3 Contos: “TEU PAI VAI SABER!” e "Rosas e Roseiras" e “Até as andorinhas sabiam do contrabando da Vó Mina"
- portalbuglatino
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Conto “TEU PAI VAI SABER!”
Sempre era assim. Meu pai me buscava na escola, mas não falava com ninguém de lá. Nem eu. Coloca meu Headfone, aumentava o volume e evitava aquela conversinha, do mesmo jeito que ele. Minha mãe e meu pai eram assim. A gente vivia na mesma casa, mas não juntos. Chegavam as datas mais importantes e ele logo dizia que era pra eu escolher qualquer coisa de presente que ele ia me dar. Que com ele era assim: Da filha dele, todo mundo tinha mais era que sentir inveja!
Me dava tudo. Será que aquilo era tudo? Quando minhas amigas diziam que tinham passado o final de semana nadando e brincando na praia com seus pais e que eles tinham dividido o "mate-limão matador" das praias do Rio, eu me lembrava do veleiro, de cada pessoa lá de casa olhando o celular, minha mãe " se torrando" pra mostrar às amigas e eu - com meu headfone nas alturas. Ninguém me incomodava porque ninguém falava comigo. Será que alguém me via? Eu cresci naquela casa e podia "jogar meus brinquedos pela janela" - a babá, lá de vez em quando, dizia que ia contar pra eles, mas... sabe como é, né...
Alguém da escola me falou que havia uma rede social só para o pessoal gamer, que era legal, que dava pra conversar, jogar junto, que o pessoal mais novo não tinha mesmo com quem conversar em casa... Eu entrei lá. Aquilo que eu vi e que vivi, nem arranhou o que passou no Fantástico, depois. Era muito pior.
Era tão ruim que as pessoas que estavam nas salas virtuais - e nas reais também - chegavam num momento em que se anestesiavam daquelas dores. Era melhor desligar os botões todos . Matar seu bicho de estimação - eu vi, ao vivo. Cortarem o nome de "seus donos virtuais" no próprio corpo - normal. Estupro, espancamento, ameaça, assédio, mentira, manipulação, maldades - depois que você cai nesses "nichos", não consegue sair sozinha de jeito nenhum.
Meu pai falava que em casa estaria sempre protegida e eu tinha vontade de rir. Que cara bobo esse meu pai...
Na rede começaram a pedir dinheiro - moleza isso porque bastava eu falar que precisava e ele já me olhava com cara de "Quanto".
O pessoal da rede começou a ameaçar a gente. Um dia falaram:
TEU PAI VAI SABER!
Gelei. Uma coisa é você ver os outros apanhando. Outra coisa é ameaçarem contar tudo que foi filmado na tua casa!
Fiquei em pânico, pânico! Tive medo de contar em casa, mas tinha medo de fazer o que os caras mandavam também. Tomei coragem muitos dias.
Minha coragem só chegou pra chamar a minha amiga - a que ia com a família à praia e amava Mate-limão - e contar tudo pra ela. Caraca! Ela me pegou pela mão e me levou em casa, esperou meus pais chegarem e contou tudo.
Meu pai se perdeu todinho, minha mãe não acreditou. Tomei coragem eu. Repeti tudo. Minha amiga ligou pra casa, falou com o pai dela. Fomos todos para a delegacia do meu bairro.
- TEU PAI VAI SABER!
Isso ficava me batendo na cabeça... - eu dizia isso na delegacia. Colocaram uma policial no meu lugar, pegaram todos. Ufa...
Meu veleiro, meu Iphone, meu headfone - nada disso adiantou. Adiantou a família da minha amiga se aproximar de nós e convencerem meus pais. Depois disso, entramos todos em tratamento porque lá em casa era apenas um depósito de gente, mas não uma família.
TEU PAI VAI SABER! Tem que acabar. A gente precisa de um lugar pra se aproximar, falar.
