoje sendo uma bela “um pouco selvagem”. Mas atualmente o Brasil vê pares de olhos claros implacavelmente impiedosos, falando todo tipo de grosseria, levantando ofensas, mentiras e “aleivosias” – lembram dessa palavra? “Traição ou crime cometido com falsas demonstrações de amizade; perfídia, deslealdade”. Se discorda, logo ofende – em bom português, se perde a jogada, dá logo uma canelada porque sabe que o “juiz ou presidente ou rei” não vai marcar falta.


Entramos na era dos homens fofoqueiros, do tipo baixos, de esquina, do pé sujo. Com seus olhos azuis eles estragaram a face dos anjos. Não confio mais na cara antiga deles. Que tal uns anjos pretos, que tal anjos mulheres – já que anjo nem costas têm, segundo o ditado? Que tal transformarmos todos esses homens em Lúcifer pra que ele desça ao inferno e fique por lá mesmo – já que ninguém merece criaturas insidiosas e maledicentes por perto?


Alguns estragaram os óculos redondos de Freud e Oprah, ao usá-los; estragaram meu olhar ao olhar os olhos que nos olham dentro da igreja – já que os santos também têm olhos claros; eles que queimam a floresta e praticamente pedem “resgate internacional” pra decidirem se vão nos poupar uma nesga de terra não arrasada, quando todos estão vendo as onças, os jacarés, as pacas, as antas, as araras, os macacos, a água, a vida queimar.


Para o Brasil, anjos mestiços como nós; altivos e miscigenados. De olhos castanhos. Mas lindos e honestos, só pra variar. Sem uniforme de nada porque somos nossas cores. Somos nosso riso, mesmo na desgraça e pra pirraçar até a desgraça. Somos essa quase indisciplina, sabendo que nossa bondade cabe perfeitamente nessa indisciplina.


Pra nós fica o aviso: um pouco mais de atenção a ação desses sonsos disfarçados de santos pra gente ver claramente o que se esconde atrás da imagem, dos cabelos bem penteados, sem nem um fio fora do lugar. Pra quê tanta perfeição, pra quê uma roupa sem nem um amassadinho, com golas e gravatas tão bem arrumadinhas, senão para tentar nos enganar? Qual é o discurso de ódio que lindos olhos claros podem esconder? Qual é o preconceito subjacente? A discriminação disfarçada? O crime de empurrar esse convívio que ninguém quer deve ser cobrado de que forma? De quem? Perguntas... não sei como viver sem elas...


Mas a reposta é que o nosso destino é a esperança, é compaixão e gratidão e com eles vamos aprender a ver o mal, mesmo quando ele tenta parecer, se travestir de algo que nem passou perto de ser, nem passou perto da nossa generosidade. Abram os olhos. Ninguém pode nos impedir de ver porque basta abrir os olhos. Saiam da imagem e cheguem finalmente à fonte, ao fato.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

Qualquer profissional, cedo aprende que a boa aparência é necessária para ser ouvido e respeitado. Aprende que a aparência é uma ferramenta muito importante da comunicação. Roupa cuidada, limpa, um corpo moldado para a conciliação e apaziguador de conflitos. Movimentos serenos, neutros, discurso organizado e ações competentes. Depois vem o estilo de cada um. Uma colega conta um dia que quando trabalhou alguns anos num lugar de relevo, algumas colegas criticavam sua forma de vestir: sem salto alto, sem saia curta, sem maquiagem, cabelo curto. Todos esses comentários chegaram à sua diretora. A diretora chamou-a e lhe disse: “- não me preocupa a sua escolha do tipo de roupas que usa. Isso não é importante para mim nem para o serviço que faz. São escolhas suas. O que me preocupa é que, como em todos os lugares, venha com roupa limpa, venha cuidada, que trabalhe e que demonstre competência e capacidade no cargo que ocupa. E isso é o que tem feito. O resto é o resto.” A aparência é apenas uma ferramenta, não é o fundamental. Uma árvore desenhada não é o mesmo que uma árvore verdadeira. A árvore desenhada até é mais perfeita, mais bonita, ou como queremos que seja. A verdadeira árvore tem tempo, consistência, experiência, conteúdo. O mais importante está dentro. O mais importante é o que não se vê, é o que é. Mas estamos tão esquecidos disto. Por quê?


Pela vida fora conhecemos muitas pessoas e queremos saber como elas são logo no primeiro instante. Enchemos a nossa cabeça de pré-conceitos, de categorizações e de estereótipos que nos acalmem essa inquietude estranha. E, por essa urgência, cometemos também erros que demoram a ser corrigidos. Quantas pessoas chegam à nossa vida, lindas, doces, carinhosas, modernas, estimulantes, perfeitas, competentes? E nós? Gritamos aos céus de alegria pela sorte que tivemos. Em pouco tempo vemos apenas a perfeição. No entanto, algumas vezes, tudo isso foi apenas imaginação nossa. Queríamos tanto que víamos ouro em taças douradas de latão, lagosta em pratos de pão duro. Essas pessoas apenas não eram assim. Elas apenas pareciam. Quantas se vestem com a melhor roupa do mundo, andam nos melhores carros, etc, e quando abrem a boca, não sai uma frase de bondade ou generosidade? Uma frase que possa enriquecer os nosso dias e as nossas interrogações na vida? Uma frase que possa ajudar os outros? Nada. Apenas palavras tóxicas que provocam discórdia, que humilham, que não dão paz aos dias.


Eu posso enriquecer a minha competência com uma cada vez melhor aparência, mas não posso, com ela – a aparência – enriquecer o meu conteúdo, o meu conhecimento, a minha contribuição para um mundo melhor. E também não posso esconder o meu vazio intelectual, toda uma vida, com uma impecável aparência, se os outros estiverem atentos, claro. Pessoas magras não são melhores do que pessoas obesas ou acima do peso. Pessoas em cargos importantes não são melhores do que o senhor que vende garrafões de água na rua. Se andarmos assim tão distraídos, até um homem de olhos azuis, com cabelo encaracolado loiro e dentes brancos permite a destruição de natureza, diz o que quer, permite barbaridades e se mantêm no lugar poderoso onde se encontra. Se andarmos distraídos, elegemos a aparência e pagamos caro na vida essa escolha.


Numa aldeia, há muito tempo atrás, existia uma senhora que ao que sei, vivia na rua e andava sempre com uma galinha debaixo do braço e com um chapéu na cabeça. Dizem que nos dias religiosos, em que a igreja estava muito cheia, quando ela entrava, logo se arranjava um enorme espaço livre à sua volta, devido ao aroma difícil que a cercava. Um dia, numa casa dessa aldeia, onde todas as pessoas próximas entravam pela cozinha, mas as de cerimônia entravam pela sala, alguém tocou no sino. A empregada foi atender. Voltou e falou:

“- Senhor, está ali uma senhora que quer falar consigo.

- Quem é? – pergunta o dono da casa.

- Não sei. Ela tem um chapéu na cabeça.

- Então peça para entrar para a sala, que eu já a vou receber. – diz o dono da casa, se aprumando todo para ir para a sala receber tão distinta pessoa.

Podemos todos imaginar o resultado. Quando o dono da casa chega à sala de sua casa que só recebe pessoas distintas, estava esta senhora que vivia na rua, com sua galinha debaixo do braço e seu chapéu na cabeça.

Ana Santos, professora, jornalista

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