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“ALGUMAS (DURAS) VERDADES” e “Certezas, quem as tem?” Bug Sociedade

“ALGUMAS (DURAS) VERDADES” Bug Sociedade

Carnaval em Salvador é selva. Uma maratona sem fim para todos os que por acaso não estão na Avenida, mas estão por ali. Não há – pelo menos que a gente saiba – um plano de contingência para os moradores irem e voltarem. Então, a ideia geral é que a gente viva com o programa das atrações na mão, equilibrando comprar pão ou ir ao mercado, com a passagem dos artistas nos trios. E quem enfartar? E se houver um enxame de abelhas escondido numa das pedras da praia? E se acontecer um arrastão? Tudo entregue nas mãos de Deus. A Avenida atualmente “entala” o folião, que se vê em meio ao fluxo de dezenas de milhares de pessoas e os isopores pesadíssimos de cerveja ladeando as calçadas. Se der um ladrão, se escapa por onde? Tem alguém na prefeitura que seja responsável pela comunicação desse serviço? E se existe, como não ficamos sabendo? Quem, qual placa ou sinal nos informa claramente quais são os escapes dos trios em caso de necessidade? Existe isso? O Leo Santana cantando e alguém cai e quebra a perna. Por onde a pessoa sai se tiver caído perto do Cristo, do Morro do Gato?

                  Talvez, entre uma “cimentação” e outra, a Prefeitura se pergunte alguma coisa, tenha alguma dúvida acerca do que a nossa cidade vem recebendo a cada ano. Eu vou dar uma pista: Recebemos gente - e um enorme contingente de cada vez. Não há aqui uma única placa indicando como as pessoas devem dispensar seus restos - e a ausência de lugares, placas, avisos, nos deixa com a primeira grande sequela das festas: lixo. Meus heróis aqui são os garis – que fazem um trabalho ininterrupto e inigualável, diante da falta de educação reinante. Tenho muitas perguntas e sugestões a fazer: Quem acha que esse tipo de banheiro químico nos atende está completamente errado. Essas pessoas vão a esses banheiros? Alguma vez na vida foram? Ninguém sente o cheiro que os banheiros exalam? Alguém já viu a diferença entre esses banheiros e os japoneses, por exemplo? O que me faz cair no trabalho educativo que nunca foi feito com os homens daqui e onde também se encaixam os de fora: como nunca lhes foi dito que a rua não é lugar de ninguém fazer xixi? Como nunca foi posto em palavras o prejuízo que a ureia do xixi dá a cidade por ano? Como o nosso caríssimo IPTU nos mergulha cada vez mais em cimento e asfalto, quando ninguém autorizou isso? Como, depois de destruir a arborização da cidade, ele vem à público falar que BRT é atraso? Então não pagamos engenheiros pra projetarem ações futuras? E falando nos engenheiros: em que lugar será que estudaram para serem tão pouco engenhosos? Salvador não tem uma única obra municipal que preveja funcionalidade e estética ao mesmo tempo. Resultado: pichações. Somos pioneiros em inaugurar uma obra hoje e ela já aparecer pichada amanhã. É tudo horrível e com a eterna aparência de sujo.

                  Transporte nem vale a pena falar porque é muito compreensível todo mundo sonhar em ter carro, numa cidade onde os ônibus nitidamente não são novos. Não vou falar das baratinhas de brinde, lá dentro. Não vou falar dos bancos ruins. Não vou falar dos condicionadores de ar prometidos. Não vou falar de que a engenharia de tráfego (no mundo inteiro, o que me faz perceber que Salvador não deve fazer parte do mundo), privilegia o pedestre, quando nem calçada nós temos.