Quando me dá vontade de aumentar de novo o volume do meu headfone, eu me aproximo das pessoas. A gente reclama, mas não dá pra viver sem elas - pelo menos minha analista repete isso sem parar!
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto "Rosas e Roseiras"
Muitas vezes, fecho os olhos, para te ver, relembrar alguns momentos. Como se tentasse te beber aos poucos, na vida, sempre que me é possível. Por exemplo, quando vejo rosas, roseiras, lembro de ti. A casa sempre teve vasos, jardim, canteiros, mas eu nem entendia como tudo aquilo existia, sempre tão cuidado. Houve um tempo em que via uma das minhas tias cuidando de rosas e roseiras. Mas depois ela partiu para outro país, outro mundo, outra vida e acho que eu também deixei de prestar atenção a tudo isso. Talvez os estudos e as tarefas que precisava colaborar em casa me ocupassem, talvez ter começado a me dedicar quase por inteiro a um esporte, talvez por ocupar todos os meus tempos livres, lendo e escrevendo às escondidas. Até que parece que acordei de uma espécie de coma em relação às rosas, ao jardim e ao campo e todos os finais de semana, quando vinha da faculdade, ia para o exterior da casa em busca de coisas para fazer, tentando ajudar. Depressa considerei que não tinha a delicadeza, nem a serenidade e o tempo para me dedicar a tamanha sensibilidade em relação às flores. Ninguém me falou nada, mas eu resolvi ocupar apenas o lugar de retirar as ervas daninhas, de podar os arbustos, varrer as folhas, cortar a grama, apanhar fruta. Não me via igual à minha tia e por isso considerei que não seria lugar para mim. Com os anos fui percebendo que as flores e as rosas e roseiras permaneciam sempre impecáveis. Com os anos fui te vendo cuidar de tudo isso e muito mais. O que fazias todos os sábados de tarde, sozinho, parecia-me trabalho de 10 homens e, existia sempre um momento em que passavas por todas as flores, olhando, tocando, tirando erva daninha, podando, falando com elas e sobre elas e ainda existia o espaço para semear algumas, mudar de tamanho de vaso, ou colocar nos canteiros ou no jardim as que estavam nos vasos. Novamente minha mente me dizia que um homem não saberia fazer isso, ou não gostaria de o fazer, ou ainda não o saberia fazer bem. Novamente percebia que tu me mostravas que não interessa o que dizem, não interessa o que aprendemos como normal, se afinal as flores gostam de ti, se afinal todas as roseiras, rosas e flores se alegram com a tua presença, com as tuas decisões e crescem felizes.
Um dia vi-te mexer em vasos, tirar umas e colocar outras e nesse dia percebi alegremente que eu também contribuía para a sua saúde, com as folhas secas que ajudava a acumular no velho tanque e que, com o tempo, se transformavam em terra fértil utilizada nos vasos. Lembro que ganhei coragem para te fazer uma pergunta, apesar desse silêncio em que gostavas tanto de ficar.
- Nunca tive jeito para flores
- Porque dizes isso?
- Porque sempre que tento, elas acabam por morrer e por isso, acho que faço alguma coisa errada.
- Mas nenhuma vive para sempre. As minhas também morrem, mas eu coloco outras e outras. Não existe ter jeito ou não ter jeito. Existe cuidar das que estão bem e trocar boas pelas que morreram.
- Também morrem contigo?
- Morrem com todas as pessoas. O importante é seguir, substituir, mantendo canteiros, jardim e vasos floridos, felizes, harmoniosos.
Desde esse dia, passei a entender muito melhor as rosas, roseiras, jardins, flores, vasos, mas também tudo o que cuidamos e se mantém e tudo o que apesar de cuidarmos, percebemos que está terminando e necessita de ser substituído. Mas mais importante do que tudo isso, a partir desse dia passei a entender-te melhor e a gostar ainda mais de ti.
