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A Vida em Poesia


Noale, 1995, de Luciano Garbati

“Ópera bufa”

“Primeiro passará o nosso amor, depois cem, duzentos anos, depois nos encontraremos de novo:

um casal de comediantes, os favoritos do público, vai nos representar no teatro.

Uma pequena farsa com canções, um pouco de dança, muito riso, uma boa comédia de costumes e aplausos.

Você irresistivelmente cômico nesse palco, com esse ciúme e essa gravata.

Minha cabeça virada Meu coração e coroa, o coração tolo rebentando e a coroa despencando.

Vamos nos encontrar, afastar, a sala rindo sem parar, e sete rios, sete montes entre nós imaginar.

E como se não bastassem os fracassos e as dores da vida — nos feriremos com palavras.

Depois faremos mesuras e com a farsa terminada, o público irá dormir depois de muita risada.

Eles vão viver contentes, o amor vão amansar, o tigre vai comer nas suas mãos.

E nós sempre assim desse jeito, nós de barretes com guizos, com seu tinido bárbaro nos nossos ouvidos.”

Wislawa Szymborska

escritora polonesa ganhadora do Prémio Nobel de literatura em 1996. Poeta, crítica literária e tradutora, viveu em Cracóvia.


“O COMPLEXO DO ARMÁRIO”

“Se é infeliz,

insone, angustiado,

cardíaco, dipsomaníaco,

melancólico

ou hipocondríaco,

se anda deprimido

pelo tempo morto dos sonhos

e se acredita

que um na mão

vale mais

que dois a voar,

faça como eu:

arranje um armário.

O meu tem protecção

contra o nevoeiro, as traças,

a amnésia.

possui o tudo-é-d’esgo(s)to,

ar condicional

e muros acolchoados

para cabeças sensíveis.

Previ também

uns ganchos no tecto

para o excedente dos bolsos:

óculos, amores mortos,

sapatos velhos,

casa dos antepassados

e várias outras coisas

de que não direi o nome.

Para as horas de ócio,

escolhi um pedaço de mar,

a biblioteca de Babel,

a praça St. Germain des Prés

às 5 da manhã

e uma floresta do Plistoceno

com inúmeros mamutes

e macairódus,

sem esquecer o fundo sonoro ad hoc,

rugidos, uivos

e barridos extremamente típicos.

Muito repousante.

Experimente

e depois diga se gostou.”

Isabel Meyrelles

escultora e poetisa surrealista portuguesa (1929)

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