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A Educação dos Homens – Errado ou Errado?


Semanas estranhas. O COVID parece ter colocado em foco monstros ocultos. Na França, um professor que falava sobre liberdade de expressão quis dar um exemplo, mostrando quadrinhos com charges acerca do profeta Maomé e, depois de algumas ameaças, foi degolado por um menino de 18 anos. Robinho culpou as mulheres feministas pela rescisão de seu contrato com o Santos, esquecendo que foi condenado a 9 anos de reclusão na Itália por estupro grupal e que a reação das mulheres brasileiras é perfeitamente natural, à medida em que somos as “estupráveis” da história dele. Carlos Samuel Freitas Costa Filho, com a maior confiança do mundo enche a cara da namorada de socos, sabendo que estava sendo filmado e, indo depor na delegacia, sai de lá tranquilamente, mesmo com provas claras de sua décima primeira agressão. Chico Rodrigues se ofendeu porque a Polícia Federal lhe flagrou ocultando 32 mil reais na cueca – haja espaço. Os deputados se melindraram todos, já que o Ministro Barroso o suspendeu por 90 dias – já que ele faz parte da equipe que recebe e administra o dinheiro para a saúde em seu estado - Roraima.


O que essas histórias têm em comum? Primeiro: os homens. Segundo: a presença da imprensa pra denunciar. Terceiro: a educação machista, tacanha e discriminatória que alguns ambientes incentivam. Falamos de meninos radicais chechenos, machistas brasileiros declarados ou de jogadores de futebol mal-educados, tanto quanto de políticos viciados na roubalheira escatológica que é o Brasil, de hoje e sempre, “Amém”. Há um estranho incentivo internalizado em alguns para que a pessoa se sinta impune, superior e capacitada a fazer o que quiser e a ter justificativas perfeitas para qualquer coisa que seja factível – e parte da sociedade, alguns segmentos – acham isso natural.


Porque há quem ache que o degolador está certo em “acabar com o problema” Samuel Paty, que não ache sequer estranho estarmos num mundo onde haja o PIX pra pagar tudo rapidinho e um degolador de facão na mão, espreitando um professor passar andando para lhe “passar a faca” no pescoço. A coisa mais moderna que recordo são Lampião e Maria Bonita... da França para o interior do Nordeste. Do século XXI para o início do século XX. Incrível... Da alta tecnologia para jegue, cavalo, gibão e seca braba.


O que me lembra “grupo de homens machistas brutos e brutais” – os cangaceiros! Não, não – jogadores de futebol acusados de agressão sexual. Ah, mas brasileiro é fogo... não, não – brasileiros desta vez porque há um buchicho com muitos famosos, poderosos e endinheirados atletas que ganham a “permissão” de provar sua masculinidade e coragem estuprando mulheres. Mike Tyson se acabou por causa disso, os clubes e seus estranhos dirigentes de futebol sentam em cima dessa informação e nós somos olhadas como “as verdadeiras golpistas” que somos estupradas de propósito para pedirmos indenizações depois – praticamente “planejamos o nosso próprio estupro”. Será que os homens do Atlético e do Santos não acham isso nem “suspeitinho”? Levemente?


Ah, mas isso é coisa de mau-caráter. Só pode ser porque há um tipo de esporte que dá dinheiro, mas não educa nada! Não, não. Porque há políticos em série que estudaram bastante, mas não se sentem impedidos de usar seus onze dedos em cima do patrimônio nacional de muitos Países – Brasil entre eles. E quem os deveria caçar implacavelmente é o mesmo segmento que os protege de nós incansavelmente – seus colegas políticos, que fazem leis que os blindam, mesmo que traficantes internacionais sejam soltos pelo buraco que foi deixado na lei de propósito! – Afinal, como um político pode ficar esquecido no xadrez? Nunca! Pusilânime, excelências!


Mas são segmentos isolados! Não, não. Porque há o segmento “homem possessivo”, que espanca até a mãe pra ter razão, sair por cima, ser o dono da vitória, subir na sua moto e diante dos narizes policiais “se sumir” – como se diz aqui na Bahia.


Ah, mas os homens é que são “descompreendidos” – outra palavra aqui nossa, da Bahia. Não, não. E é assim que eu acabo – porque somos nós que educamos esses homens. E se somos nós, precisamos mudar a forma de cria-los. Ajudar em casa é tarefa de homem, fazer xixi sentado pra não pingar na tampa é papel de homem, acompanhar a vida dos filhos é trabalho de homem, ser cortês com os outros seres vivos tem que ser papel de homem!

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Homens que são considerados ídolos por milhões de pessoas, pelo que fazem com os pés, sendo acusados de coisas inimagináveis, se fazendo de coitados, acusando a comunicação social ou movimentos feministas. Afinal a sua acusação é apenas de estupro coletivo. Algo – estupro coletivo - que segundo estudos, acontece no Brasil a cada 2h30. Os que são conhecidos. Talvez por isso seja difícil para alguns considerar que estupro - que acontece no Brasil a cada 8 minutos - ou estupro coletivo, sejam ações graves, muito graves. Ser algo comum, pela frequência com que ocorre, não quer dizer que é normal e aceitável. Ser comum denuncia sinais graves de uma sociedade doente. Muito doente. Mas não pense que é só a sociedade brasileira. Infelizmente é a sociedade mundial.