                  Na minha rua sempre houve bueiros. Como se imagina um bueiro? Um buracão ligado a uma canalização pluvial que desemboca em algum lugar, certo? Mas na minha rua – repetindo: de IPTU altíssimo – todos os bueiros foram tapados, depois de criados. Alguns, têm até grama em cima. Vamos somar mais? Há alguns anos, vieram recapear o asfalto velho. Só que colocaram um asfalto em cima do outro, não rasparam o velho para colocar o novo. Resultado: o meio fio da calçada é praticamente da mesma altura do asfalto. Se você perguntar o que é que tem, eu vou responder: Some que os bueiros foram tapados e que calçada e asfalto são praticamente a mesma coisa. Agora pensem aquela nossa “chuva de balde” – tão baiana – caindo. Será que alaga a parte baixa da rua? O que vocês acham?

                  Não vou falar das árvores privadas que são intocáveis, embora sejam publicamente perigosas por não serem podadas. Não vou falar dos terrenos de prédios que são criadouros de ratos, mas que também são intocáveis por serem privados. Não vou falar da falta de campanhas educativas para que pelo menos as latinhas sejam postas em separado do lixo comum – fico me perguntando o que Salvador foi fazer na COP 30, na Amazônia, se nem chegamos ainda ao ponto de separar nossas latinhas para evitar que os catadores tenham que rasgar o lixo em busca delas.

                  A prefeitura precisa vender o carnaval para bebidas mais fortes – há muita coisa pra esquecer por aqui.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

“Certezas, quem as tem?” Bug Sociedade

Certezas, quem as tem? Os que as buscam. Os que as treinam. Os que sabem o quanto é necessário repetir, pesquisar, desenvolver, se dedicar ao que querem ter a certeza.

Quando somos capazes de fazer algo, não podemos esquecer que basta deixar de o fazer, para logo perdermos o ritmo e a habilidade que parecia aguçada para sempre.

Esquecemos que saber fazer algo num ambiente favorável, não significa que saibamos fazer a mesma coisa num ambiente hostil, ou quando estamos cansados, ou quando estamos ansiosos, ou apressados.

Quando fazemos mais ou menos – umas vezes bem, outras vezes nem por isso – esquecemos que o que falta é repetir, mas repetir corretamente.

Esquecemos, que bastar fazer as coisas mais ou menos, nos vai levar a fazer as coisas mal, em situações de estresse, quando mais cansados ou nervosos ou apressados.

Ter confiança nas nossas capacidades é muito importante, mas não chega. Repetir, melhorar, aperfeiçoar, nos leva a construir essa confiança e não o contrário. A confiança não cresce sozinha, com estratégias mentais e “pó de pirlimpimpim”. Isso que cresce sem trabalho, é arrogância, vaidade vazia e engano – muito engano. É à medida que vamos melhorando, sabendo o que sabemos fazer bem sempre, repetindo para manter essas habilidades eternamente, que a confiança pisa nosso chão. E fica. Porque é terreno de certezas. Onde sabemos do que somos capazes – de certeza – do que não somos assim tão bons quanto desejávamos – e precisamos repetir muito para melhorar. Certezas não são os outros que nos dão, somos nós que as construímos e mantemos. Ou esfumam-se.

Você pode ter tudo – dinheiro, oportunidade, apoio, saúde – e achar que é superior aos outros, mas mais cedo ou mais tarde a vida te lembra que isso não chega. Tem uma parte que é tua responsabilidade. Adquirir certezas. Necessitas repetir, e repetir muito, para ser bom em algo e não viver a vida toda estagnado. Em vez de aguardar que te façam tudo. Por isso se fala tanto que é bom trabalhar no que se gosta, para não parecer trabalho – no sentido em que pensar em trabalho é pensar em algo que sou obrigada a fazer, sem ter vontade, um fardo. É um pensamento social errado e degradante de achar que a vida nos castiga com o trabalho que temos. E se fosse ao contrário? E se tudo o que nos for “obrigado” fazer, a gente aceitar como benção? Sim, mesmo aquilo que nos ensinam que não é para gostar. Quanta doença desaparecia...