E é de olhos fechados que te vejo melhor agora, que te sinto e que me acompanhas na vida.
Ana Santos, professora, jornalista
Conto “Até as andorinhas sabiam do contrabando da Vó Mina"
Aos sábados de tarde, o meu pai arrancava no seu carro velho, sem aviso nem preparação. Eu convidava-me para o lugar da frente, mesmo ao lado dele, sem ter ainda idade para o fazer, e seguíamos estrada fora pela aldeia cada vez mais cidade, passando o caminho de ferro como quem atravessa uma fronteira invisível entre dois mundos. Meu pai ia acenando aos seus amigos dos tempos da escola, que se cruzavam pelo caminho. Sempre que eu perguntava quem era, a resposta vinha sempre igual:
- Um amigo do Papá.
E eu orgulhoso, por ter um pai com tantos amigos.
Durante a semana éramos cidade: pressa, escola, obrigações, o barulho de fundo que a vida urbana instala sem pedir licença. Mas ao fim de semana voltávamos à aldeia, onde meu pai tinha crescido, numa pausa e desvio da vida.
Não havia necessidade de avisar. A avó Rosa sabia que íamos, como sabia que o sol nascia e que as andorinhas chegavam na primavera, para ver os cravos brancos do seu jardim. Era a ordem natural das coisas.
A casa era pequena como um segredo bem guardado. Paredes caiadas de branco que o verão tornava ainda mais brancas, janelas abertas com cortinas que dançavam ao vento. A porta dos fundos, sempre aberta, dava para um quintal pequeno onde às vezes morava um cão. Lá dentro, o cheiro a madeira velha e a lavanda, misturados com um cheiro suave de sabão e naftalina. E a frescura de pedra antiga que resiste ao calor de agosto. Uma cozinha com uma mesa pequena coberta por uma toalha de linho, duas cadeiras encostadas à parede, armários com louça acumulada há gerações. Cada prato, cada copo, cada travessa tinha a sua história: uma prenda de casamento, um aniversário, uma birra dos filhos, um testemunho silencioso de um legado familiar. Louça que saía sempre por ocasião para pousar sobre a toalha. E nós os dois, filho e neto, éramos sempre ocasião.
A bisavó Mina estava no seu canto, numa cadeira baixa perto da porta, como se tivesse crescido ali ao longo dos anos e a cadeira fosse já parte do seu corpo. Era velhinha e enrugada como uma carta guardada demasiado tempo na gaveta. Um rosto mapeado de vincos fundos e histórias por contar, mãos de veias salientes que tinham amassado pão e enterrado gente e ainda assim continuavam ali, tranquilas, pousadas de mansinho no seu colo, com uma aliança que lhe recordava o seu marido. Olhos pequenos, escuros e muito vivos, como duas passas que viam tudo. Cabelo branco e liso, testemunho sereno da beleza da sua idade. Quando sorria, mostrava seus dentes perfeitos, e ela ficava ainda mais ela. Tinha a serenidade de quem já não precisa de provar nada a ninguém, e que talvez nunca tivesse precisado.
A avó Rosa preparava o lanche com a solenidade calma de quem cumpre um ritual. Fatias de pão com queijo, marmelada feita por ela, qualquer coisa doce que aparecia como por magia em cima da toalha colorida. Sentávamos, comíamos, o meu pai e ela falavam das coisas deles, das pessoas deles, dos irmãos e dos primos na capital. Eu ouvia sem ouvir, como os miúdos fazem, feliz por estar ali no meio dos adultos, sem saber exactamente porquê.
E então, invariavelmente, chegava o momento das notas da escola. A avó Rosa queria saber tudo: não com a ansiedade de quem avalia, mas com o orgulho antecipado de quem já sabe a resposta e quer ouvi-la na mesma.
- E então? Estás a portar-te bem? Tens boas notas?
