2 Contos: “SE FOR MENTIRA, QUE ME CAIA UM RAIO NA CABEÇA!” e “Professor André”
- portalbuglatino
- há 1 dia
- 6 min de leitura

Conto “SE FOR MENTIRA, QUE ME CAIA UM RAIO NA CABEÇA!”
E, de repente, BUUUM! – Ninguém entendeu nada, com aquele strike de gente caída no chão da rua – e com água da chuva batendo nos tornozelos da moçada. Quem viu a repetição da cena nas redes sociais ficou de boca aberta, sustentando mais uma discussão daquelas onde você espera que a pessoa saiba pelo menos os princípios da eletricidade dos raios - e vê desesperada que ela realmente não sabe nem o princípio, nem o meio, nem o fim – é um totem gigante – mas em branco.
- Deus mandou uma prova e a nossa fé ganhou!
Um guindaste daquele tamanho, meu Deus, captaria até um mini raio, um espirro de raio – que dirá aquela explosão danada... Mas veja: quem foi que disse que tinha sido “incidente” – nem falou de acidente, hein? O organizador do evento. Aí alguém chamou por Deus e ele vupt – pegou logo carona e botou a culpa toda Nele. Afinal, Deus pode perfeitamente medir a fé de quem ele quiser, quando quiser – mesmo que todo mundo saiba que aquele braço enorme do guindaste iria agir como para-raios e que toda aquela água que inundava o chão, certamente iria espalhar a corrente elétrica de alta intensidade rapidamente pela superfície da água e do solo, criando um perigo mortal em uma grande distância ao redor do ponto de impacto.
E não deu outra: 89 pessoas caíram, com muitas formas de queimaduras – algumas graves. Claro, né? A água é muito, mais muito condutora mesmo.
- Todo mundo sabe disso e...
- Claro, não! Deus que mandou o raio pra comprovar a nossa fé. E veja bem: “Se eu tivesse morrido, não teria problema - disse, demonstrando resignação.
Como dizer que a gente paga na justiça se leva o pessoal da sua rua numa excursão na praia e aluga um ônibus velho, que resolve quebrar o freio e se envolver num acidente, por exemplo? Como dizer que o responsável foi avisado da chuva pela Defesa Civil e não ligou? E que tanto não ligou que 89 pessoas saíram de ambulância e ele foi fazer discurso porque o guindaste era pra ele? Como dizer que o nosso planeta é redondo e nunca foi plano? Que os astronautas existem de verdade? Que Deus nos ajuda a inventar coisas maravilhosas como as vacinas para que nós próprios as tomemos para nos curar do ataque de vírus terríveis, mas que Ele não vem aqui matar vírus por vírus, gente – nem foi Ele que mandou raio nenhum porque todos sabiam da tempestade de raios e mesmo assim o guindaste foi pra lá...
Como dizer que você precisa ser proativo, ao invés de ficar esperando por Deus? Ou que simplesmente as mulheres trans são mulheres – como o nome diz – e precisam ter seu lugar garantido no banheiro feminino? Ela via todo mundo revirando os olhos, quando a verdade, os fatos, seu encadeamento eram absolutamente visíveis... Colocou, portanto, a teoria “Deus me testou” em xeque, mas com carinho até. Recebeu como resposta que tinha conexões com o escândalo do INSS, também o escândalo dos resorts e que viajava numa maionese azeda. Também disseram que toda essa fala significava que eu iria “engravidar do vento” porque os fenômenos da natureza são 100% seguros e que eu procurava chifre em cabeça de cavalo para não me render à vitoriosa campanha do deputado. Como “digerir” que essa quantidade de respostas veio porque eu disse que havia um responsável pelo que aconteceu e que ele não era Deus - pelo menos não diretamente!
É claro que vou continuar minha árdua missão de tentar me comunicar com as pessoas. Todas! Até essas - o suspiro lhe brotou do peito de repente:
- Mas as vezes é tão cansativo, meu Pai... Tão cansativo...
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Professor André”
Ana era uma menina que todos chamavam de maria-rapaz. Enquanto era jovem, pensava até que era um elogio falarem dela dessa forma. Era boa a jogar futebol, a subir a árvores, a carregar tijolos, cimento, pedras, areia, armários. Muito ativa, sonhava um dia ter uma vida como a do Tarzan – sim, Tarzan, não falei Jane. Quando estava na adolescência, foi percebendo que aquela forma de a definirem não era afinal tão elogiosa. Maria-rapaz não tinha só coisas boas, como a liberdade de viver junto da natureza. Tinha um lado estranhamente crítico que não compreendia já que suas qualidades físicas serviam a todos, ajudava todas as pessoas, colaborava em tudo, carregava, buscava, alcançava tudo o que fosse necessário. Percebia os olhares, os risos e os comentários por detrás das mãos que tapavam as bocas, mas não queria saber. O que interessava para ela era estar onde se sentia bem, ajudar as pessoas como sabia fazer bem, vestir roupas confortáveis – como poderia subir às árvores com unhas pintadas e grandes, saia curta e sapatos altos? Apesar disso, percebeu que o mundo via nela alguém com algo “errado”. Não entendia porque o mundo via “isso” como errado, porque não podia ser uma coisa boa, quando era mesmo com “isso” que ela fazia todos felizes.
