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2 Contos: “ZUMBIDO CORDIAL” e “Viver cada segundo, antes que me levem...”

Conto “ZUMBIDO CORDIAL”

              Amanhecer de ano novo, 5 horas da manhã - dia claro - e a gente resolveu caminhar logo, na tentativa de fugir do pessoal que ainda estava “comendo água” no réveillon da virada.  A cidade estava em silêncio. Em silêncio não. Havia um zumbido, naquele calorão que à princípio parece meio indiviso, mas existe – todos os aparelhos de ar condicionado estão ligados pro povo dormir no fresquinho.

              Povo inclui, pelo menos aqui no meu bairro, até o cachorro porque quem mora em prédio não deixa o pet do lado de fora do quarto. E subindo uma das inúmeras ladeiras da cidade, cumprimentando os que já estavam nos pontos de ônibus, me dei conta de que o Ano Novo recria sempre a esperança. Não porque a gente pretenda mudar, mas porque temos a esperança de algo nos faça mudar. Talvez aí esteja o poder de Deus – na esperança. Que vem de esperar, mas um esperar alegre, festivo até – porque esperamos pelos milagres da vida. Parece mentira, mas há 100 anos atrás, até tomar um banho por causa do calorão era produção a ser feita, com baldes de água vindos de não sei onde, ao invés de um simples chuveiro – e, certamente, não tínhamos esse zumbido psicologicamente refrescante do ar condicionado espalhado no silêncio da cidade.

              Aliás, esperança é uma coisa maravilhosa porque sem ninguém fazer nada, tem-se a esperança que o calor extremo diminua, que as tempestades de verão melhorem, que o frio intenso não mate ninguém, que a poluição diminua, que a Rússia não destrua a Ucrânia, que apareça um presidente porreta pra colocar Israel no seu lugar e diminuir a dor da Palestina, a fome e a exploração que acontece na África, para impedir que as ilhas não afundem na América central e que golpes e ditaduras sejam para sempre banidos, mesmo votando errado, acreditando em mentiras e se isolando nos grupos zap, sem tentar perceber o mundo novo, com as mesmas mentiras  travestidas de fakenews e pós-verdade.

              Outra coisa engraçada é a esperança de que o marketing vire conteúdo e não o papel que embrulha o pacote – sabendo que todo lançamento de marketing embala produtos, mas achando que dentro daquelas mesmas palavras, mesmas promessas, mesmos lançamentos, vai aparecer o jeito de se ganhar uma fortuna sem fazer quase nada. Essa esperança maluca que nos relaciona com fortunas fortuitas e fáceis, sobretudo – mesmo vendo quanto tempo os bebês levam só pra aprenderem a ficar de pé, a se equilibrarem - e depois a tudo o que esteja relacionado ao caminhar na vida - a gente mantém a esperança de que ficar milionário pode ser uma coisa assim tipo vapt vupt. E se deixa enganar. Cem vezes. A esperança é fogo porque ela se renova a cada aposta, a cada repetição tantas vezes inútil...

              Eu também tenho esperança – mas as minhas são pequenas e colecionáveis. Tenho esperança de que esse ano todas as pessoas decidam dizer bom dia umas as outras todos os dias, que sejam educadas. Nem precisam ser perfeitas, mas apenas cordiais, como sempre fomos no Brasil. E já começamos, eu e Ana há muito tempo atrás, simplesmente porque não custa nada e o retorno é garantido, muito mais do que os 7 dígitos que rolam na internet - porque você ganha sanidade, saúde mental.

              Subindo as ladeiras, ouvindo esse zumbido preguiçoso e dizendo bom dia eu vou me renovando pra ver todas as coisas absurdas e abjetas que se repetem e se repetirão, sem me mortificar – porque podemos mudar o tratamento que damos uns aos outros quando quisermos, sem depender da inflação, do calor, da guerra, da economia ou da bolsa de valores. Podemos nos valorizar, ao valorizar – é de graça. Isso inclui proteger o nosso gênero da loucura masculina, do preconceito nos seus mais largos espectros porque preconceito é ridículo - tanto quanto matar por ciúmes, que deveria ter uma qualificação extra da justiça pela estupidez extrema. Nas minhas pequenas regras, eu incluo também falar com crianças e velhos – que parecem nem existir mais, repararam? Estar presente para dar visibilidade ao que dizem. Pelo menos é melhor do que esperar que seu cachorro fale tudo o que você precisa ouvir das pessoas, por nunca estar disponível para ouvi-las. Porque nós também somos capazes de amar – o cachorro também, mas olhem para nós! Nós existimos.