E eu, o único neto rapaz, o mais novo de todos, sentia o peso delicioso dessa posição: havia qualquer coisa naquele olhar dela que me dizia que eu era especial de uma forma que não precisava de ser explicada. Era a certeza de que, para ela, eu simplesmente não podia decepcionar. E eu não queria decepcionar. Nunca quis.
Havia também outra razão para esse lugar especial. Tenho o nome do avô que nunca conheci, o marido da Vó Rosa, que morreu antes de eu chegar ao mundo. Carregar o nome de alguém é uma coisa estranha e bonita: és tu, mas és também um eco de outra pessoa. Nunca falámos disso directamente. Mas eu sentia.
E então chegava o outro momento. O verdadeiro.
A Vó Mina levantava-se com um pretexto qualquer: ir buscar um lenço, desligar o rádio, fechar a janela do quarto, uma urgência doméstica de importância desconhecida. E eu ia atrás, chamado por um gesto discreto, quase imperceptível. No seu quarto, no corredor, ou onde a ocasião mandasse, ela metia a sua mão na minha com a calma de uma conspiradora experiente que faz do contrabando o seu ganha-pão. Uma nota dobrada em quatro, passada com dois dedos, como quem entrega um bilhete secreto de Estado.
- É para ti. Não digas nada ao teu pai.
Eu guardava a nota no bolso com a seriedade de um diplomata em missão. Voltávamos para a sala. O meu pai olhava para nós com aquele ar de quem não viu nada, porque estava muito ocupado a reparar o esquentador da mãe ou a contemplar um ponto indefinido no quintal. A Vó Rosa, cúmplice da sua mãe, retomava a conversa exactamente onde a tinha deixado. A Vó Mina, de volta ao seu canto, deixava escapar um sorriso maroto de quem cumpriu a missão que as instâncias superiores lhe tinham confiado.
Todos sabíamos que o negócio ilegal tinha sido consumado. A avó Rosa sabia o que sua mãe Mina me dera. A Mina sabia que a Rosa vira. O meu pai sabia que lhe estavam a mimar o filho sem razão. Eu sabia que todos sabiam. E todos fingíamos, com uma perfeição que nenhuma escola ensina, que não sabíamos absolutamente nada.
Era um teatro pequenino e cheio de amor: uma diplomacia de família onde a cumplicidade fingia ser segredo e toda a gente saía a ganhar.
O verão passava assim naquela casa branca. As flores floresciam no quintal sem pedir licença. A Vó Rosa e a Vó Mina viam os dias correr das suas cadeiras com a paciência de quem já fez as pazes com a pressa do tempo. A Vó Rosa recebia-nos sempre que nos apetecia, nunca reclamava visitas, nunca nos fez sentir que chegávamos tarde ou cedo demais. A porta estava sempre aberta. O lanche estava sempre pronto. A nota já estava dobradinha, esperando o momento certo para deslizar para a minha mão.
Havia qualquer coisa naquelas duas mulheres, mãe e filha, tranquilas e contentes na sua casa pequenina: uma felicidade quieta, sem ambição de ser outra coisa que não fosse exactamente aquilo. Duas mulheres que tinham aprendido, de maneira diferente mas ao mesmo tempo, a arte de estar bem onde estavam. Sem aplauso. Apenas ali, inteiras.
Eu, que vim a passar a vida a construir, a produzir, a tentar ser interessante, capaz e visto, fui buscar muito a esta casa pequena: mais do que percebi na altura, e mais do que consigo ainda hoje explicar. Há anos que ando a tentar perceber de onde vêm certas fomes e certas saudades. E às vezes a resposta aparece aqui, nestes sábados à tarde que nunca acabaram de todo, neste cheiro a lavanda e a sabão, nesta nota dobrada em quatro que ainda sinto no bolso.
As duas, Rosa e Mina, não precisavam que ninguém lhes dissesse que estavam a fazer bem. Elas sabiam. E as andorinhas do quintal também.
Mário GP
Imagem: Salvador Dali
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