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“AMARGO INVENTÁRIO” e “Incompreensível Colosso” Bug Sociedade

há 2 dias
7 min de leitura

“AMARGO INVENTÁRIO” Bug Sociedade

Por algum motivo inexplicável, as pessoas reconhecem a brutalidade do pai, o descaso, a indiferença com a nossa vida, na pandemia, o cinismo, a falsa ideia de não ter bens, tendo bilhões, mas... continuam tendo extremo preconceito contra a outra pessoa – aquela que, por ter passado maus bocados na vida – tenta requalificar em todos os níveis possíveis: financiando casa, educação, a estadia na escola, comida, gás, saúde, máquinas boas para tratar as doenças.

Por algum motivo minha cabeleireira, que usou o SUS para operar as pedras na vesícula da filha, acha que o filho do cão, não nasce cão. Que o filho da maldade, tem alguma bondade dentro de si. E não adianta explicar que a minha terra é a mesma que a dele, que a carniça nunca fez nada na vida, que nunca nem fez projeto porque ganhou tudo de mão beijada pelo cão do pai dele. Ela saiu de fininho da conversa.

Você olha para o Brasil e vê milhões de pessoas que dizem: eu não entendo nada de política, mas... e daí largam a bomba.  É tanta desilusão que a gente olha a vida dos dois homens e vê que um viveu como tal, enquanto o outro galinhou, chifrou a mulher, enganou todo mundo e continua passando as pessoas no beiço.

Claro que vou continuar falando que vim do mesmo lugar que o cachorro, que conheço como as hienas riem da desgraça dos outros. Resta agora que haja mais gente que se pergunte: “o que afinal esse cabra fez na vida além de fingir que trabalha”? Como essa carniça consegue tanto dinheiro de sobra, sem deixar as pessoas normais de cabelo em pé? Então o capiroto compra uma mansão que mais parece um clube de tão grande e todo mundo acha isso normal? Ninguém se pergunta: Com que raio de dinheiro essa gente vive comprando mansão de milhões aqui e fora do Brasil também? Como que ninguém tem a capacidade de comprar mais de 100 apartamentos? Só eles? Já pensaram nisso? No Brasil inteiro, eles têm mais capacidade de comprar apartamento do que todo mundo? Por que o dono da padaria não tem 100 casas? O cara da Lotérica ou o da loja no Shopping? O que tem uma grife de roupas ou de óculos? Ninguém desconfia de onde vem o maldito do dinheiro deles?

Me lembro muito bem do Collor de Mello. Todo bonito... Caçador de Marajá, ele se dizia. Pois roubou uma nota! Roubou o dinheiro de todos os brasileiros no primeiro dia de governo! Tinha gente se suicidando em toda parte. E o povo não aprende... que diacho de ilusão desgraçada da vida é essa que todo mundo aponta que ele é amigo do bandido mais bandido da história – o Vorcaro das surubas, das prostitutas, do desvio de dinheiro dos velhinhos, do assassino de aluguel, das ameaças a qualquer um que atravessasse em seu caminho – e ninguém tem opinião nenhuma!  Que raio de herança nós temos que carregar de ter esse trauma de ser “o corno que só acorda depois da traição”?

O “pai Carniça” inventou que UBER era um tipo de empreendedor. Na verdade, UBER é um tipo de escravizado porque não consegue nem fazer xixi direito durante o dia. O mesmo pra todos os serviços de entrega que existem. Mas basta trocar o nome da coisa e o pessoal acredita que a coisa mudou. Que fazer bico acabou. Sinto muito, mas não. É um espólio terrível o da ignorância. É um espolio terrível a teimosia. É um espólio terrível dar crédito a quem te engana, a quem te rouba. Sempre em confronto, embora todos saiamos perdendo porque não tem gente rica aqui. Porque nos enganam que comprar um carro à crédito é riqueza, enquanto tem ilhas e aviões escondidos.

Amargo inventário, pra uma mais amarga ainda herança.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

“Incompreensível Colosso” Bug Sociedade

Ainda estou em choque. Dizem que o Brasil não é para “meninos”. Não é para meninos, mas também não sei para quem é. É tudo tão, mas tão imprevisível por aqui... Tudo tão sem lógica, onde tantas vezes o bom senso perde...

O Brasil é um país gigantesco, com geografias muito díspares, que geram educações, formações, tomadas de decisão, opiniões, mais do que diferentes - opostas. E se enfrentam, se confrontam, quase nunca se complementam. Uma pena porque o país seria ainda mais poderoso. Ceder e complementar é algo ainda muito difícil de fazer aqui.

As pessoas aprendem a pensar uma coisa e nunca mudar essa opinião. A torcida do Flamengo ou de qualquer outro clube segue o clube até à morte. Em relação às religiões, a mesma coisa. Ninguém, ou quase ninguém se disponibiliza para avaliar se a sua religião lhe faz mal, ou lhe é prejudicial. Não existe esse tipo de pensamento ou ação, e a defesa da sua religião é também algo profundo e intransponível. Não existe alguém mudar de religião, nem de clube. Imagina de lado político...