Apareceu na mídia: um homem desferiu socos súbitos numa mulher – namorada – com quem falava na rua – abençoadamente filmado por celular de uma janela de uma casa. Um professor, que na sua aula de liberdade de expressão, repito, aula da disciplina de Liberdade de Expressão, aponta um exemplo real – caricatura de Maomé - e dias depois é...decapitado. Nos arredores de Paris. O que está a acontecer com todos nós?


Atualmente, a educação parece ser algo fácil e imediato que qualquer um tem capacidade para “colocar” nos outros, parece ser algo que não é necessário, ou ainda, que pode ser descartado da vida das pessoas. O mundo sempre precisou de melhorar, nunca foi perfeito. Isso é claro. Mas o que é preocupante é que não estamos fazendo um grande caminho, colocando em risco o pouco que estávamos alcançando e a colocar a vida de todos prestes a desabar moralmente. Uma espécie de faroeste do século XXI.


Sempre me interroguei por que os homens são educados de forma machista sendo que, quem os educa, são também as mães – mulheres. Sempre me interroguei por que muitas mulheres, para terem sucesso e alcançarem lugares de poder, adquirem comportamentos machistas, como se isso fosse a solução. Sempre me interroguei por que as mulheres sempre foram consideradas inferiores, sendo que apenas somos diferentes dos homens. Sempre me interroguei que efeito tem sobre a moral humana o fato de os famosos - atletas, atores, cantores, etc – ganharem monstruosamente mais dinheiro que um polícia que regula a lei, do que um presidente de um país, do que um bombeiro, do que um médico, do que um investigador, do que um professor...


Quando a pessoa não aprendeu os limites e as linhas que não se podem ultrapassar, quando lhe foi permitido tudo, quando cresce junto de pessoas que incentivam comportamentos de superioridade, de poder, de ditador, apenas porque tem talento numa área específica da vida – quando não foi educada - realmente o resultado não pode ser grande coisa. Ser um excelente jogador de futebol não significa que se seja um ser humano que tudo pode, a quem se tem de obedecer em tudo e que quando fala só fala acertado. Ter pés habilidosos não faz filósofos, nem psicólogos, nem sociólogos, muito menos forma bom caráter. Faltam horas gastas em outras áreas que não são correr atrás da bola, fazer uns passes e marcar uns golos. Estamos, enquanto sociedade, confundindo claramente o que é um grande jogador de futebol do que é um grande homem, um grande pensador, um grande exemplo. E alguns jogadores acham que estão acima de todas as leis porque são endeusados pelo que fazem com os pés. Precisamos aprender a distinguir uma coisa da outra senão vamos acabar muito mal.


Jogadores de futebol acusados de estupro ou de estupro coletivo, namorados e maridos que agridem as mulheres, homens que matam ou mandam matar mulheres que querem o divórcio, mulheres mantidas em cativeiro pelos maridos ou namorados e um sem fim de mais casos horrendos todos os dias e a todo o momento. Não sei se estas coisas já se faziam anteriormente à existência do celular e se agora apenas se sabem por serem filmadas, por se colocar escutas, por deslizes entre amigos que se zangam – já dizia o provérbio “zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades”. Ou porque algumas mulheres têm finalmente a coragem de falar, de acusar, de apresentar queixa na polícia. Só sei que é horrível constatar a realidade. Ao mesmo tempo, esse constatar pode ser um enorme passo para que possamos melhorar urgentemente este tipo de situação. Mas precisamos agir.


Os clubes de Futebol precisam ser estimulados – por apoios ou por punições, sendo mais aconselhável por apoios – a incluir no desenvolvimento dos atletas, a educação, a disciplina, a formação escolar, a formação de comportamentos saudáveis e de referência. No mínimo. Muitas crianças querem ser como os famosos e vão copiar tudo o que eles fazem. Os atletas que são referência para as crianças precisam ser bons exemplos urgentemente.


As “FakeNews”, a escolha de publicar ou não assuntos fundamentais de acordo com desejos, intenções e poderes, na comunicação social e nas redes sociais precisa ser revisto no mínimo. Os clubes de futebol do mundo inteiro que protegem seus atletas, seu patrimônio, é uma coisa aceitável, se inclui apoio e correção. Mas ser um clube cúmplice dos comportamentos criminosos dos atletas como desculpa para manter seu patrimônio, precisa de reflexão.


A Volvo está fazendo carros com controle de velocidade. Afinal para quê ter um carro que tem capacidade de ultrapassar a velocidade autorizada nas estradas? Tem mais inovações sendo colocadas nos seus carros. Algo impensável uns anos atrás. Mas coloca mudanças que são necessárias. Quando veremos um clube de futebol a ser o inovador, o pedagogo, o exemplo, o que destrói todos os preconceitos e muda uma sociedade para melhor? O que afinal ainda vemos são clubes contratando jogadores que foram acusados de mandar matar de forma inimaginável a mulher que engravidou um filho seu e recusar homens dos quais se suspeita serem homossexuais, por exemplo. Ou excluir juízes de linha mulheres, que assumem a sua função com coragem e assertividade, apesar da sua beleza. Nós, humanos, precisamos tratar disto urgente. Não as mulheres, não os homens. Todos. E é para ontem.

Ana Santos, professora, jornalista

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