Foi quando começou a fazer parte de times de voleibol, quando foi para a faculdade de educação física que percebeu que, exatamente o que era desvalorizado e criticado, ali era elogiado. Nos times e na faculdade era admirada, pelos colegas, pelos professores, até pelos treinadores e jogadoras rivais. Ficava feliz, mas não completamente, afinal, no lugar onde mais queria ser amada por completo, não o era.
Um dia, no terceiro ano da faculdade, um professor de Atletismo da Faculdade, chamado André, chamou-a. Apesar de ser seu professor nunca tinha falado pessoalmente com ele. Imagina! Falar com um dos melhores treinadores de Atletismo do país, um cara super inovador para aquela época – anos 80. Sempre que aparecia nos corredores da faculdade, os alunos que eram seus atletas, eram os únicos que se aproximavam. O resto dos alunos, ficavam admirando o que ele dizia e fazia. Nas aulas era espetacular, super generoso – algo muito fora do normal, numa época em que existia o hábito de ser agressivo com alunos e atletas para impor respeito. Professor André era gentil, estimulava o progresso pela bondade, pela forma como acreditava sinceramente nas capacidades de todos.
Como tinha dito, um dia, professor André disse à Ana que queria falar com ela. Essa conversa aconteceu no final de uma aula.
- Ana, queria-te pedir um favor. Sei que és jogadora de voleibol e boa, mas preciso de ti num final de semana, numas competições do meu clube. Estamos próximos de ter pontos suficientes para subir de divisão, mas contigo isso fica mais facilitado.
- Eu Professor? Mas eu nunca fui atleta de atletismo. Gosto muito de qualquer especialidade do atletismo, gosto muito das suas aulas, gosto demais do que aprendo aqui, mas competição não tenho nenhuma experiência. Professor eu não sou capaz de o ajudar.
- Ana, estás muito enganada. Pelo que tenho visto nas aulas, nas especialidades de 100 metros barreiras e salto em altura, sem treinar nada, já és melhor do que qualquer atleta que conheço. Adoraria que viesses para o atletismo, mas sei que amas o voleibol. Só te peço que venhas num final de semana participar na competição. Desde que não tenhas jogo, claro. Se gostares e quiseres continuar, ficarei muito feliz, mas entendo tua paixão.
- Puxa Professor, nunca pensei ter um convite destes. Eu amo assistir às provas de atletismo sempre que passam na TV. Muito obrigada.
- Podemos então fazer a tua inscrição? É apenas um final de semana e é aqui na cidade. Não precisas de te deslocar para lado nenhum.
- Sim, podemos fazer a inscrição.
- Ana, só mais uma pergunta.
- Sim Professor.
- Posso saber como foi a tua infância, para teres tanto talento para tanta coisa no esporte?
- Ui professor, não sei dizer. Não sou assim tão importante.
- Não sabes nem o valor que tens. Como brincavas em criança?
- Ah, não gostava muito de bonecas. Só queria estar em cima de árvores, nadando, correndo, andando de bicicleta. Jogava futebol com os meninos da aldeia e era respeitada por eles.
- Isso tudo te desenvolveu um talento único.
- Não sei professor. Lá na aldeia todos me chamavam maria-rapaz e riam-se muito de mim. Até hoje o fazem.
- Ana, riam-se e riem-se muito de ti porque não percebem o teu talento. Mas vão perceber um dia. Eu percebi e muitas pessoas vão perceber. Não és uma maria-rapaz, és uma mulher que tem capacidades que poucas pessoas têm. Nunca esqueças disso quando te voltarem a chamar nomes ou a rir de ti.
Ana não esqueceu mais aquela conversa. Infelizmente não pode ir ao final de semana do atletismo porque teve um jogo de voleibol noutra cidade e isso estava primeiro. Mas custou-lhe muito não ter ido. Dali a um ano mais ou menos soube que o Professor André morreu num acidente de carro.
Gostava que ele soubesse o quanto a ajudou, como foi importante tudo o que lhe disse, mas quem sabe ele vê tudo lá de cima.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Fídias
Sábado é dia de conto no Bug Latino. Contos diferentes, que deixam sempre alguma reflexão para quem lê. Contos que tentam ajudar, estimular, melhorar sua vida, seu comportamento, suas decisões, sua compreensão do mundo.
@buglatino
A Plataforma que te ajuda a Falar, Pensar, Ser Melhor.



Comentários