Tem também este jeito de defender o que acha certo atacando quem pensa de forma diferente. De novo, no futebol, existem grandes rivalidades que levam quase diariamente a brigas, muitas vezes brigas muito feias. Como posso agredir alguém que é daquele clube desde os seus ancestrais e que considero pior do que eu e errado? Se calhar eu sou do meu clube por causa da mesma razão. Por que eu estarei certo e o outro errado? E por que alguém tem de estar errado? Esta aprendizagem, importante aprendizagem vai demorar... Briga-se por diferenças em vez de se respeitar as diferenças.

Na religião vemos diariamente o ataque à matriz africana, aos seus terreiros, aos seus orixás. Não chega pensar de forma diferente, ainda tem, muitas vezes, a intenção de prejudicar quem não pensa igual. Isso complica a tranquilidade da vida num país que está literalmente rachado. Rachado a meio. Uns pensando de forma diferente dos outros, mas além disso, odiando os outros. Água e azeite, a coisa não se mistura e cada vez azeda mais.

A disseminação da informação, das publicidades, das sondagens, das mensagens verdadeiras ou falsas, não é mais controlável pelo comum brasileiro. Pensando que o país estava indo numa direção no final do primeiro turno, os resultados são totalmente opostos. O que era visível, “mostrável”, que circulava, criou uma ideia de que talvez o candidato e atual Presidente Lula da Silva, vencesse no primeiro turno. Como isso se transforma numa derrota? Como isso se transforma num Senado com cada vez mais Bolsonaristas? Com a mulher de Jair Messias Bolsonaro, eleita senadora com o maior número de votos da história? Com a ex-mulher de Bolsonaro, eleita? Com o filho “Carluxo” eleito, na nona escolha de um estado onde se conseguisse eleger? Com Eduardo Bolsonaro aguardando a vitória do irmão para entrar no país e eventualmente virar um dos ministros do seu irmão Flávio? Com o impeachment de alguns ministros do STF começando a desenhar-se no horizonte?

No Senado Federal, em 81 cadeiras, 49 serão de direita - 60,5%. Na Câmara dos Deputados, em 513 cadeiras, 283 cadeiras de direita - 55,02%. É muito poder em pessoas que pensam muito pouco nos outros, na sociedade, nos que precisam.

Só coisas que não bateram certo, que deixaram todos sem entender como funciona este país. Como se colocássemos gasolina num carro e ele não funcionasse e noutro carro, funciona até com água. Na esquerda fazer tudo bem, muito bem, de forma perfeita, cuidadosa, ajudando quem precisa, não funciona, mas na extrema direita tudo é possível, qualquer pessoa consegue milhões de votos, o candidato mais inacreditável é eleito. Como tantos milhões de pessoas votam na extrema direita? A justiça aponta crimes, irregularidades, o ex-presidente está preso, tem um filho fugido nos EUA, o filho candidato à presidência sendo acusado de crimes muito graves, e como existem brasileiros que votam nestas pessoas? Lula da Silva foi preso e ostracizado por causa de umas supostas obras num apartamento e num sítio, como então pessoas que são acusadas de crimes do nível que estamos ouvindo, são votadas e eleitas e nada é grave? O Brasil incompreensível. Um colosso, um desejado colosso, completamente incompreensível. Olhamos as praias, a comida, a música, o povo, mas precisamos olhar para o lado sombra deste país que vai voltar de novo e nos fazer sofrer muito.

21% do Brasil não foi votar. 21% são 30 milhões de brasileiros que podem ser muito importantes na continuidade da democracia. No meu país de 10 milhões de habitantes, cada um teria de ir três vezes votar. É muita gente deixando o seu país à deriva.

A esquerda tanto tempo em campanha, não percebeu o trabalho invisível que a direita fez, e agora terá de fazer milagres em 3 semanas. Desejo a maior das sortes à coordenação geral de Edinho Silva (presidente do Partido dos Trabalhadores) e ao responsável pela comunicação e marquetagem, Sidônio Palmeira. Fiquei com a sensação que neste primeiro turno fomos jogar contra um time que não estudamos bem, ou que consideramos fácil. Aparentemente foi estudado o que eles faziam, não o que poderiam fazer. Aparentemente não se respeitou o adversário, não se preparou bem o que se devia fazer e no domingo foi como se os democratas tivéssemos apanhado um 7-1 da extrema direita. É preciso fazer um luto curto e fazer destas 3 semanas uma possibilidade. Voltar para o bolsonarismo de novo, para uma época onde morreram 700 mil pessoas, onde as minorias como os pobres, população lgbtqiapn+, mulheres, idosos, foram e são menosprezadas, e onde coisas que não posso escrever aconteceram e podem voltar a acontecer, é assustador.

Ao trabalho...

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Almada Negreiros


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