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3 contos de Cassandra, calor e família


"Para vento", para praias ventosas.

Conto “CASSANDRA”

A mitologia grega a apontava: Cassandra, a filha do Rei Príamo, que tinha o dom de profetizar e a maldição de não ter ninguém que acreditasse em suas profecias.


Ela fechou o livro de suas memórias e lá dentro se reviu – era como Cassandra: tinha olhos visionários, mas a maior parte do mundo preferia ver o que queria ver e não o que ela via e não o futuro e não a profecia.


No mito, a Rainha Hécuba escondeu seu filho Páris para que ele escapasse da morte; na vida real, por mais que ela apontasse que aquela não era melhor forma de lidar com a situação, que há um preço a pagar por se negar autonomia a alguém e ver que o futuro pode lhe reservar a dependência de quem só aprendeu a depender, via as coisas escapando-lhe das mãos. Queria ajudar, mas suas visões pareciam atrapalhar a evolução dos sonhos que as pessoas tinham sobre a realidade. Coisas que pareciam ser um capricho do destino, para ela eram apenas consequências.


Assim, levantou os olhos de seus pensamentos e se rendeu ao destino de adivinhar o que ninguém queria saber. Ao seu destino de não poder ajudar, diante do fato de que as pessoas preferiam acreditar no que era "obra do acaso, da desgraça ou da desdita". Da vida. Não havia um lugar por onde começar. Começaria inventando uma verdade? Mas se o seu destino era premonizar...


Preparou-se para o melhor e para o pior, aliás, como sempre – premonizar a colocava diante de muitas decisões de outras pessoas – elas veriam que aquele futuro apontado naquele momento era uma construção longínqua, de uma vida inteira ou cairiam na armadilha da desdita, apenas? Veriam no fato da situação ser desenhada assim, dessa forma, uma maneira de agirem sob a proteção dos deuses ou simplesmente se sentiram culpadas o suficiente para repetirem os mesmos padrões?


Como Cassandra, no mito, ela suspirou. E de novo e de novo. Não havia muito a fazer. Se falava, era porque tinha falado. Se calava, era porque tinha calado. Ver o futuro, assim como nas Troianas, de Hécuba e Príamo, não lhe garantiriam a felicidade. Ao contrário: saber, a tornava cúmplice e refém; sequestrada e sequestradora. Ela via o Cavalo de Troia, o apontava; mas como Cassandra, lá estava o aprisionamento de ideias e a perda inexorável, diante de seus olhos.


Piscou de novo. O que era o destino? O que era vontade? O que era Karma? O que era livre arbítrio? Suspirou e foi à vida, já que não havia muito mais a fazer naquele momento.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV



Conto “Dia de Verão”

O Verão. O sensacional Verão. Os dias cheios. Quentes. As noites também. O sono, profundo de cansaço e felicidade.


As noites de convívio, de caminhadas, de passeios de bicicleta, que finalizam mastigando um gostoso pão quente com manteiga e leite.


Os finais de tarde no rio. Caminhada com conversa, com calor. Mergulhos na água gelada, aprender a nadar, abrir os olhos dentro de água, respirar, apanhar as pedrinhas no fundo, tentar nadar cada vez mais tempo debaixo de água. Terminar em estado de cubo de gelo, sentar nas pedras que ainda sentem o sol enquanto seca e aquece de novo. Voltar para casa ainda com cor roxa e com um corpo frio e lento. Por vezes no caminho de volta dá para comer umas amoras ou umas uvas dos campos.


Mas onde o céu é mesmo azul, é nas manhãs de praia. Muito difícil acordar cedo, muita demora para sair. Muita logística. E muita vontade de ir sem preparar nada. Chegar de carro, andar quilómetros com todos os materiais de dezenas de pessoas. Chegar, montar os “paravento” (ver foto), a manta, arrumar as roupas que deixam o corpo solto. E a partir daí a vida vale a pena. Correr, jogar, saltar, construir castelos. Hora do banho e enfrentar o choque brutal de temperatura aos saltos e corridinhas. Para dentro, para fora. Para dentro, para fora. Até que o corpo aceita, arrefece e agora não quer mais sair das cambalhotas das ondas, da areia enfiada por todos os cantos. Sair tremendo, tropeçando, sem sentir o corpo. O nariz fungando horas. Momento de deitar na toalha, ao sol, sentindo o corpo voltando ao normal. Chegando o cansaço feliz, a cabeça cheia das atividades realizadas, o olho perdido no mar. E aquele meio pão com manteiga seguido da pequena mas saborosa maçã reineta tem o melhor sabor do mundo.


Porque a vida não fica assim para sempre?

Ana Santos, professora, jornalista



Conto “Uma família numerosa” 2

O prometido é devido e aqui estou eu a contar mais algumas das vivências da minha família, sobretudo com os meus irmãos ...

Não precisávamos de ter muitos amigos pois entre nós divertíamo-nos bem.


Nasci entre dois rapazes e acompanhava-os em todas as brincadeiras e nunca fiquei atrás nas suas aventuras. Aliás guardo uma pequena cicatriz duma dessas brincadeiras. Havia um muro que separava o quintal dum terraço em pedra onde existia uma mesa também de pedra, a uns dois metros de distância. Um dos nossos entretimentos era saltar desse muro para a mesa mas um dia, calculei mal a distância e fui parar ao terraço. O sangue jorrava da minha testa e a mãe, que estava sempre atenta, apesar dos seus múltiplos afazeres, veio a correr e fez-me o curativo... E depois vinha a recompensa, é que ela nos metia na cama e nos dava um café com muito açúcar... Que delícia era, nem ouvíamos o raspanete que o acompanhava.


No quintal havia uma macieira que dava maçãs deliciosas (focinho de cão) mas para nós não era suficiente comê-las assim naturais. Num local protegido da vigilância da mãe, fazíamos uma fogueirinha, entre dois tijolos, e um de nós ia à cozinha buscar uma panela e açúcar, às ocultas da mãe, claro. Depois, cozíamos as maçãs e regalávamo-nos com esse petisco. A empregada, às vezes via-nos mas não dizia nada à nossa mãe, era também cúmplice ...


Mas fazíamos outros tipos de “ tolices” ...


A propriedade ficava em altura, em relação à estrada e então que fazíamos?...


Ficávamos à espera que passasse algum homem com chapéu, e naquele tempo quase todos os homens o usavam, e, escondendo-nos, lançávamos terra por cima ...


Enfim, essa era uma das muitas brincadeiras que nós inventávamos para passar o tempo .


O nosso irmão mais velho frequentou uns anos o Seminário e lá aprendeu música. Organizou uma coral com todos os manos e ensaiávamos nos quartos que havia numa segunda casa onde alguns deles dormiam, e nas festas de família, sobretudo no Natal , cantávamos para o resto da família .


Assim passei a minha infância, numa família numerosa, onde havia muita disciplina mas também muito amor ...

Maria Lúcia Levert, convidada


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