Reveja suas certezas, do que gosta e do que não gosta e se pergunte se gosta porque é assim que aprendeu, ou é assim que a sociedade mostra que é certo, ou se é mesmo por sua vontade e opinião. Você é as suas certezas.

O hábito de dividir a vida em tarefas que gosto e tarefas que não gosto, é adquirido socialmente, e não é saudável. Temos de estar dispostos a fazer apenas.  Sem pensar se gosto ou não. É muito mais útil me preocupar em repetir para adquirir a tal sensação, verdadeira, de que sou capaz, sempre que for necessário.

Os que tudo têm, acham que protegem os seus mais novos, retirando as dificuldades da sua frente, resolvendo tudo antecipadamente, prevendo seu futuro, deixando tudo organizado. Lamento informar, mas isso não é ajudar. Sem certezas, construídas por eles, nada sentirão que são, e nada serão.

Precisamos estar preparados para as surpresas da vida. E não é fugindo, nem fazendo pelos mais novos. É fazendo apenas. Fazendo e fazendo.  

Recordo os jovens que escolhem cursos para fugir da matemática, ou para fugir da literatura, ou para fugir de falar em público. Sem perceber fugimos do que precisamos enfrentar e os mais velhos ainda nos ajudam nisso, mantendo a nossa imaturidade pela vida fora. Um dia a vida decide que é tempo de ouvir, mesmo sem a nossa vontade. De certeza.

Os mais velhos, que já foram mais novos, percebem os erros à custa da dor, na sua própria vida. Por que não mudam nada, nem avisam os que chegam depois? Quer dizer, você cai num buraco porque não sabia que ele existia ali. Sofre e pensa que tudo poderia ter sido diferente se tivesse sabido desse “buraco”. Mas não é capaz de avisar os outros que vão chegar depois de você. Claro que não falo de buracos, mas de comportamentos. É isto que chamamos o padrão de comportamento de um povo – cultura de um povo. Quanto mais envelheço mais me pergunto se é cultura ou ingenuidade. Sabemos os comportamentos que trazem resultados errados, perigosos, mas não os alteramos, não avisamos ninguém. Aceitamos que os que chegam, irão cair no “buraco” também porque é assim que é. E seguimos viagem.

Estranhamos que algumas coisas horríveis permaneçam e outras piorem.

Mutilação Genital Feminina.

Racismo.

Machismo.

Homofobia.

Aporofobia.

Violência.

Crime.

Extrema Direita.

Tortura.

Escravidão “moderna”.

Exploração e tráfico humano.

Inundações

Temporais.

Destruição.

Como uma mancha que temos na parede, que custa a sair, e que aprendemos a aceitar que exista. Adiamos a solução, a vida nos ocupa, aquilo passa a fazer parte de quem somos, das nossas opiniões, palavras, faz parte da nossa cegueira social. Alguns temos dinheiro para mandar pintar por cima, mas já nem reparamos que ela é uma mancha – é como se já fizesse parte de nós. Outros não têm dinheiro para pintar por cima e vira uma característica da casa. Existe sempre algo mais importante para fazer.

Certezas? Para quê remar contra todos? Já está tão difícil assim e os que remam contra a maré se prejudicam tanto... Não arriscamos. Nos tornamos os valentes que apontam tudo, sentados no sofá. Ou os poderosos que mandam e desmandam nas cidades, nos países. Ou os que não gostam de ver a vivacidade e a energia dos que tentam.

O que falta acontecer para pararmos?

Eu leio as notícias e não percebo mais o que precisa acontecer.

Tudo o que temos e construímos, desmorona e não sabemos o que fazer. Os que estão no poder não aprenderam a construir certezas. Conseguiram os trabalhos de outra forma? Talvez de uma forma que não repetia, não exigia. Apenas eles já sabiam os trabalhos que iam conseguir. Tinham a certeza. Essa era a única certeza que tinham – a de que seriam poderosos. E agora? Dá tempo de aprender a ter as certezas que importam?

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Eros curva seu arco, de Lisipo


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