              Você nunca ouviu o zumbido dos aparelhos de ar condicionado? Então você precisa de um pouco mais de concentração – uma outra coisa preciosa pra se desejar construir num ano novo. Se concentrar na vida, em dar a latinha na mão do morador de rua e não jogar no chão, na cara dele. Percebe? Ser cordial parece uma coisa que você não faz porque é fácil, mas que vai requerer dedicação – e atenção. Então comece pelo fácil. Cumprimente todas as pessoas. TO-DAS. Não escolha. Apenas repita bom dia para todos e ouça o zumbido da cidade, logo cedo, notando o sorriso que se forma na carinha das pessoas e sobretudo vibre quando uma criança compreender o que é ter atenção porque elas nem são mais educadas para verem-se, verem-nos. Portanto, ouça o zumbido e comece com um bom dia para todos. Sua vida vai mudar, você vai ver.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Viver cada segundo, antes que me levem...”

A vida segue me confundindo.

Há quase vinte anos, morreu uma pessoa muito próxima de mim, mais nova do que eu. Tinha uma vida repleta de comportamentos saudáveis e adequados. Daquelas pessoas que você acha que vão durar mais de 100 anos. Morreu antes dos 40 anos. Como assim? Mas será que afinal não basta comer bem, fazer exercício físico, fazer exames médicos regulares? Será que a vida tem uma parte que não controlamos?

Em agosto soube que morreu um cara, meu amigo,  com quem namorei, há uns 30 anos. Atleta, que se cuidava e que ensinava todos ao seu redor a se cuidarem. Como assim?

Em dezembro soube que morreu um cara que já não via há muitos anos, mas que foi bastante importante na minha adolescência. Era muito talentoso para esportes, lindo de morrer, doce, simpático. Convivi muito com ele por variadas razões que não interessam para aqui, por isso, conheci bastante bem como era – e era um cara especial. Morreu praticamente com a minha idade. Como assim?

Ontem estava “passeando” pelo feed do Facebook e vejo outra notícia chocante: morreu um cara que foi um dos meus melhores professores na faculdade, que virou um amigo carinhoso e bem humorado, por quem tinha um enorme carinho e admiração, que tocava guitarra como um profissional, que amava os animais perdidamente, que se cuidava como poucas pessoas no mundo. Como assim?

Na minha cabeça, todos iriam morrer depois de mim. Por isso, na minha cabeça, eu iria embora mais cedo. Não fui. Não entendo. Não quero ir embora. Quero ficar. Mas não entendo esta lógica sem lógica. Não falo de acidentes, não falo das coisas que a vida vai mostrando, como avisos, para nos levar de seguida. Não, não falo disso. Falo de pessoas que, de uma hora para a outra não estão aqui. A vida parece que as sequestra. Parece jogar comigo a um jogo de Damas. Vai me retirando peças e quanto mais eu tento proteger as minhas peças que ficam, é aí que a vida vem e leva uma, duas ou três de uma vez. E no final ainda termina na oitava fileira e ganha uma Dama ou Rainha. É mole?

Gostava de te entender querida vida, gostava que não levasses embora pessoas tão boas, tão queridas minhas. Também não quero ir embora. Oscilo entre o medo de morrer e a alegria de estar viva. Medo que me leves sem me avisares, ou que mesmo que me avises, me leves mais cedo do que eu desejo. A alegria de estar viva e saborear cada segundo como se fosse o mais importante de toda a minha existência.

Acho que me vais continuar a fazer destas surpresas, mesmo sem eu querer, mesmo sem ser justo. Talvez o momento em que vais decidir me levar, não seja justo. Talvez a vida não seja justa.

Preciso, um dia, de aprender isso.  

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Francisco Trêpa


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